Estragaram o Judô

Estragaram o Judô

0

A desclassificação da judoca brasileira Rafaela Silva veio para evidenciar um fato: as novas regras do judô estragaram o esporte.

 

Em 2009, logo após a Olimpíada de Pequim, a Federação Internacional decidiu alterar as regras de competição do judô. Visando resgatar a cultura tradicional japonesa, a IJF restringiu quase a zero a possibilidade dos atletas projetarem seus oponentes com ataques as pernas. A partir de então, para “catar” as pernas do adversário o lutador deve antes desequilibrar o mesmo e só então usar do artifício para finalizar o movimento.

 

Essa mudança ocorreu em função da grande quantidade de atletas que priorizam o estilo europeu, totalmente baseado nos ataques as pernas. Países como a Georgia, com forte tradição no Sambo e na Luta Olímpica, adaptaram golpes de ambos os esportes e tinham um estilo de judô muito eficiente, focado no ataque as pernas. O judoca brasileiro João Derly era outro adepto do estilo.

 

João Derly foi campeão mundial catando as pernas de todo mundo.

João Derly foi campeão mundial catando as pernas de todo mundo.

 

O esporte começou no Japão, que sempre priorizou o chamado “Judô Gola e Manga”, só que ao se espalhar pelo mundo e ter contato com outras culturas, absorveu golpes de outras modalidades. Uma evolução natural que acontece em qualquer esporte. Fora a própria criatividade dos judocas de todo o mundo, que incrementaram golpes ao longo do tempo.

 

O caso da brasileira Rafaela Silva, que chorou no tatame ao ser desclassifica por atacar as pernas da adversária, trouxe a tona o debate sobre as novas regras. O movimento usado por ela chama-se Kata Otoshi, variação do Kata Guruma, golpe clássico no judô desde sempre.

 

A húngara Hedvig Karakas presta solidariedade a desolada Rafaela.

A húngara Hedvig Karakas presta solidariedade a desolada Rafaela.

 

Todas os esportes evoluem, mas o judô está indo pelo caminho da involução. Um golpe real, que projeta o oponente de costas no solo, não pode ser considerado inválido por um simples preceito cultural. Fosse assim, o futebol não teria evoluído e todos jogariam obrigatoriamente no 4-2-4 da Copa de 70.

 

O Judô mesmo antes desta mudança já era criticado pela perda da marcialidade. Com este advento então, onde os lindos e, sim, tradicionais kata guruma e morote gari são ilegais e passíveis de punição, encerra-se de vez o componente marcial da luta em prol de uma desnecessária busca por ser esportivo e nada mais. A luta Judô perdeu com esta regra, e ontem a brasileira Rafael Silva também. Ela pode ter entrado o golpe por instinto, assim como uma húngara que foi desclassifica ontem também. A regra nova tem apenas três anos.

 

Se esta regra existisse em 2004, Flávio Canto não teria uma medalha olímpica em casa.

Se esta regra existisse em 2004, Flávio Canto não teria uma medalha olímpica em casa.

 

Esse proteciosnismo execessivo do estilo considerado origianl do Judô acaba por tirar a competitividade da luta, aparentando um “medo” dos estilos que atacam com o chamado morote gari.

 

E esse medo é infundado, sempre ouve espaço para todos e ainda havia, até a poda do esporte. A Georgia, por exemplo, cresceu, mas o Japão ainda era forte e os atletas brasileiros adeptos do estilo japonês são tops, como é o caso do Leandro Guilheiro e do Tiago Camilo (ambos portadores de duas medalhas olímpicas).

 

Na Luta Olímpica (wrestling), esporte que também visa “chapar” o adversário de costas no solo, também existe esta questão de catar as pernas ou não. Pelo mesmo motivo, manter a tradição viva no esporte, só que lá não houve poda, pelo contrário. A Luta é dividida pelos estilos Livre e Greco-Romana, que basicamente se distinguem pelo fato dos ataques na Greco serem permitidos somente acima da cintura, já o Livre é livre. Era até melhor ter feito isso no Judô, dividir. Pelo menos teríamos mais medalhas em jogo.

 

O que tenho visto nesta Olimpíada são lutas à quem do que estou acostumado desde Atlanta, 1996. Poucos ippons e muita amarração. O jogo de solo visando a finalização, que aparecia pouco e muitos nem sabiam que valia, com esta regra previnindo o ataque as pernas, está em foco. Muitos atletas vem recorrendo as finalizações como diferencial quando se anulam no “Gola e Manga”. Este aparecimento do jogo de solo não é ruim, mas isso não deveria acontecer pela falta dos “katagurumas”.

 

Deem adeus ao Kata Guruma como conhecemos. Tão lindo!

Deem adeus ao Kata Guruma como conhecemos. Tão lindo!

 

Sem as catadas de perna o esporte perde em variedade nos golpes e até em dinâmica. Não é melhor para os atletas, não é melhor para o público e nem para os juízes, que agora sofrem para analisar se houve desequilibrio antes de catar a perna ou não. Muita subjetividade, muito detalhe, não combina com uma luta.

 

Para os mais curiosos, deixo dois vídeos que exemplificam quando é permitido catar as pernas do adversário e quando não é:

 

Link Youtube | Ataques permitidos.

 

Link Youtube | Ataques proibidos.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.