Entrevista com o crítico literário Rodrigo Gurgel

Entrevista com o crítico literário Rodrigo Gurgel

8

Geralmente, o grande público não ouve falar muito de um crítico literário em específico. A profissão é naturalmente de claustro e reflexão, dada a intelectualidade de forma silenciosa. Críticos de cinema são elevados ao céu e ao inferno a medida que desagradam ou não o grande público, aparecem até na TV em época de Oscar, mas é o Cinema, uma indústria popular. O mundo dos livros é bem menos glamoroso. Críticos literários, num país que pouco lê, quando muito são lembrados e referenciados pelos mais detalhistas e ávidos leitores.

 

Rodrigo Gurgel quebrou uma pouco isso recentemente, de uma forma que certamente não gostaria e esperava. Após apenas exercer seu trabalho e direito de julgamento no último Prêmio Jabuti, ao dar nota zero para um livro finalista, ficou inicialmente conhecido como o “Jurado C”. Posteriormente, seu nome veio a público e concedeu dezenas de entrevistas aos mais variados veículos do país.

 

Obviamente, Rodrigo tem muito mais a oferecer do que foi comentado em todas essas entrevistas, no fim de 2012. Mais ativo que nunca, escrevendo para o Jornal Rascunho, colaborando com as revistas Vila Nova e Dicta & Contradicta, Folha de São Paulo e Mídia Sem Máscara, encontrou tempo para nos conceder essa entrevista e nos brindar com informações preciosas.

 

1. Conte-nos um pouco sobre você, Rodrigo, sua formação, carreira…

 

Nasci e fui educado entre três bibliotecas: a de meu pai, composta, basicamente, de obras de filosofia e da área jurídica; a de minha avó, pequena, mas com livros indispensáveis, como As mil e uma noites e Madame Bovary; e a do Gabinete de Leitura Rui Barbosa, que ainda está lá na minha cidade natal, Jundiaí. Cada uma me ofereceu o que tinha de melhor, mas a do Gabinete fez o principal, pois a bibliotecária, Dona Odete, deixava que eu percorresse o acervo livremente. Ali, então, descobri o mundo. Também tive ótimos professores: Ivanira Dadalt e Paulo Vieira. Pessoas de grande visão, cujo olhar ia muito além da aula diária. Para estudar o Romantismo, por exemplo, Ivanira começou nos apresentando Delacroix, Beethoven, Chateaubriand. Só depois estudamos os românticos brasileiros. Lembro-me de Paulo Vieira corrigindo minhas redações: certa vez, ganhei uma nota 9; não havia nenhum erro, mas uma frase estava marcada em vermelho e, ao lado, a observação: “Fale comigo depois da aula”. Procurei-o e ele me explicou que eu usara um espanholismo, que aquela construção não pertencia à língua portuguesa, deu-me exemplos, mostrou-me como seria o correto em português. Ou seja, um mestre, profundo conhecedor da língua. Mais tarde, pude conviver com Nelson Foot, autodidata genial, professor respeitadíssimo na minha cidade. Ele brincava com as poesias: escolhia um poema da Cecília Meireles e passava para o romeno, depois para o latim, depois para o francês. Brincava com os textos como se fossem animais de estimação. Ou seja, era impossível, com esses mestres, não fazer algo na área da literatura.

 

2. Recebe de bom grado o título de mais importante crítico literário do país?

 

Essas avaliações nascem, principalmente, da amizade, dos grandes amigos.

 

3. Recentemente você respondeu através de seu blog aos comentários que Ana Maria Machado fez em entrevista ao jornal Zero Hora, sobre o resultado do último Prêmio Jabuti e o seu julgamento de “Infâmia”, livro dela. Acredita que este debate público faz falta no Brasil?

 

O Brasil não tem debate realmente público. São sempre as mesmas vozes falando sobre as mesmas coisas, sob os mesmos pontos de vista. A web está começando a romper com essa hegemonia. Mas ainda estamos engatinhando.

 

4. Você deu nota zero para ele (“Infâmia”) no Jabuti, porém o livro acaba de ganhar o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon. O que causa julgamentos tão dissemelhantes?

 

Não posso avaliar o julgamento alheio, desconheço os critérios seguidos. O que posso dizer é que premiar esse romance da Ana Maria Machado é acreditar, como ela acredita, na importância da literatura de proselitismo ideológico, na literatura que faz panfletagem, na literatura usada para propaganda política. O que não é, absolutamente, o meu caso.

 

5. Continuará como jurado na próxima edição do Jabuti?

 

Não me convidaram este ano. E, certamente, não me convidarão nunca mais. (risos)

 

6. Fala-se na internet que está em curso silenciosamente um processo de contrarrevolução cultural, visando restaurar a alta cultura no país. O encontro de grandes remanescentes do pensamento conservador nos EUA, recentemente, na residência de Olavo de Carvalho, do qual você participou, serviu para reforçar isso. Existe mesmo uma contrarrevolução silenciosa em curso?

 

Acho “contra-revolução” um termo muito forte. O que acontece é que a Web permite a livre expressão. Quando você publica um texto no seu blog, no seu site, quando você expressa um ponto de vista no seu canal do YouTube ou faz uma crítica nas redes sociais não há, no fim da linha, um editor filiado ao PT ou que carrega no bolso a foto do Lênin lançando perdigotos sobre a multidão. Então você expõe o que pensa – e ponto final. Além disso, essa idéia de “contra-revolução” supõe um grupo que funcione segundo determinado projeto preestabelecido, com grandes financiamentos, articulações, projetos táticos e estratégicos etc. E isso não existe. O que existe são pessoas que concordam em inúmeras questões, dialogam com certa freqüência, mantêm um relacionamento fraternal, têm coragem para expor publicamente o que pensam e começam a abrir espaço para novas idéias, diferentes das propagandeadas pela hegemonia esquerdista. São apenas os passos iniciais. E quem deu o primeiro passo, quem começou tudo foi Olavo de Carvalho.

 

7. O que diria para os leitores que, cientes do processo de diminuição da nossa cultura, através do êxito do Marxismo Cultural, querem reagir contra isso?

 

Eu diria o que Olavo de Carvalho sempre diz, exatamente o que ele fez durante décadas e continua fazendo: estudem. Com sinceridade, com nobreza de espírito. Vão às fontes. Não se contentem, não se satisfaçam com o que ensinam a vocês no colégio, na universidade. Não fiquem na superfície, recusem as receitas prontas. Dou um exemplo prático: nos cursos de Letras, um dos livros mais recomendados é “Poética da prosa”, do Tzvetan Todorov. O que faz o aluno medíocre? Lê o livro – quase sempre, um ou dois capítulos – e diz “amém”. O que faz o aluno inteligente? Vai pesquisar a bibliografia do Todorov; vê que esse livro é de 1971 e que, depois dele, Todorov escreveu quase 40 livros; então o aluno se pergunta: mas por que me mandaram ler precisamente esse livro? Quem é esse cara? Sobre o que mais ele escreveu? Se nosso aluno pesquisar um pouco, verá que, em 1984, Todorov publicou um livrinho jamais traduzido em português: “Critique de la critique”. E que, nesse livro, ele se abre à superação do dogma estruturalista e ao diálogo com diferentes linhas de pensamento – ou seja, treze anos depois, Todorov já está longe do que pensava em 1971. E se tal abençoado aluno for um pouquinho mais fundo, verá que, em 2007, quando Todorov escreve “La littérature en péril” (“A literatura em perigo”, Editora Difel), faz gravíssima denúncia sobre o beco sem saída em que o estruturalismo jogou a literatura. Quando nosso caro aluno termina esse breve percurso, estará livre da camisa de força em que ficaria preso se lesse apenas o que seu professor mandou. Nosso aluno imaginário começou a sair da mediocridade, começou realmente a estudar. Isso é amar o conhecimento. É não se contentar com receitas prontas.

 

8. Ainda nessa seara, o relativismo afetou severamente a crítica cultural. Nada mais é ruim ou medíocre, tudo é apenas uma questão de gosto. Como este pensamento, que me parece dominante no Brasil, afeta a produção cultural?

 

Os resultados dessa inversão de valores estão aí, todos os dias, na mídia em geral. Olavo de Carvalho dá, no “Imbecil Coletivo”, livro que continua atualíssimo, um ótimo, irônico exemplo: ele diz que, infelizmente, hoje são poucos os que conseguem saber a diferença que há “entre letristas e poetas, jornalistas de idéias e filósofos, repórteres e historiadores”; hoje todo mundo acha que “Gilberto Braga é Honoré de Balzac”.

 

9. Você já foi um militante petista e hoje orgulhosamente, presumo, faz oposição intelectual ao que vem a reboque culturalmente do partido. Qual foi o estopim para mudança?

 

Recordei, há poucos meses, essa história com meu amigo Paulo Briguet, quando viajávamos para o encontro com Olavo, na Virgínia. O local em que eu trabalhava pertencia ao PT e à CUT. Nossos salários atrasavam, os fornecedores não eram pagos, o INSS era arrecadado com atraso. Quando alguém tentava reclamar, vinham com aquele discursinho sobre o militante, abnegação, desprendimento etc. Eu, claro, defendia o partido. Certa manhã, ao chegar, percebo que, na noite anterior, havia ocorrido no local uma festança de dirigentes do PT e da CUT. Só alto escalão, fico sabendo depois. Até aí, nenhuma novidade. Mas logo vejo as churrasqueiras, ainda montadas; em volta, no chão, centenas de restos de charutos importados; nas lixeiras, garrafas de uísque estrangeiro; pilhas e pilhas de engradados de cerveja; e montes de sobras de carne, já cobertos de mosquitos. Foi quando comecei a perceber: tudo era uma farsa. Eu era só um parafuso na engrenagem. Um parafuso que, naquele dia, começou a espanar.

 

O inconfundível Rodrigo Gurgel.

O inconfundível Rodrigo Gurgel.

 

10. Você é ensaísta, lançou recentemente um curso nomeado “A Descoberta do Ensaio”, acredita que o estilo está carente de autores?

 

Muito carente. Faltam nomes, hoje, como Augusto Meyer e Álvaro Lins, para ficar apenas no âmbito do ensaio literário. Críticos que não temiam julgar – e que escreviam de forma compreensível para o grande público, sem hermetismos, sem se refugiar sob o jargão acadêmico.

 

11. Ainda nesse aspecto de carência de autores, ou pelo menos bons autores, enxerga na crônica – gênero bem nosso – esse problema? Ainda que seja um estilo especificamente para jornal, coletâneas sempre renderam bons livros.

 

Temos cascatas de cronistas. O Brasil é uma cornucópia de cronistas. Mas é um gênero ingrato, pois nem sempre a crônica resiste à passagem do tempo. Quando reunidas em livro, muitas vezes o que era interessante no dia-a-dia torna-se banal. Poucos dos que escrevem hoje poderão ser relidos daqui vinte, quarenta anos, como fazemos hoje, por exemplo, com várias crônicas de Rubem Braga.

 

12. Qual a importância do CRITICON, projeto recém-lançado por você e colegas de Jornal Rascunho? O lema é um fortalecimento da crítica literária, mas em que sentido?

 

CRITICON é uma idéia fantástica do Cristiano Ramos, jovem crítico literário, jornalista e professor do Recife. Elaborou o projeto, desenhou o site e colocou o bonde na linha. Fez tudo sozinho e teve a delicadeza de nos convidar. A proposta é reunir críticos que, como eu gosto de dizer, não ficam alisando os cocurutos dos escritores, não chamam de genial o que é apenas passável. Críticos, como diz o Cristiano, que não seguem a ética do compadrio e os dogmatismos teóricos. Ou seja, um projeto que, no Brasil, tem tudo para não dar certo. (risos)

 

13. E para abusar gratuitamente do seu conhecimento antes de encerrar: Quais autores não conhecidos do grande público indicaria aos leitores desta entrevista?

 

Dois escritores austríacos. Um deles, jamais traduzido no Brasil; ambos geniais: Hermann Broch e Heimito von Doderer.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • Douglas Eduardo

    Demasiadamente interessante os pontos de vistas dele sobre o que é realmente literatura. Pois aqui no Brasil o pessoal já não vê nada há décadas.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Vem mais entrevistas por aí, nessa linha de crítica cultural e apresentação de conteúdo faltante aos brasileiros.

  • Samuel Levi

    sempre proveitoso ler sobre este crítico.obrigado pela disponibilização do conteúdo!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Não há de quê. Foi igualmente um prazer entrevistá-lo.

  • Eduardo Freire

    Obrigado pela iniciativa! O Rodrigo Gurgel é um paladino desta batalha de “contrarrevolução”

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Paladino, ótimo termo para ele!

  • Jandira Catarina Duque Pinto F

    Estou lendo o livro “O minimo que você precisa saber para não ser um idiota”. É uma realidade que muitas vezes não percebemos não interpretamos nem absolvemos o que se passa nesse país. Autor Olavo Carvalho.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Ótimo livro, Jandira, escolheste muito bem. Olavo de Carvalho é único.