Fantástico e Esquenta! afinados com o ENEM: Coincidência?

Fantástico e Esquenta! afinados com o ENEM: Coincidência?

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O último de final de semana foi do ENEM e, como de costume, pouco de se falou de outra coisa. O exame nacional tomou a Internet de assalto e pautou noticiários desde sexta-feira, um dia antes da primeira prova, até segunda, após a última – o “Encontro com Fátima Bernardes” (eita nome tosco), que se vende como um programa “moderno” e “descolado”, falava do ENEM ainda na segunda pela manhã, como se a dona de casa tivesse alguma coisa a ver com isso.

 

Tanto popularidade não vêm de graça. Criado em 1998, na Era PT o ENEM cresceu, apropriou-se de outros exames qualificatórios, passou a ser essencial a todo jovem brasileiro e, de quebra, tornou-se um “gerador de polêmicas” contumaz. Ou, melhor definindo-o: instrumento de avanço de certa agenda política. O fato de permitir o acesso de jovens à universidades é mero detalhe, que fica em segundo plano.

 

Não à toa, no decorrer do agitado final de semana, onde posts e tweets sobre o exame pulularam as timelines, foi apelidado de Exame Nacional da Esquerda Marxista. Dois temas em especial, de uma questão e da redação, dentre um mar de estrovengas, contribuíram para a instituição de novo nome, mais honesto, ao exame – originalmente Exame Nacional do Ensino Médio.

 

A primeira questão da prova de Ciências Humanas citou ninguém menos do que Simone de Beauvoir, matriarca do feminismo moderno, desequilibrada amante de Jean-Paul Sartre, em trecho extraído de seu livro “O Segundo Sexo”:

 

“Ninguém nasce mulher: torna-se. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”

 

A esdrúxula proposição da feminista, que nega a própria biologia, foi tratada na prova como uma simples frase, que afirmava algo tão óbvio quanto o brilho do Sol, e usada de premissa para a questão sobre o movimento social desencadeado pela francesa.

 

A tal questão.

A tal questão.

 

Não obstante, no dia seguinte, a redação do ENEM, sem qual é impossível ser aprovado no exame, trazia o tema: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

 

Novamente uma pauta feminista. Mas não pela pauta geral em si, “violência contra a mulher” (de forma alguma a defesa da mulher, diante de uma situação violenta, é exclusividade da esquerda ou do feminismo, que fique claro!), mas por sua abordagem; desde o uso estratégico do termo “persistência”, que apresenta ao leitor o contexto de um realidade antiga, carcomida pelo tempo e que por isto precisa ser superada (falácia de apelo à modernidade), até a “cláusula” constante na proposta da redação, lá embaixo: “não é permitido usar argumentos que ferem os direitos humanos” (ou algo parecido) – Ora, quais seriam estes? Imagine você a nota de certo aluno que tentasse negar que tal violência persiste ou mesmo sua existência.

 

Mais impressionante do que a questão sobre gênero (afirmar que “ninguém nasce mulher” suscita, ora pois, a recente discussão sobre “ideologia de gênero”) e mais apelativa do que o tema da redação, foram Fantástico e Esquenta!, programas da Rede Globo, que abordaram exatamente os dois temas polêmicos do ENEM, “ninguém nasce mulher” e “violência contra a mulher”, no mesmo domingo em que a prova era realizada.

 

No modorrento programa da petista (como o ENEM) Regina Casé, exibido nas tardes de domingo, algumas mulheres (todas já senhoras) se amontoaram no palco para contar suas tristes histórias de violência e afirmar como o homem é mau. A coisa piorou quando a apresentadora tentou direcionar o papo, que ainda não estava ideológico o suficiente, para explicar as causas dos sofrimentos e injustiças relatados.

 

Nada de caso isolado ou imputação de responsabilidade direta ao homens – que eu chamaria apenas de “canalhas” – que espancaram e maltrataram aquelas pobres mulheres, mas sim as famosas motivações conjunturais que a Esquerda não se cansa de invocar. Para Regina Casé – apenas um fantoche de intelectuais que moldam tanto o discurso dela quanto o da presidente Dilma -, aquelas mulheres sofreram nas mãos de seus malfadados maridos porque não tinham outra opção, afinal, não poderiam se sustentar sozinhas, não poderiam abandoná-los sob pena de morrer de fome.

 

O que o discurso da apresentadora embute é o seguinte: No sistema opressor em que vivemos (para alguém que é anti-capitalista, ao menos no discurso, não há sequer um mal sobre a Terra que não seja fruto de tal modelo econômico), a mulher é ainda obrigada a depender do marido e por isso não pode deixá-lo, mesmo se maltratada, pois ainda que consiga um emprego, receberá menos do que homens na mesma função.

 

Nada mais feminista. Nada mais falso. Especificar um problema complexo como a “violência doméstica” e diagnosticar suas causas, excluindo fatores tais como o sentimento entre marido e mulher (em muitos relatos de violência, mulheres contam que suportaram o julgo por muito tempo não por temerem ganhar seu pão, mas por amar o marido canalha) e a força da instituição “casamento”, que ainda exerce forte impacto em nosso imaginário (não se desfaz um casamento da noite para o dia), só mostra o quão raso é quem compra esse discurso empacotado e como querem, acima de ajudar qualquer mulher, fazer andar sua agenda anti-capitalista, socialista ou progressista, como queiram.

 

Já a noite, na mesma emissora, o clima pesou ainda mais. Uma reportagem de cinco minutos, em tom especialíssimo, apresentou ao telespectador a família de Arwyn Daemyir, ativista dos “sem gênero”. Arwyn, como de Beuavoir e o MEC, acredita que ninguém nasce com seu sexo predefinido (sim, sexo, sou antigo e não compro esse papo de “gênero”). O que é um absurdo que não precisa sequer ser demonstrado.

 

Qualquer argumentação que venha contestar o que pensa Arwyn Daemyir, que junto ao marido cria dois filhos (um menino e uma menina) aos moldes “sem gênero”, ou seja, sem nenhuma definição de menino ou menina em roupas, brinquedos, aparência em geral e tudo mais, será por si ridícula. A coisa é tão esdrúxula que não merece o desperdício de argumento.

 

O que a história merece é uma condenação peremptória. Arwyn e seu marido deveriam perder a guarda de seus filhos, por estarem despreparados para criá-los (tratar as crianças como “folhas em branco” quase configura maus tratos, em meu ver); e o Fantástico deveria ser criticado por mais uma vez dar espaço para um pauta hardcore da nova esquerda, focada na revolução cultural, bem como perder o pouco de audiência que ainda tem.

 

O pais irresponsáveis com seus filhos, na tela da Globo.

O pais irresponsáveis com seus filhos, na tela da Globo.

 

Mas como ainda estamos distantes de barrar este tipo de conteúdo do programa mais importante, e teoricamente mais culto, do Domingo na televisão brasileira – a coisa ainda vai piorar muito antes de melhorar -, convido-os a pensar noutro problema: a a suposta coincidência entre as pautas dos dois programas aqui citados e a prova do ENEM.

 

Como os produtores globais ficaram sabendo do conteúdo da prova antes dos demais brasileiros é a pergunta que devemos fazer. Ora, ou isso ou serei obrigado a acreditar, depois de velho, beirando os 30, em convenientes coincidências.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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