JANAÍNA PASCHOAL, O DISCURSO E A MILITÂNCIA

JANAÍNA PASCHOAL, O DISCURSO E A MILITÂNCIA

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No último domingo, dia 22 de julho, o PSL oficializou a candidatura de Bolsonaro à presidência da República. Porém, uma outra personagem atraiu os holofotes na Convenção do Partido: Janaína Paschoal.

 

A coautora do processo de impeachment da ex-presidente Dilma, foi convidada a integrar a Chapa de Jair Bolsonaro como candidata a vice-presidente. Até aí tudo bem, mas o que chamou realmente atenção foi o seu discurso na Convenção. Janaína discursou por cerca de 20 minutos, e ao término do discurso viu seu nome, que antes era visto com entusiasmo pela militância, causar incômodo na própria militância.

 

Mas afinal, o que houve de errado nas suas palavras?

 

Janaína começou o discurso agradecendo o convite para integrar a Chapa, mas deixou claro que ainda não havia se decidido, algo absolutamente normal diante de tal proposta. Ela afirmou que para um parceria de quatro anos era necessário muito mais do que apenas dois dias de conversas e que precisavam “pormenorizar” algumas questões antes da decisão. Janaína mostrou assim que não tem sanha pelo poder diante de uma proposta que para muitos poderia ser irrecusável.

 

Ela atacou na sua fala o “totalitarismo petista”, sobretudo dentro das universidades, ambiente que conhece bem depois de 20 anos de magistério, onde não é preciso divergir na totalidade, mas apenas levantar uma dúvida contra o discurso oficial para sofrer com perseguições e cair no ostracismo na carreira. Local, segundo ela, que pequenas divergências acarreta “reações violetas”. Nada que surpreenda quem já passou por uma universidade no país, especialmente em algum curso de humanas.

 

Janaína continuou o discurso se dizendo a favor da vida, contra o aborto, contra a legalização das drogas, contra a sexualização de crianças e adolescentes, contra a corrupção, contra a impunidade dos poderosos, contra o totalitarismo, afirmou que o Estado deve respeitar o indivíduo, criticou a Justiça que em processos semelhantes decide de um determinado jeito “para Caio” e de outro “para Tício”, e se disse temente a Deus.

 

O que dentro de questões tão importantes divergem das pautas defendidas por Bolsonaro nos últimos anos?

 

Absolutamente nada.

 

Janaína e Bolsonaro lado a lado durante a Convenção


 

Então, por que Janaína causou incômodo a parte da militância de Bolsonaro, se as bandeiras defendidas por ela são também defendidas por ele?

 

Pois bem, o “grande” problema ocorreu que num determinado momento da fala, Janaína disse que alguns dos seguidores de Bolsonaro “só aceitam o pensamento uniformizado” e que isso poderia produzir um “petismo ao contrário”. Disse também que sua fidelidade não era ao Bolsonaro, mas ao país e que pretendia dialogar com aqueles que divergia em alguns pontos, mas que tinham as mesmas “linhas mestras”: valorização da vida, proteção a juventude e enfrentamento à criminalidade e ao poder.

 

Pronto. Bastou isso para que 20 minutos de fala fosse reduzido a pó. Ainda não consegui definir qual parte desagradou mais: se a justa comparação com o petismo – aquela parcela da militância, é claro, que só aceita o pensamento uniformizado –; se foi a sua fidelidade primeiro ao país e não ao Bolsonaro – isso deve ter realmente desagradado a ala religiosa dos seguidores –; ou se foi a intenção de dialogar com quem diverge em determinados assuntos. Janaína saiu dos aplausos calorosos para uma “socialista Fabiana”, uma “infiltrada com o objetivo de implodir por dentro o ânimo dos apoiadores”. E que já não serve nem mesmo para eleitora de Bolsonaro mais.

 

A reação violenta ao seu discurso só prova que ele tem lastro com a realidade. Ao divergir minimamente e chamar atenção para os riscos que corremos em nos parecermos com os nossos inimigos, ela de possível vice se tornou persona non grata independente dos ganhos eleitorais que possa vir a ter essa união. Devo lembrar que o alerta que ela deu foi o mesmo que Friedrich Nietzsche deu há mais de 100 anos:

 

Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.

 

Janaína acertou ao afirmar que não se ganha uma eleição com pensamento único, e que o pensamento único não é característica de uma democracia. Pois, para vencermos as eleições precisamos de 50%+1 dos votos, precisamos, como ela disse, somar. Precisamos dialogar com os que divergem, mas que têm as mesmas “linhas mestras”.

 

Bolsonaro chegou num momento importante da campanha, o seu núcleo duro já foi formado, está sólido, mas 30% (percentual que ele detém hoje das intenções de votos) não são suficientes para levá-lo a vitória nas eleições. Temos um número muito grande de indecisos que não se convenceram do discurso linha dura de Bolsonaro, e que ainda o enxerga pelo filtro da grande mídia. É preciso se mostrar mais maleável para angariar esse eleitorado.

 

Janaína pode sinalizar para esse eleitorado a moderação que eles buscam para decidir seu voto. Assim como Paulo Guedes está sendo fundamental para quebrar a resistência daqueles que enxergam na economia o carro chefe do país e tinham dúvidas quanto ao Bolsonaro nesse ponto, Janaína pode ser importante para humanizá-lo aos olhos de quem o tem como um radical, homofóbico e machista.

 

Janaína Paschoal pode significar a possibilidade de diálogo com os indecisos


 

Se limitarmos o discurso e continuarmos falar para o mesmo público que estamos falando há dois, três anos nossas possibilidades de vitória ficarão limitadas. É preciso diálogo. Todos aqueles que tem em vista não apenas um projeto de poder, mas um projeto de país deve ser bem-vindo mesmo que haja pequenas divergências, divergências pontuais.

 

Precisamos ter em mente também que o prazo está cada vez mais curto para definirmos o nome do candidato a vice (o prazo para os partidos registrarem no TSE os candidatos é 15 de agosto) e diante da impossibilidade de contarmos com os nomes já flertados como o senador Magno Malta, Gen Mourão e Gen Heleno (nomes que diga-se de passagem contribuiriam pouco dentro da campanha por falarem com o mesmo público que o Bolsonaro já fala), não temos muito tempo para darmos atenção a pequenas diferenças.

 

Não estamos na hora de nos fecharmos sobre nós mesmos, não estamos criando uma Torcida Organizada, estamos disputando uma eleição contra forças poderosas que pela primeira vez desde a redemocratização se veem ameaçadas. Estamos lutando contra um esquema de poder continental que vê seu projeto ameaçado no país.

 

Se parte da militância se sentiu ofendida num momento que deveria ser, segundo eles, “uma festa” em torno da candidatura do deputado, e não um momento de crítica ao núcleo mais duro dos seus apoiadores, paciência. Não estamos aqui para cuidar do ego de cada um deles, precisamos vencer as eleições. E a Janaína foi feliz em dizer suas palavras onde disse, como disse e no momento que disse: na Convenção do partido.

 

Pois ali ela não estava falando apenas para os três mil presentes, ela estava discursando para o país, para o núcleo duro, para a militância, os apoiadores, os eleitores, os indecisos e para os adversários (o vídeo do seu discurso tem mais de um milhão de visualizações no YouTube). O momento foi mais do que propício para se abrir ao diálogo com aqueles que ainda não decidiram seu voto e que podem ser importantes na campanha que temos pela frente.

 

Parafraseando Janaína Paschoal, não podemos cair na armadilha da cisão, enquanto estamos aqui descartando possíveis aliados e eleitores por não concordarem com 100% das nossas ideias, eles, do outro lado, estão se unindo sob acordos espúrios e nada republicanos para se manterem no poder. Lembre-se que é um velha tática esquerdista dividir para conquistar.

 

Que possamos juntos construir um país que seja o coração do mundo!

 

Brasil acima de tudo e Deus acima de todos!
#Bolsonaro2018

Carlos Santos
Estudante de jornalismo, escritor amador, poeta de ocasião, cronista fortuito e colunista inconstante. Além de tudo, é um ex-comunista que dobrou a Direita.

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