Jean Wyllys chateado

Jean Wyllys chateado

4

Na movimentada página do deputado federal Jean Wyllys no Facebook, a exposição de um carta me chamou atenção. Wyllys e outros nomes mais ilustres do PSOL manifestaram sua insatisfação em relação a uma decisão da Convenção Nacional do partido, que contrariou aquilo que queria o diretório estadual fluminense. A análise do imbróglio vai abaixo da carta, para ajudar o leitor a entender porque Jean Wyllys chateou-se e preocupou-se tanto com a situação.

 

Leia a transcrição do post na íntegra e meus comentários na sequência:

 

“O PSOL/RJ decidiu por não aprovar, quase que de forma unânime, a candidatura de Jeferson Barros na Convenção Estadual do partido. Isto não se deve ao fato de Barros ser um pastor: na última eleição municipal, em 2012, os pastores Mozart Noronha, no Rio de Janeiro, e Henrique Vieira, em Niterói, foram candidatos a vereadores. Henrique foi eleito e seu mandato de luta muito nos orgulha!

 

Nossa decisão é fundamentada em princípios. Valorizamos o histórico de lutas e o comprometimento com a transformação social, com os princípios da organização popular consciente e da laicidade do Estado, além da adesão sincera e integral aos Direitos Humanos, como o da diversidade de gênero e orientação afetiva e sexual.

 

A nossa decisão, tão ponderada e discutida durante a nossa Convenção Estadual foi ignorada e revertida pela Convenção Nacional, diante de uma estreitíssima margem, sem que a posição fluminense tenha sido levada em consideração. Na carta abaixo expressamos nosso inconformismo e explicamos as razões e consequências da nossa decisão.

 

Rio de Janeiro, 24 de junho de 2014

 

Companheiro(a)s:

 

O nosso PSOL – partido ainda pequeno, mas com vocação de grandeza – tem no Rio de Janeiro uma de suas seções mais ativas e combativas. Nas lutas cotidianas e nas disputas eleitorais temos nos afirmado, a despeito de nossas fragilidades, como alternativa à degradada política dominante. Isso deriva de mediações equilibradas entre utopia e realidade. E sobretudo da ação de nossa generosa militância (sintetizada, nas campanhas, pelo lema que nos diferencia: “não recebo um real, estou na rua por ideal”).

 

Por isso, causa espanto e indignação a imposição, na Convenção Nacional, pela estreitíssima margem de três votos, de uma candidatura proporcional que foi inadmitida na Convenção Fluminense, após longo e qualificado debate, por nada menos que 86% dos votantes. Tal contraste soa como ofensa à democracia interna e desconsideração às instâncias decisórias de base. Não há matemática política que explique que 14% possam ser majoritários em sua vontade.

 

A candidatura em questão, de Jefferson Barros, está no contexto de um fenômeno mais geral: a inserção na política institucional pelo viés individual, particularista e carreirista, quando não de interesses escusos, sem a dimensão do público e sem o lastro de um histórico comprometido com a transformação social, com os princípios da organização popular consciente e da laicidade do Estado – vale dizer, da adesão sincera e integral aos Direitos Humanos, como o da diversidade de gênero e orientação afetiva e sexual. O ‘entrar para a política’ (como oportunismo destituído de fronteiras éticas e ideológicas) tão em voga também nos atinge, daí o cuidado com a composição de nossas nominatas, para que possamos, inclusive, proclamá-las de conjunto, como quase nenhum partido faz. A Carta-Compromisso dos candidato(a)s aprovada no Rio de Janeiro não pode ser letra morta.

 

Isso nada tem a ver com desconsideração e muito menos preconceito face ao fenômeno religioso popular, que devemos sim procurar entender e, do ponto de vista político da multidão de fiéis, disputar, na perspectiva não da ‘Teologia da Prosperidade’, eivada de êmulos do sistema capitalista, mas da ‘Libertação’, ecumênica, de respeito absoluto ao direito de crença e de não crença. Aliás, este é um saudável debate que o PSOL precisa realizar. Não nos faltam quadros para isso.

 

A obsessão por candidaturas sem afinidade com nosso ideário plural, fundado no socialismo a ser ressignificado e na liberdade a ser conquistada nas lutas emancipatórias, só trará problemas e incoerências na campanha que já se inicia, e retrocessos quanto ao que duramente conquistamos. Quem de fato se ‘converteu’ a uma nova postura, de rejeição ao sindicalismo pelego, ao fundamentalismo sectário e à ‘amizade’ acrítica com homofóbicos endinheirados, devia provar isso com humildade e continuada militância de base, e não fazer da filiação recente a mais um partido o trampolim para disputar eleição.

 

Manifestamos nosso inconformismo com esta imposição vertical, alheia à realidade do Rio de Janeiro e à decisões amplamente majoritárias, reafirmando nossa expectativa de que tal postura inconsequente venha a ser revista. É uma questão de Democracia e de Justiça!

 

ASSINAM: deputados Chico Alencar, Jean Wyllys e Marcelo Freixo, vereadores Eliomar Coelho, Paulo Pinheiro, Renato Cinco (Rio), Paulo Eduardo Gomes, Renatinho, Henrique Vieira (Niterói) e Fernando Arcênio (Itaocara), prefeito Gelsimar Gonzaga (Itaocara) e membros da Executiva Estadual do RJ: Rogério Alimandro (presidente), Honório Oliveira, Renato Jefferson, Rosi Messias e Bruno Bimbi.”

 

Para amplificar o vitimismo, claro, uma foto de Harvey Milk ilustra o post.

Para amplificar o vitimismo, claro, uma foto de Harvey Milk ilustra o post.

 

Jean Wyllys está desesperado. Tremendo nas bases, com medo de perder sua vaga no reboque de Chico Alencar. Será hilário demais se este sujeito, Jefferson Barros, que jamais ouvi falar, for eleito e Wyllys não.

 

Ao que parece, a implicância com ele parte do fato de ser próximo, de alguma forma, a Silas Malafaia. Já li dizerem que foi infiltrado pelo próprio no partido para impedir a reeleição de Jean Wyllys. Será? Bom, que faça o PSOL como o PT, que exige de seus filiados um alinhamento ideológico previsto em estatuto — militância pró aborto e em favor do casamento gay, por exemplo –, sob pena do camarada que “andar fora da linha” perder seu mandato. Se dessa forma não é, se não há dispositivo em seu estatuto que barre o fulano, ou melhor, se não há contra o fulano algo que o desabone perante o estatuto do partido, é de crucial importância destacar que o diretório nacional está certo. Por que o tal pastor não poderia concorrer pela sigla?

 

Tudo que vemos na tal carta de desacordo com a decisão nacional não passa de um choro feio e descarado (essa turma de socialistas do Leblon ama fazer isto: cartas, eventos e tudo o mais em desagravo ao que quer que seja) . Ora, o que é mais descarado do que impedir, sem dispositivo legal que embase tal impedimento, de acordo com a lei ou regra interna vigente, a candidatura de alguém, e ainda por cima dizer que faz isto de forma democrática? Só sendo vesgo para não captar a aura autoritária que este partido, especialmente esse turma chique do Rio, de Chico Alencar a Marcelo Freixo, exala. E são caras de pau, os sujeitos, leiam. Vejam.

 

O tal Sr. Barros não pode concorrer porque eles não querem, votaram para isso, inclusive, na convenção estadual. Ok. Mas se existe uma convenção nacional e se o estatuto do partido (imagino que assim seja, do contrário tal carta nem existiria, seria desnecessária) permite que a decisão dessa convenção seja superior a estadual, não há o que reclamar. Mas há, sim, o que fazer. Estes que reclamam em carta contra a decisão nacional de seu partido precisam aprender como funcionam as coisas aqui no mundo real, onde os “sistemas democráticos de direitos” imperam – muito bem e obrigado. Há de ser ter regras para tudo, ou quase tudo. Não é a moda do momento que manda, não é o alinhamento ao que estiver em voga, não é a pauta que mais vende, nada disso vale mais do que o que estiver escrito, aonde precisa estar escrito. Seria esperar demais que fãs de Marx se adequem ao sistema? Ou isso, ou abiquem do jogo, percam logo por W.O.

 

Repare, usa-se a democracia como desculpa para todas as argumentações; só nos falta entender que democracia é esta a que se referem. Pois a democracia que conheço, valor de direita, burguesa até o último fio de cabelo, é sempre regida por um acordo, por um conjunto de regras, chamado Constituição para o país, mas que na esfera de um partido seria o estatuto. Sem este acordo prévio entre todas as partes, sem este conjunto de regras para nortear a conduta comum, a democracia deixa de sê-la, passando a representar apenas um nome vazio e vão, jogado ao léu e utilizado por aqueles que querem fazer valer suas vontades e nada mais. É isto que vemos neste caso, pessoas que querem fazer valer suas vontades e usam o termo “democracia” para isso. Mas não vemos democracia de fato, vemos seu oposto, autoritarismo.

 

Note, também, logo no início do texto — a introdução, que seria do deputado federal Jean Wyllys –, uma justificativa de antemão. Não fazemos isto por ele ser pastor, é o que ele diz. Hum, sei. Já faz a ressalva assim, de cara, antes de reclamarem. Suspeito, não? E então dá os exemplos que supostamente comprovam a verdade de sua fala. Nos quadros do partido existem pastores, que inclusive concorreram na última eleição para vereadores no Rio de Janeiro e Niterói. Um venceu, o outro não. O incauto, não escolado nessa retórica barata, cai nesse papo de pronto, sem nem pesquisar. Mas pegue o nome dos sujeitos e pesquise para entender a questão. Não é o fato de ser pastor ou não, realmente, até porquê, hoje em dia, o título é vulgarizado e não representa, frio e puro, um ser de perfil específico — temos pastores gays a dar com pau, aparecendo na TV noite e dia –, mas o fato de ser pastor e comunista, isto sim. Digo, comunista ou outros nomes modernos para aquilo que o perfil representa, como “socialista”, “psolista” ou mesmo “esquerdista”. Visto que o PSOL, um dos partidos mais comunistas que o Brasil já viu, atualizado com a verve atual do movimento (guerra cultural, gramscianismo), assim não se chama. Pega mal, afinal. Mas é isso, não é porque Jefferson Barros é pastor que gritam contra ele, é porque ele é pastor, mas não é comunista. Não reza pela cartilha dos novos direitos humanos.

 

No PSOL-RJ, agora sabemos, ainda que não haja dispositivo estatutário, aparentemente, não pode concorrer a deputado federal o sujeito que possuir uma destas qualidades:

 

- Ser pastor e não comunista;
- Ter chances de pegar a vaga de Jean Wyllys.

 

Jefferson Barros até o momento vence essa queda de braço, mas por preencher os requisitos acima, se fosse ele, ainda não comemoraria.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • Matheus Lima

    Mas a pergunta q nao quer calar: pq diabos esse pastor escolheu o psol p/ concorrer,ele por acaso tem algum defeito no cerebro p/ saber q socialismo e cristianismo nao se dao bem?

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Ele, provavelmente, não entende bulhufas de política realmente. Deve ter aquele visão romântica antiga do socialismo. Ou, quem sabe, está realmente querendo roubar a cadeira do deputado gay.

  • GaBriel Amaral

    Tenho poucas palavras sobre a queda de braço interna do PSOL. Quero que eles todos se explodam. Fernando, o Wyllys é uma figura menor. Gente assim não dá pra se levar a sério, e pelo visto, nem o próprio PSOL leva. Um abraço!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Também quero que se explodam, mas acho engraçado tudo isto e curto observar de longe. Wyllys não tão pequeno assim, digo, eleitoralmente ainda é, mas querem que não seja mais. Na mídia, ele é grande, Prêmio Congresso em Foco que o diga.