As Humanas e o excedente de riqueza – Parte 1

As Humanas e o excedente de riqueza – Parte 1

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A segunda semana de setembro trouxe uma notícia que soou como uma bomba do obscurantismo à Academia Brasileira: o governo japonês quer o fim dos cursos de humanas.

 

No país onde quase a totalidade da classe falante é oriunda desta grei, a recomendação gera reações de toda sorte (de boas risadas a textões indignados). Entre uma coisa e outra, análises objetivas, como a do professor e filósofo Luiz Felipe Pondé.

 

A Universidade moderna tem um fim: garantir o status de capacitado a exercer determinada função profissional. “Só isso?” Em tese, o processo deveria garantir a capacitação em si, ao mesmo tempo em que lhe confere a habilitação. Mas, não é exatamente desta forma que acontece.

 

O vivente que adquire seu diploma de 3º grau completo possui a base teórica (se foi razoavelmente bem instruído, se teve uma aplicação adequada, se foi bem avaliado; entretanto, o ponto aqui não é qualidade de ensino. Partimos da ideia de que estes “SE” foram razoavelmente cumpridos) para se enquadrar num sem fim de funções que podem absorver seu acúmulo de conhecimento.

 

Um “sem fim” porque o engenheiro, por exemplo, pode atuar na logística, no financeiro, no comercial, no recrutamento – como um advogado pode ser caixa de banco hehe. Você pegou a idéia: não é necessário competir por vagas de atuação estrita.

 

Adiante.

 

O recém-formado sai da condição de “sênior” na Universidade e cai na de “junior” do mercado. Há um tipo de hierarquia informal dada pelas regras da produção – funções realizadas, iniciativa, disponibilidade de horários e viagens, talento, tempo de experiência, funções realizadas durante essa experiência, domínio de ferramentas, gestão de equipes – e conhecimentos só extraídos da atividade em si.

 

Qual o seu valor pra sociedade?

Qual o seu valor pra sociedade?

 

Em via de regra, o profissional “sobe”, se valoriza, tem valor (“valor? Noffa!, você trata o ser humano como mercadoria!”) se pode oferecer o que os outros (empresas, indivíduos, consumidores) querem e precisam.

 

Isso todo mundo sabe.

 

Nas Humanas, porém, não é bem assim. E “não ser bem assim” leva a duas consequências.

 

“Você está dizendo que as empresas, os indivíduos e os consumidores não querem ou não precisam de um antropólogo social?”

 

Não é bem isso. Mas chegaremos lá.

 

Antes vamos falar das atividades não diretamente ligadas à produção.

 

Como você mede o quanto um sociólogo, um filósofo, um antropólogo social, um historiador, um filólogo tem a oferecer à cadeia produtiva, ou mesmo à sociedade? Sob quais critérios?

 

Para não apanhar pelo que não foi dito, convém esclarecer:

 

1) Não está sendo dito que esses cursos não forneçam profissionais para o setor produtivo;

 

2) Também não está sendo dito que essas áreas não possuem importância ou não tenham o que oferecer para a sociedade.

 

No mais constante, a maior parte desses profissionais será absorvida pelo Estado, pelo sistema de ensino e pelo sistema de ensino do Estado.

 

Até aqui, apenas constatações. “E qual o problema?” Problema algum. A questão está na produção.

 

Um profissional de humanas é um cidadão deslocado da produção de riqueza. Está nas atividades “acessórias” (se é que posso chamar assim), ainda que necessárias, da sociedade. Para que eu possa explicar o que estou tentando dizer de modo mais claro, vou tentar voltar para uma cadeia produtiva mais simples de observar esses fenômenos:

 

Desde sempre, as pessoas produzem bens e serviços de interesse dos indivíduos: cadeira, sapatos, prego, roupas, comida, lazer, etc.

 

Ocupados exercendo nossa própria atividade, se eu precisar de ferramentas, alimentos, roupas, posso buscá-los diretamente nos seus produtores ou com quem intermedeie o processo. Então, o comércio e o comerciante são elementos de base da cadeia produtiva – mesmo que não produza nada, o comerciante oferece dinâmica a todo processo, economizando o que o homem tem de mais precioso: tempo.

 

Como não somos uma sociedade perfeita, entramos em conflitos e disputas uns com os outros. De indivíduo para indivíduo, de comunidade para comunidade.

 

Do fenômeno da disputa e do desarranjo, surgem as atividades inerentes a esse “pecadilho” da condição humana: os advogados, os soldados, os magistrados. Você pode rastrear a existência dessas atividades (seja exclusiva, ou combinada com outra profissão) desde os primórdios dos homens em comunidade.

 

"Quem aqui é sociológo, por favor?"

“Quem aqui é sociológo, por favor?”

 

Os cidadãos atenienses não eram, por exemplo, no tempo da Guerra do Peloponeso, soldados profissionais, em tempo integral. Com o tempo, a sofisticação social, legal e o aumento de exigências, fizeram com que a profissionalização destes fosse uma consequência inequívoca.

 

Do mesmo modo, o médico existe porque não vivemos no Jardim do Éden: há doenças, fraturas, infecções. Os sacerdotes, intermediários do transcendente, pacificadores da alma, decodificadores do nosso fim último, também são necessidades da condição humana e, portanto, podemos encontrá-los em todas as culturas e civilizações.

 

Estes não nos oferecem bens e serviços que naturalmente iríamos querer. Ninguém acorda e pensa: “ah, que vontade de contratar um advogado!”. Todavia, precisamos de sua existência. Se eu for roubado, não puder ficar com o que criei, com o que produzi, minha atividade não vale a pena (aqui é “o pulo do gato” para quem entendeu), farei outra coisa. Eventualmente poderei me tornar um salteador sobre aqueles que não perceberam ainda a desvantagem de uma sociedade sem segurança.

 

Naturalmente, precisarei de garantias para que possa me concentrar no meu trabalho produtivo, criador de riqueza, bens e serviços que outros queiram, em vez de passar parte do meu tempo vigiando e protegendo o que é meu. Quem me garantirá isso? As leis, os soldados, os advogados.

 

Então, eles são retirados da produção direta e a sociedade abre mão de uma parte desta produção para poder contar com os serviços destas essenciais profissões inerentes à imperfeição da condição humana. Estes, a determinado tempo, exercem o seu trabalho e só o seu trabalho: não mais plantarão nabos, mas farão a defesa da cidade.

 

*Digressão*

 

Um Estado, em essência – ainda que a formação não seja exatamente assim, deita na mesma razão: para que não paremos a produção a fim de ir à Ágora, como os antigos gregos, debater os assuntos comuns, cedemos parte da produção aos que delegamos (atenção ao termo: nós delegamos) e estes passam a cuidar dos assuntos comuns.

 

A Europa Medieval tem muito da sua formação em volta daqueles que conseguiram organizar e garantir a defesa da comunidade contra invasores e ladrões. Boa parte da antiga nobreza é a consequência deste arranjo: eu produzo, mas não quero lutar. Você luta, arrisca a vida pela segurança comum, então não precisa produzir. Quem é responsável por defesa assume, assim, uma função de comando.

 

*Fim da digressão*

 

Bem superficialmente expostas algumas relações básicas, proponho um exemplo ilustrativo: suponhamos que eu chegue para uma comunidade medieval, em torno do ano 1.000 (pré-revolução comercial, quando a Igreja ainda codifica o que viria a ser conhecido como as Artes Liberais e Studium Generale, dando as bases para as Universidades como as conhecemos; antes ainda de resgarem o Corpus Iuris Civilis de Justiniano com intuito de gerar um conceito de nação aos reinos da Europa) e propusesse: “olha, que tal vocês abrirem mão de uma pequena parte da produção para pagar um grupo de homens, que eu chamo de jornalistas, escreverem sobre o que acontece no dia a dia e nos contarem?”. Provavelmente eu receberia insultos em resposta e os membros da comunidade iriam preferir usar o pouco (e improvável) excedente para outro porco, para mais uma peça de roupa (enquanto indivíduos), para contratar mais um soldado e/ou para arrumar a paliçada (decisões para a comunidade).

 

Mês de junho: precisamos de um jornalista?

Mês de junho: precisamos de um jornalista?

 

O que quero dizer com esse esdrúxulo exemplo? O número de pessoas apartadas da produção direta só pode ser concebido quando ancorado na produtividade e não entrando em conflito com decisões de primeira necessidade.

 

“Você está dizendo que as Humanas não são importante? Sua tese está focada totalmente no capital, na exploração da classe trabalhadora e advoga contra a sociologia, a ciência política, a antropologia social para que o proletariado não tenha os meios de libertação da sua mente”.

 

De novo, não é isso que estou dizendo! Quem não interpretou metonimicamente meus argumentos, tomando a parte pelo todo, a periferia pela essência, o sujeito pelo objeto, não precisa que eu reitere a importância das ciências humanas para a humanidade.

 

Da mesma forma, caso alguém queira tirar alguma conclusão apressada de meu exemplo cômico com o jornalismo na Idade Média pré-revolução comercial: não existe democracia sem livre imprensa. Não apenas liberdade de expressão individual. Se os veículos de comunicação não exercerem este papel, não há a condição necessária para o voto informado, base da democracia representativa republicana (o pior modelo existente, fora todos os outros já testados).

 

Já as demais atividades da área de Humanas, pré-existentes ao jornalismo, ombreiam – se não superam, pois aquele, de certo modo, é filho destas – este em importância. Desde que existe o homem, está com ele a especulação, a dúvida, o assombro, resultando na tentativa de articulação intelectual desse conjunto de interações. O fenômeno que vira uma relação, um costume, tradição, regra, lei começa na especulação.

 

Entretanto, estamos tratando, não da Sociologia, Filosofia, Antropologia em si, enquanto ciências humanas, mas da sua transformação em profissão, principalmente com profusão de recursos públicos.

 

Note bem: aqui desembocam as duas particularidades que assinalei no início, do cidadão formado na maior parte dos cursos de Humanas: como avaliar o que ele tem a oferecer à sociedade? Quantas são as instituições que precisam de profissionais dessas faculdades? Quantos profissionais cada uma delas precisa? O que eles têm a oferecer a indivíduos em forma de bens e serviços que estes livremente queiram, ainda que na forma de entretenimento, fora do mercado editorial? Como você decide quem é bom, quem é muito bom, quem é ruim, para que se alcem degraus – tal qual o caminho do recém-formado exposto no início do texto, se a influência do pensamento se manifesta no tempo, e não em trocas livres?

 

Onde esses sem fim de profissionais, hoje, podem atuar?

 

Eu respondo, repetindo: o sistema de ensino.

 

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Clique aqui para ler a segunda parte.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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