Entrevista com Eline Kullock – Especialista em geração Y
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Hoje conversaremos com Eline Kullock, presidente do Grupo Foco, considerada a maior especialista em geração Y do Brasil, gereção esta que atualmente está em foco no mercado de trabalho. Entende-se como integrantes da geração Y os jovens nascidos entre 1980 e meados de 1990.
Nesta entrevista, Eline responde as questões de forma direta e extremamente explicativa, nos concedendo a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a geração Y, mercado de trabalho e o conflito natural entre as gerações.
Ao todo são 16 perguntas sobre a própria Eline, o Grupo Foco, a geração Y e seus antecessores e predecessores. Boa leitura!
1. Quem é Eline Kullock, além de uma grande empresária?
Eu sou mãe de dois filhos da geração Y, avó da Bibi (4 anos) e do Pepê (1 ano), e ainda não sei a que geração eles pertencem. Sou carioca, flamenguista e eterna estudiosa dos temas ligados à relação entre pessoas.
2. Eline, qual a sua formação de origem?
Sou administradora pela FGV-Rio e tenho MBA Executivo pelo COPPEAD.
3. Como foi o começo do Grupo Foco?
Eu me mudei pra São Paulo e percebi um gap no mercado em relação a agências de emprego e empresas de headhunting/executive search. Enquanto atuava do outro lado da mesa, como gestora de RH em grandes organizações, queria encontrar um parceiro que pudesse entender os valores e a cultura da minha empresa. Meu desejo era não somente procurar profissionais, mas sim ajustá-los a essa cultura e aos valores específicos da organização naquele momento. A Foco nunca fez propaganda institucional, mas cresceu no boca a boca pelo bom resultado que foi demonstrado.
4. Honestamente, você imaginava chegar onde chegou?
Não, honestamente não. Acho que foi resultado de muito esforço, de uma equipe fantástica e de um mercado ainda pouco profissionalizado.
5. Existem diversos artigos seus em vários jornais e revistas de grande veiculação. Como foi o primeiro convite para escrever para uma grande revista ou jornal? Você esperava?
Qualquer processo de criação se dá por uma elaboração constante. É preciso ser sempre humilde e compreender que todos os jornais, revistas e folhetos são um excelente veículo de comunicação. É a partir daí que o seu nome começa a ser comentado e lembrado para outras publicações.
6. Agora falando propriamente da geração Y, porque o interesse na pesquisa de tendências do comportamento dos jovens?
Em primeiro lugar, o Brasil é um país jovem, onde falta mão-de-obra qualificada. As empresas foram obrigadas a contratar pessoas mais novas, com pouca experiência, já para assumir cargos de grande responsabilidade. O conflito que começou a acontecer entre os jovens e as gerações mais antigas, bem como a tendência dos jovens de saírem das suas empresas em função da insatisfação com os valores e a cultura, me fizeram procurar investigar o que estava acontecendo.
7. Como surgiu o termo “geração Y” e como identificar essa geração?
O termo “geração Y” foi criado nos EUA, mas eu acho que nós devemos entender como esse conceito aparece no Brasil. Eu os chamo de questionadores, porque essa foi a primeira geração a questionar abertamente uma decisão ou uma ação com a qual ela não concordava. Antes disso, não nos era permitido questionar, quer pelo modelo de ditadura brasileira, quer sob o ponto de vista de uma educação mais rígida transmitida pelos nossos pais. Essa geração, portanto, é questionadora, tem muito acesso à inovação e às tendências a partir da possibilidade de busca pela internet. Eles têm um pensamento não-linear, gostam de trabalhos claramente definidos, metas factíveis e reconhecimento pelos objetivos alcançados.
8. Quais são os principais pontos positivos e negativos da geração Y?
Pontos positivos: capacidade de questionar, porque outras gerações obedeciam sem retrucar; rapidez nos processos decisórios, num mundo que necessita de decisões rápidas; compartilhamento de informações, já que, dessa forma, mais pessoas podem ajudar no processo decisório; não ter medo de errar, o que não gera tanta ansiedade e depressão, porque o método “tentativa e erro” é baseado na premissa de que você pode errar; aprendizado com os pares e capacidade de lidar com vários assuntos ao mesmo tempo pelo pensamento não-linear.
Pontos negativos: dificuldade de atenção concentrada; dificuldade em aceitar algumas normas da organização, pela possibilidade constante de questionamento; baixa resistência à frustração, porque foram formados em famílias que sempre lhes deram tudo o que pediam; dificuldade em ouvir feedback negativo e baixo índice de autoconhecimento, porque não sabem como melhorar.
9. Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista e egocêntrica, você acha que essas características fazem parte da personalidade da geração Y?
Sim, a geração Y foi criada de forma mais individualista e autocentrada. Foi acostumada a viver no seu quarto, com seus equipamentos eletrônicos e, muitas vezes, participando pouco da vida doméstica, da casa, da família… Em algumas casas, a sala atualmente é pouco utilizada diante do que seria necessário para que o aprendizado da vida em grupo fosse possível. Talvez a próxima geração, num exercício de futurologia, possa ser mais voltada ao coletivo em função das mudanças climáticas e de suas conseqüências para a população. Com essas mudanças no clima, pode haver escassez de comida e dificuldade de transportes, fazendo com que todos possam pensar juntos em como resolver questões ambientais para a sobrevivência da humanidade.
10. Em sua opinião, como a geração Y é vista pela geração X e pelos BB (Baby Boomers)?
Essa geração é vista como autocentrada, pouco profunda, que não respeita a autoridade, ansiosa, imediatista, impulsiva, antenada e conectada, com uma grande necessidade de viver intensamente cada minuto e facilidade em relação ao aprendizado de novas tecnologias.
11. O que a mistura de várias gerações em um único ambiente de trabalho pode causar a uma empresa? E ao contrário, o que uma empresa com apenas um tipo de geração está ganhando ou perdendo?
Eu costumo dizer que diversidade hoje em dia será a capacidade de uma empresa em lidar com várias gerações trabalhando juntas. Uma organização precisa de todas as gerações no ambiente de trabalho para ter um ponto de equilíbrio nas decisões que toma. A profundidade de análise das gerações mais velhas, a objetividade e a praticidade da geração X e a rapidez da geração Y são a fórmula ideal para uma organização tomar decisões coerentes e, ao mesmo tempo, rápidas no processo evolutivo de um mercado tão ágil e rápido. Uma empresa que só tem um tipo de geração estará, certamente, perdendo uma dessas competências.
12. Quais são os principais desafios que os jovens da geração Y têm enfrentado na entrada para o mercado de trabalho?
Para mim, o maior passo de um jovem é quando ele sai de sua casa e entra no mercado de trabalho. Nas empresas, ele não é mais dono do seu quarto, e sim precisa adaptar-se a uma hierarquia existente. Precisa ter resistência à frustração de projetos que não são considerados bons pelos seus chefes ou ações que não são implementadas no tempo que ele gostaria.
13. A geração Y está dominando o mercado, hoje? Por quê?
Sim, porque o Brasil é um país jovem. Ser velho num país como o Brasil é ser “démodé”. No Brasil, a questão da geração Y deve ser muito estudada em função da nossa taxa de natalidade ser alta. Esse fato não acontece em países mais maduros e envelhecidos, como muitos da Europa e os EUA.
14. As empresas tendem a ser mais produtivas com a forma “Y” de trabalhar?
Eu acredito que as empresas se tornam mais produtivas quando conseguem alinhar todas as gerações no seu processo de se ajustar a um mercado em constante mudança e cada vez mais plano. Certamente, a geração Y tem muito a contribuir, mas o mundo não pode ignorar a competência, a maturidade e a experiência das outras gerações.
15. O que podemos espera da próxima geração?
Para mim, o que define uma geração é um determinado modelo mental. Se o modelo mental não muda, não há como identificarmos uma nova geração chegando ao mercado. Ainda não consigo detectar ou visualizar um modelo mental diferente entre os jovens de 15 a 20 e entre os de 20 e 25. Portanto, não posso identificar que essa seja uma nova geração que vai entrar no mercado de trabalho. Para mim, essa é uma continuação da geração Y. Talvez, em alguns anos, vejamos uma tendência maior, em função das mudanças climáticas, para um modelo mental que valorize e respeite mais as questões ambientais, que não é o foco da geração Y. Porém, isso seria antecipar o futuro, que é uma coisa muito difícil.
16. Eline, quais as suas considerações finais sobre esse assunto?
Eu acredito que essa questão deve ser muito discutida e verbalizada, para que as diferentes gerações no mesmo ambiente de trabalho possam compreender que, embora falem a mesma língua e se vistam de maneira muito similar, estamos falando de modelos mentais muito diferentes, que devem ser compreendidos e assimilados por todos. Na medida em que isso acontecer, vai ser mais fácil para cada geração compreender o comportamento da outra e, portanto, aceitar essa convivência de forma menos preconceituosa.
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