As Humanas e o excedente de riqueza – Parte 2

As Humanas e o excedente de riqueza – Parte 2

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Para ler a primeira parte, clique aqui.

 

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Nenhum país sairá do atoleiro (tal qual o Brasil se encontra) sem que capacite sua população. Estamos, ora, falando de valores e falando de economia, não estamos? A economia primeiro.

 

O Brasil, dos anos 50 para cá, mais que quadruplicou o gasto público com Educação, em proporção do PIB (ver mais aqui, aqui, aqui e aqui). De 1,4% em 1950 para 6,1% em 2011. Quando saímos do regime militar, em 1985, o gasto público educacional era de 2,9%; portanto, mais que dobramos o investimento proporcional.

 

Destaco alguns trechos importantes dos links citados acima (os quais recomendo vivamente) para desenvolvimento do raciocínio aqui exposto:

 

Qualquer que seja o critério que se use, gasto com educação no Brasil já é prioritário. (…) De acordo com dados de gasto com educação no Brasil do INEP, o gasto público com educação no Brasil passou de 4,7% do PIB, em 2000, para 6,1% do PIB, em 2011”

 

“… de acordo com uma consulta que fez Gustavo Ioschpe ao INEP, no Brasil, haviam [sic] 5 milhões de trabalhadores na educação em 2010, sendo 2 milhões de professores e 3 milhões de não professores. Ou seja, para cada professor havia 1,5 funcionário. Na OCDE, a relação entre funcionários e professores em seus países-membros é de 0,43. Se nossa relação aqui fosse a mesma de lá, segundo Ioschpe:

 

Se o Brasil tivesse a mesma relação professor/funcionário dos países desenvolvidos, haveria 706.000 funcionários públicos no setor, em vez dos 2,4 milhões que temos. Como é difícil imaginar que precisemos de mais funcionários que as bem-sucedidas escolas dos países desenvolvidos, isso faz com que tenhamos 1,7 milhão de pessoas excedentes no sistema educacional.’”

 

(…) embora faça algum sentido compara gasto per capita com saúde e educação entre países, nunca conseguiremos com um PIB per capita de US$ 10.500 gastar a mesma coisa que um país desenvolvido.

 

O Brasil já destina mais do seu PIB para educação do que os países ricos, mas o gasto por aluno ainda é pequeno, pelo que indica um novo estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCDE).

 

Não obstante, os resultados: “O Brasil perdeu duas posições e ficou em 60º no ranking mundial de educação, divulgado nesta quarta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na 60ª posição, o Brasil ficou entre os países com pior desempenho na avaliação, atrás da Tailândia (47º), Irã (51º), Malásia (52º) e dos vizinhos Chile (48º) e Uruguai (55º)”.

 

E, por fim: “O Brasil tem apenas uma universidade entre as dez melhores do Brics (…). Em 2014, o país tinha duas entre as top. A USP (Universidade de São Paulo) aparece em 9º lugar, caindo duas posições em relação ao ano passado”.

 

Ranking mundial da educação

Ranking mundial da educação

 

A situação paradoxal se escancara quando destacamos que o aumento sensível em proporção de investimento em educação esbarra com uma tendência de queda em avaliações internacionais. Além disso, não estamos aumentando o volume de recursos a fim de atingir o índice dos países que nos superam.

 

Porém, tiramos dois dados que ajudam a explicar este efeito contraditório:

 

a)O Brasil já destina mais do seu PIB para educação do que os países ricos, mas o gasto por aluno ainda é pequeno”;

 

b)Se o Brasil tivesse a mesma relação professor/funcionário dos países desenvolvidos, haveria 706.000 funcionários públicos no setor, em vez dos 2,4 milhões que temos. Como é difícil imaginar que precisemos de mais funcionários que as bem-sucedidas escolas dos países desenvolvidos, isso faz com que tenhamos 1,7 milhão de pessoas excedentes no sistema educacional”.

 

Uma vez que o aumento de recursos na educação (por consequência, capacitação) não tem materializado resultados em avaliações internacionais, podemos entrar, finalmente, no parâmetro da produção. Neste parâmetro, ao tentar enxergar resultados em um trabalhador mais capacitado e produtivo através dos recursos educacionais, finalmente chegamos na questão dos valores:

 

Não é apenas na indústria que o Brasil viu sua competitividade ficar para trás nos últimos anos. Levantamento feito pelo Ibre/FGV mostra que chineses e coreanos ultrapassaram o Brasil no ranking de produtividade do setor de serviços. Na década de 1980, a eficiência da China equivalia a apenas 11% da brasileira no setor. Em relação à Coreia do Sul, com quem estávamos praticamente empatados na década de 1980, houve um claro descolamento e, hoje, o Brasil detém apenas 38% da produtividade deles”.

 

Outras notícias sobre a questão dos valores:

 

Brasil cai 8 posições em ranking de produtividade

 

Um trabalhador americano produz como quatro brasileiros

 

Reprodução Folha de São Paulo

Reprodução Folha de São Paulo

 

Mas por que orientar-se na seara dos valores? Porque há um norte ideológico na maior parte do escopo das decisões que levam a esses resultados e tais decisões são geradas dentro das faculdades de Humanas e para as faculdades de Humanas. Um processo que se retroalimenta até que chegará, fatalmente, ao próprio colapso.

 

Se o fim último dos graduados nessas especialidades for a quebra da ordem, a mudança do sistema, seu valor é outro que não a produtividade e a melhora da condição de vida objetiva (o que, tudo bem, já que a sociedade republicana e democrática lhes dá essa liberdade). O problema é o conjunto da sociedade – e uma sociedade sem excedentes produtivos; na verdade, ao contrário – sustentar a geração de um tipo de profissional que não satisfaz sua carência de vagas. E isso é um norte dado por um conjunto de valores.

 

A mesma ideologia e atitude mental que levou a USP (mãe e mestra do vigente modus operandi de ser e pensar a Academia) ao ridículo de 105% do orçamento comprometido com a folha de pagamento está na raiz dos quadros da educação acima examinados – assim como dos gastos obrigatórios contratados pelo Governo Federal que não tem referência na arrecadação, totalmente divorciada da realidade concreta da produção e viabilidade dos recursos: a crença da criação ex nihilo. E a matéria desta criação consta na vontade política.

 

As faculdades de Humanas (como bem destacou Pondé, mostrado na parte 1) vive sob a húbris das “teses emancipatórias”, de quebrar paradigmas. O mundo da quebra dos paradigmas, para que ele faça sentido, deita na ideia de que a realidade como conhecemos (nossos costumes, convenções, valores, moral) são um constructo, tal qual, por exemplo, as “superestruturas” de Marx.

 

Esse modo de pensar pode ser rastreado até a antiguidade, na disputa entre a Sofística e a Filosofia, que são as duas grandes formas de pensar, antagônicas, do pensamento ocidental (“do oriental, não?” Se Vilém Flusser estiver certo , do oriental, não).

 

Essas duas formas, simplificadamente, partem da divisão: há uma verdade para todos, ou, não há e, portanto, a verdade é uma construção.

 

Se a verdade é um constructo, a narrativa importa, não a apreensão. Isto posto, as faculdades de Humanas não estão focadas na identificação das imposições dos fatos, mas de quebrar conceitos – como um “direito” ter de estar ancorado na capacidade de quem tiver de garanti-lo… garanti-lo.

 

O aumento do número proporcional de estudantes de Humanas, além da dificuldade de precisar alocar um maior número de graduados pouco úteis ao mercado produtivo, só poderá ser absorvidos pela estrutura estatal, uma vez que a educação privada precisa de poucos, mínimos necessários, profissionais do administrativo da pedagogia (não espanta que essas pessoas peçam sempre “mais Estado” – sem mais Estado, onde poderiam se fazer “úteis”? Por isso “1,7 milhão de pessoas excedentes no sistema educacional” e USP com 105% do orçamento em folha), leva a verticalização da graduação acadêmica.

 

Mestrados e doutorados, que idealmente deveriam ser a coroação de uma carreira, produto do acúmulo da experiência e prática, de estudo aprofundado e conclusões sobre problemas existentes, passou a ser, nas Humanas, o passo natural conseguinte à graduação, com pouca ou nenhuma prática profissional concomitante. O resultado não poderia ser outro que a teorização de problemas inexistentes ou ampliados.

 

Divorciados da experiência real, atuando apenas em um nível linguístico, lidando com conceitos universais abstratos, seu contato com a realidade é muito pequeno. Constroem um edifício teórico sobre outro edifício teórico, usando nada mais que uma simbologia retirada de autores que também pouco ultrapassam o verniz da linguagem.

 

Como se o sujeito fosse pintar uma árvore baseando-se em outra pintura. O real já está a duas etapas de distância. Ao decorrer deste processo, os artistas podem realçar a seu gosto alguma característica particular e obscurecer outra. Alguém que veja a segunda pintura reconhecerá a árvore se topar com ela?

 

As especializações passam a ser o aprofundamento em um determinado recorte da realidade, construído sob esquemas formais e conceitos puramente linguísticos. Consagra um modo de fazer as coisas que ultrapassa as fronteiras da academia e não busca a solução pelos meios, mas a busca de “conquistas”, que é a vitória de uma narrativa – esta “vitória” atravanca reformas de capacitação, pois são encaradas como prejudiciais ao trabalhador.

 

Na autoridade de mestre e doutor, o filho de Humanas amplia o volume de sua voz em meio à classe falante e, também, com essa altura escalada, renda e cargo precisam estar à altura do título. O Estado não só é formador e empregador, como também vira um meio de realização. Sempre precisará ser maior, precisará ser 105%.

 

Produtividade no século XXI

Produtividade no século XXI

 

Pode um país ainda carente, compulsoriamente, sustentar, com recursos públicos, esse tipo de produção, como se houvesse produção excedente?

 

Sustentar uma enorme classe de “pensadores” que deseja nos salvar de nós mesmos (denotando de certa forma, uma mentalidade que se quer redentora, mas é apenas autoritária: “vocês precisam que nós mostremos a injustiça do que chamam realidade”), da graduação à aposentadoria – possível, se muito, na abastança – é um fardo que o Brasil ainda não deveria se dar ao luxo de pagar.

 

Parafraseando um clichê: “É a produtividade, estúpido!

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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