Entrevista com Lucas Saboia, membro do MBL-RJ

Entrevista com Lucas Saboia, membro do MBL-RJ

0

O Movimento Brasil Livre, doravante denominado MBL, nasceu no final de 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff como presidente da República. A primeira manifestação que convocaram, em São Paulo, aconteceu no dia 01/11/2015 e pedia a investigação dos crimes do Petrolão e liberdade de imprensa.

 

Da segunda manifestação em diante, com a mesma pauta, já houve aderência de outros estados e o movimento cresceu rapidamente, com a velocidade que é peculiar a esta geração e ao veículo que lhes dá voz, a Internet. O impeachment ainda não estava em pauta, mas passou a ser defendido pelo grupo a partir da obtenção de embasamento jurídico para tal.

 

Ao lado dos Revoltados On Line e do Vem Pra Rua, encabeçaram as grandes manifestações que tomaram o país em 2015, com foco no Impeachment — em 15/03, 12/04 e 16/08 quase um milhão de pessoas foram as ruas –, obtendo o importante papel de pautar as mesmas, uma vez que dentre os três principais grupo ou movimentos organizadores, é o MBL que possui mais “substância” programática e até ideológica.

 

E com o crescimento do grupo, naturalmente que o Rio de Janeiro ganharia representação. Em entrevista franca e didática, Lucas Saboia, membro do MBL-RJ, elucida alguns pontos importantes a respeito do Movimento, explica sua motivação para aderir ao grupo e dá sua opinião sobre estratégia política.

 

1. Lucas, antes de falarmos da sua atuação junto ao MBL e do movimento em si, conta pra gente o que te motivou a entrar para o grupo.

 

O MBL passava uma mensagem incisiva e leve ao mesmo tempo, sem nunca deixar de recorrer ao humor quando necessário. Me identifiquei com isso. Também me pareceu um movimento bastante apartidário, o que, sem prejuízo de pontuais interlocuções estratégicas com quadros específicos de alguns partidos, considero essencial para o sucesso desta batalha popular e democrática contra o PT.

 

2. Qual a sua posição no diretório carioca (posso chamar assim?)? Vocês usam nomes específicos para os cargos?

 

Aqui no Rio, ou se é coordenador ou se é colaborador. Então sou uma dessas duas coisas. Por ora, mais importante do que a nomenclatura dos cargos é a disposição para ajudar o movimento dentro das diretrizes estabelecidas nacionalmente. Há alguns dias, o MBL soltou um documento interno intitulado “manual de filiais” que incentiva a formação de pequenos núcleos municipais para difundir os princípios do movimento e influenciar nas políticas locais. A partir da implementação efetiva desta configuração organizacional, haverá uma clareza maior para as funções de coordenador, membro efetivo, apoiador e colaborador.

 

3. Sabemos que o movimento, que cresceu rapidamente (em menos de um ano se espalhou pelo Brasil), possui uma coordenação nacional, baseada em São Paulo. Como se dá a interação entre esta coordenação e as diretorias regionais?

 

Me parece que esta interação é bem simples e direta, utilizando muito esses softwares de mensagem. Não posso me aprofundar muito nessa questão porque tenho deixado isso a cargo dos coordenadores que estão no movimento há mais tempo do que eu. O que posso assegurar é que há um grau elevado de autonomia para que as coordenadorias locais promovam suas ações. Quem quiser promover atos que estejam de acordo com as diretrizes do movimento e conseguir viabilizá-los estrutural e financeiramente, a coordenação nacional não colocará obstáculos.

 

4. Como o MBL se situa ideologicamente: Liberal, liberal-conservador ou libertário?

 

Simplificando bem essa questão, o movimento se define como liberal.

 

5. Quem mais atua no diretório do Rio? Vi uns vídeos onde o Bernardo Santoro, antigo ativista da causa libertária, diretor do Instituto Liberal, aparece com vocês, ele é diretor/coordenador do MBL também?

 

Sim, ele é o coordenador estadual do MBL. É a pessoa que está no topo da hierarquia do movimento no Estado do Rio. Não tenho conhecimento deste ativismo libertário pretérito dele, mas tenho certeza de que isto não impediria, no âmbito do MBL/RJ, a atuação e a colaboração de pessoas que comunguem de pensamentos distintos da causa libertária pura.

 

6. Pensando estrategicamente, o Movimento não acha conveniente uma grande manifestação num dia útil?

 

Para os objetivos das manifestações ocorridas este ano, o domingo sempre será o dia mais adequado. É muito difícil coordenar manifestações vultosas e espalhadas por centenas de municípios em um dia de semana. A questão aqui é discutir se esse modelo permanece eficaz ou se é necessário partir para algo mais pontual, que foque menos no número de participantes e no total de municípios que aderem, passando a se concentrar mais na pressão exercida. Para este outro tipo de manifestação, os dias da semana serviriam muito bem. Acredito que isto está no radar de todos os movimentos.

 

7. Na manifestação do dia 16/08, o MBL de Brasília apresentou ao mundo o Pixuleco, boneco de 12m de altura, com roupa de presidiário, que faz alusão ao ex-presidente Lula. A ação foi um sucesso, o boneco apareceu em noticiários pelo mundo, rodou o Brasil e virou meme no Facebook, estrelando a foto do perfil de muita ganha. Agora, em São Paulo, o MBL colocou na Av. Paulista um boneco com as mesma vestimenta e inscrição no peito (13-171), simbolizando o prefeito Fernando Haddad. São ações geniais e que estão funcionando. Quando teremos um boneco como esses no Rio e quem ele poderia representar?

 

Cabe uma correção aqui: o Pixuleco não foi uma iniciativa do MBL, e sim de um outro grupo denominado Movimento Brasil. O sucesso foi imenso e seus criadores demonstraram mutia grandeza e desprendimento ao ceder a imagem do boneco ao domínio público. Já o “Haddard”, boneco que simboliza o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, esse sim foi uma ação do MBL local. Sobre termos esses bonecos no Rio, vou dar uma de cartola de clubes de futebol em início de temporada: não posso me aprofundar para não atrapalhar as negociações.

 

8. O MBL já anunciou que negocia com alguns partidos para lançar candidatos seus nas eleições municipais em 2016. Teremos algum candidato do MBL no Rio?

 

Dado o tempo exíguo para a filiação partidária no prazo para concorrer às eleições municipais de 2016, até a próxima sexta-feira, dia 02 de outubro, não acredito que haverá candidatos específicos do MBL no Rio para essas eleições. O mais provável é que ocorra simplesmente o apoio a candidatos cujas propostas se coadunem com os princípios e as diretrizes do grupo, o que, de cara, já elimina todos aqueles que sejam do PT e de suas linhas auxiliares (PCdoB, PSOL e a recém-criada REDE da Marina Silva).

 

9. O NOVO seria uma opção interessante para uma eventual candidatura de membros do MBL?

 

Por mim, pessoalmente, seria. A questão é saber se existe interesse mútuo nessa eventual associação. Pelo que andei pescando de comentários aqui e ali, tal associação não foi construída.

 

10. Antes de encerrarmos, gostaria de parabenizá-lo, assim como ao restante da equipe que trabalha com você, pelas inúmeras ações bem-sucedidas que o MBL-RJ vem realizando pelo estado. Na semana passada, em frente ao Palácio da Guanabara, vocês organizaram um importante ato contra a CPMF (“Xô, CPMF”). Explica para gente porque fazê-lo exatamente em frente ao Palácio e como foi o resultado da ação?

 

Em nome de toda equipe, agradeço pelos elogios. O ato contra a CPMF teve caráter simbólico, com uma pauta específica e sem objetivos numéricos. Naquela semana, os jornais estamparam diariamente fotos da Dilma ao lado do Pezão em reuniões cujo objetivo era tungar mais ainda o bolso dos brasileiros com a recriação deste famigerado tributo. É realmente uma vergonha para o Estado do Rio que seja logo seu governador um dos poucos políticos a apoiar este absurdo. Isso explica a escolha do local para o ato contra a CPMF. O ato teve também um objetivo paralelo, que é o de preparar os ânimos para grandes pressões que serão feitas contra parte do PMDB do Rio, a começar por seu líder na Câmara, Leonardo Picciani, que tem mostrado disposição para arrefecer o impeachment em troca de boquinhas ministeriais para seus apaniguados. O povo não pode permitir que manobras subterrâneas sejam costuradas para blindar um cleptogoverno, estelionatário eleitoral e ilegítimo, impedindo-o de prestar contas com a sociedade por seus crimes e por sua voluntária incompetência.

 

Registro do ato contra a CPMF (da direita para a esquerda, Thomaz Saboia, Lucas Martucci, Bernardo Santoro e Lucas Saboia).

Registro do ato contra a CPMF (da direita para a esquerda, Thomaz Saboia, Lucas Martucci, Bernardo Santoro e Lucas Saboia).

 

11. E para contextualizar o leitor em relação a importância da atuação do grupo, conte-nos de outras ações importantes que foram realizadas por vocês no RJ.

 

A mais recente foi realizada neste último domingo, dia 27/09. Membros do grupo afixaram cartazes na porta do prédio onde fica o diretório do PMDB, no Centro do Rio, exortando o deputado Leonardo Picciani a rever seu aparente conchavo com Dilma para livrá-la do impeachment. Foi uma ação nacional, reproduzida por diversas filiais do MBL país afora. Temos outras já engatilhadas e permanecemos atentos o tempo todo em busca de fatos políticos que possam ensejar novas ações.

 

12. Por fim, um assunto mais chato. Não pude deixar de notar, no cantinho de uma das faixas usadas por vocês aqui no RJ, o famoso “#OlavoTemRazão”. Tendo em vista as recentes críticas que o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho teceu ao MBL, você cogita evitar o jargão daqui para frente?

 

Apenas por uma questão de precisão informativa, saliento que aquela faixa é pessoal, minha. Não tem nada a ver com o MBL. Mandei confeccioná-la antes de entrar no movimento – por sinal, a faixa fez um tremendo sucesso; foram mais de 300 fotos, no barato, durante a manifestação de 15/03. A despeito das recentes críticas, não vejo incompatibilidade entre ser do MBL e admirar profundamente o filósofo Olavo de Carvalho. Além do vaticínio #OlavoTemRazão, a faixa contém dois pleitos que são fundamentais: #CassaçãoDoPT e #LulaNaCadeia (ficou faltando o #ForaForoDeSP). Acredito que tanto Olavo quanto MBL, para além do impeachment, endossem estas pautas. Olavo é um homem duro na defesa de suas convicções, mas também muito generoso. Duvido que ele tenha qualquer interesse em manter um clima de beligerância com os movimentos antipetistas. No caso em questão, acredito que sua intenção foi apenas demonstrar que Fernando Henrique Cardoso não merece o status de interlocutor privilegiado junto aos movimentos que combatem o PT e a esquerda em geral, cabendo este papel ao povo. Dadas as mais recentes declarações públicas do ex-presidente tucano, dizendo que o impeachment ainda precisa de uma narrativa convincente e que o PT é um partido necessário, é forçoso concluir que o jargão #OlavoTemRazão, como de costume, se confirmou. O próprio MBL que, a bem da verdade, nunca esteve mancomunado com FHC, emitiu um post detonando o tucano por exercer mais uma vez este lamentável papel de lavanderia dos crimes e da reputação do PT.

 

Prá concluir, um adendo sobre estratégia política: convém entender que ouvir os intelectuais sempre será uma boa estratégia. Muito da força histórica da esquerda foi obtido através desta escolha, tendo como protagonistas os membros da Escola de Frankfurt. A direita precisa entender que o sucesso em outras áreas não credencia ninguém automaticamente a ser analista político ou um formulador de estratégias. Pelo histórico do Olavo de Carvalho, e por ser ele o único intelectual vivo e pronto dentro da direita brasileira, escutá-lo, acima de tudo, é uma escolha pragmática.

 

A tal faixa.

A tal faixa.

 

Nota do autor: O analista político Gabriel Amaral colaborou com esta entrevista enviando duas perguntas.

 

Nota do editor: Após concluirmos esta entrevista, um fato novo pode alterar o cenário apresentado pelo entrevistado na pergunta 8, sobre possíveis candidaturas no RJ. Como a chamada “minirreforma eleitoral” (PL 5735/13) foi sancionada presidente Dilma ontem (29/09/2015), o prazo para filiação partidária com vistas a concorrer em eleição reduziu para até seis meses antes do pleito. Sendo assim, passa a ser viável termos candidatos oriundos do MBL no Rio também.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.