Gleek out

Gleek out

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Aceitação. Não existe palavra que melhor descreva a mensagem escondida entre tantos números musicais, dramas adolescentes e o universo quase freak que rodeia os corredores da fictícia William McKinley High School. Gravidez na adolescência, homossexualidade, identidade transgênera, TOC, busca pela popularidade e relacionamentos extremamente conflituosos fazem parte de Glee, seriado que traz os temas que assombram a juventude.

 

Glee é uma série de TV com um misto de comédia, musical e drama. O piloto do programa, que inicialmente foi idealizado como filme pelo produtor e roteirista de TV, Ian Brennan, foi ao ar no dia 19 de maio de 2009. Quase quatro meses depois, no dia 19 de setembro, a primeira temporada estreou pela Fox, hoje está em sua quinta temporada.

 

Baseado em sua experiência pessoal, Ian Brennan, que já foi membro do coral de sua escola em Mount Prospect, Illinois, decidiu escrever sobre o assunto e assim surgiu o primeiro rascunho de Glee. Mesmo sem experiência em produzir roteiros, Brennan se viu comprando um livro da série For Dummies, mais precisamente o Screenwriting for Dummies (algo como “Escrita de programas de TV para idiotas”) e começou sua jornada através das histórias e referências da adolescência. Em 2005, Brennan terminou o roteiro de Glee e o enviou a alguns produtores, sem sucesso; foi um amigo do roteirista que o apresentou a Ryan Murphy, diretor e escritor de séries como Nip/Tuck, Popular e American Horror Story. Murphy, que já participou de corais na faculdade, viu potencial no roteiro de Brennan – mas como uma possível série de TV e não filme.

 

Com a ajuda do produtor e diretor Brad Falchuk, Ryan e Brennan começaram a escrever os episódios da primeira e segunda temporada. Para os personagens, Murphy e Falchuk queriam talentos novos, que dessem identidade aos jovens desajustados e losers da série. Depois de algumas audições, o elenco principal estava pronto: entre veteranos da Broadway, como Matthew Morrison (o apaixonado – e apaixonante – professor de espanhol e diretor do clube do coral, Will Schuester), Lea Michele (a irritante, mas extremamente talentosa Rachel Berry) e Jenna Ushkowitz (Tina Cohen – Chang), a atores que não tinham nenhuma experiência com musicais como Jane Lynch (treinadora das líderes de torcidas Cheerios, inimiga do clube Glee e anti-heroína Sue Sylvester) e Jayma Mays (Emma Pillsbury, orientadora da William McKinley High School, obsessivo-compulsiva com limpeza); além de novos talentos como Chris Colfer (Kurt), Cory Monteith (Finn), Mark Salling (Puck), Dianna Agron (Quinn), Naya Rivera (Santana), Heather Morris (Brittany), Amber Riley (Mercedes), Kevin McHale (Artie), Harry Shum Jr. (Mike), dentre outros.

 

Aceitação e problemas cotidianos adolescentes marcam a série.

Aceitação e problemas cotidianos adolescentes marcam a série.

 

O sucesso da série faz os fãs perceberem que Glee não é apenas mais um seriado musical. Ao mostrar o cotidiano de um clube do coral onde grande parte dos membros são adolescentes ignorados em sua escola, a série nos reaproxima de nossa adolescência. Quem nunca quis ser popular? Melhor ainda, quem, vez ou outra, nunca sofreu bullying por ser diferente? Por ser nerd demais ou usar óculos e aparelhos odontológicos? Praticamente todo adolescente já passou por isso e essa é a razão pela qual Glee conquistou milhares de pessoas nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Adolescentes e adultos se identificam com um ou mais personagens e isso os têm ajudado a aceitar a si mesmos como são, livres de julgamentos alheios. Quando Kurt (Chris Colfer) ou Santana (Naya Rivera) decidiram assumir sua homossexualidade para os pais, amigos e para a escola, muitos adolescentes com as mesmas dúvidas e receios se encontraram nos personagens, buscando na coragem deles a força para, um dia, também se assumirem.

 

Segundo Gabriela Pelozone Lima (@gabebes), 21 anos, estudante de Letras, a abordagem da diversidade é um dos fatores de sucesso do seriado. “Glee se tornou um sucesso por dois motivos principais: explorar a questão da diversidade e por ter conseguido presença forte na indústria fonográfica, aproveitando o embalo das vendas facilitadas pelo iTunes. Os artistas pop dessa última geração, com a Lady Gaga como principal exemplo, tem motivado a discussão da diversidade e, assim como ela, Glee é um produto dessa fase que a cultura pop está atravessando em que temos trazido cada vez mais o que era visto como ‘excluído’ para o mainstream. Os elementos de comédia permitem que eles tragam estereótipos para depois desconstruí-los em enredos dramáticos. E, claro, o elenco tem vozes notáveis em artistas como a Lea Michele e o Matthew Morrison, veteranos da Broadway, e vozes novas como a Naya Rivera, Darren Criss e o Chris Colfer”, afirmou.

 

João Paulo Cordeiro (@joaopcordeiro), 20 anos, formado em Publicidade e Propaganda, também acredita que a inspiração é algo especial na série: “Glee se tornou o fenômeno que é por ‘n’ fatores, o principal é a capacidade que a série tem de criar uma identificação entre público e personagens, ou seja, sempre terá alguém quer irá servir de inspiração pra você. Um fator determinante de sucesso também são as versões que criam para hits de todas as gerações. Muitos pais, por exemplo, já não acham mais chato assistir a uma série rotulada de ‘infanto-juvenil’ ou ‘teen’ porque se encontram, de certa forma, inseridos na história. O que eu mais curto em Glee é ver que losers (perdedores) podem dar certo, além de saber que por mais estranho que a gente possa parecer em algum lugar, o nosso talento pode e deve ser explorado”.

 

Um pouco de drama, músicas de clássicos da Broadway como Hairspray, Rent, West Side Story e Wicked, ícones e referências da cultura pop, desde filmes como Breakfast at Tiffany’s ou Rocky Horror Picture Show ao hino de auto aceitação Born This Way, de Lady Gaga, também foram as características do seriado que conquistaram fãs de todos os tipos.

 

Professor de literatura, Fábio Elionar (autor do blog Palávra Náufraga), 45 anos, adora seriados mais cerebrais como Breaking Bad, também reconhece a importância de Glee para a mídia televisiva. Segundo ele, o seriado está inserido nessa “revolução” das séries de TV, que fez do gênero uma arte maior e não apenas um subgênero do cinema. A indústria da teleficção nos EUA chegou a um grau alto de qualidade, o que na série percebemos pela engenharia bem amarrada do roteiro (na trama, nos personagens), pelo acerto na escolha do elenco, na montagem sofisticada, na trilha sonora e nos números musicais extremamente competentes.

 

Assistida por mais de 20 milhões de pessoas, ganhadora de mais de 60 prêmios dos mais variados tipos, a exemplo do Golden Globe Awards a prêmios referentes ao movimento LGBT, Glee consolida seu papel como série de entretenimento, mas que deixa um legado aos fãs e àqueles que ainda buscam aceitação e a fuga dos padrões impostos pela sociedade.

 

A série avança ao 3º dígito em episódios, parece que a ideia deu certo.

A série avança ao 3º dígito em episódios, parece que a ideia deu certo.

 

Cory Monteith e o centésimo episódio

 

A morte do ator Cory Monteith (Finn) em julho de 2013 foi um baque para todos os fãs da série, assim como para elenco e diretores. Finn era um dos personagens principais da série, aparecendo desde o episódio piloto. Na trama, o quarterback era o líder do clube e namorado de Rachel (Lea Michele). Apesar de o personagem ser um rapaz que gostava de esportes e raramente se envolvia em problemas, o ator Cory Monteith passava por sérios problemas em sua vida pessoal: o canadense de, na época, 31 anos travou uma batalha contra as drogas durante sua vida. De acordo com o legista, Cory passou por longos períodos entre o abuso de substâncias químicas e períodos de total abstinência. Ao ser encontrado em um quarto de hotel em Vancouver, a morte por overdose de heroína e álcool foi confirmada pela polícia local.

 

Com a morte do ator, Glee entrou em hiato até que os ajustes necessários fossem feitos, mas a história não conseguiu ser a mesma e, talvez por isso, Ryan Murphy tenha decidido fazer da sexta temporada a última. Cory Monteith e Lea Michele, que eram namorados na vida real, formavam o par romântico mais querido pelos fãs da série e apesar das idas e vindas do casal, tinha-se a certeza que Finn e Rachel terminariam a série juntos. Ainda não se sabe qual será o final de Rachel, mas Lea deixa claro que após o término da série quer continuar trabalhando com Ryan Murphy, especialmente em American Horror Story.

 

Apesar de todo o drama, Glee conseguiu dar a volta por cima e comemorar o centésimo episódio trazendo personagens queridos pelos fãs, como a professora substituta Holly Holliday (Gwyneth Paltrow) e a cantora e amiga de Will Schuester, April Rhodes (Kristin Chenoweth). Foi feita uma enquete online para os fãs escolherem as músicas do episódio (todas eram clássicos já apresentados nas temporadas anteriores) e as escolhidas foram: Raise Your Glass, Toxic, Defying Gravity, Valerie e Keep Holding On. A primeira parte do episódio foi ao ar em 18 de março de 2014 e a segunda no dia 25 do mesmo mês, foi assistido por mais de dois milhões de pessoas.

 

Prestes a completar cinco anos, Glee é o tipo de seriado que você vai amar odiar devido às mudanças constantes, escolhas um tanto inusitadas de repertório e falta de conexão entre um episódio e outro. Quem acompanha, não deixa de se emocionar e torcer pelos seus personagens favoritos. Pode não ser o seu estilo de seriado, mas vale a pena dar uma chance pros losers da William McKinley High School.

 

Cory Monteith morreu em Julho de 2013.

Cory Monteith morreu em Julho de 2013.

Amanda Amaral
Amanda Amaral é graduanda em Jornalismo, mas professora por vocação. Gosta de Beatles, Alta Fidelidade e quer morar na capital. (Kkk #humor) No Twitter: @amandasaysno.

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