É incoerente para um cristão defender o discurso de<br /> Rachel Sheherazade?

É incoerente para um cristão defender o discurso de
Rachel Sheherazade?

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O polêmico comentário da jornalista paraibana Rachel Sheherazade em seu quadro “Opinião”, no jornal “SBT Brasil”, a respeito do menor infrator trancafiado a um poste por alguns ditos “justiceiros”, foi a pauta da internet na semana passada. Posições contra e a favor pulularam as timelines. Amigos virtuais se digladiaram em discussões as vezes bobas, outras vezes homéricas, mas todas infindáveis.

 

É que Rachel é tão eloquente em seu discurso que provoca quase que naturalmente no receptor de sua mensagem uma desejo equânime de se expressar. Bonita e inteligente, daquelas que não passa despercebida seja por um motivo ou outro, ela desperta amor e ódio em equivalência.

 

E no meio desse alvoroço pela internet, onde todo mundo queria opinar, observei um comportamento um tanto quanto estranho. Rachel é bastante clara em suas posturas, não esconde de ninguém que é cristã e conservadora. Nada mais esperado do que receber apoio de quem também o é. Entretanto, notei alguns sujeitos imputarem incoerência para com seus amigos cristãos por estes manifestarem apoio à Rachel e concordância com seu discurso na ocasião.

 

Embasados por um entendimento errôneo de que a apresentadora teria incitado a violência, estes “críticos” não hesitaram em objetar qualquer apoio dos seguidores de Jesus a ela, não estariam “amando seu próximo” como ensinou o Mestre.

 

Link Youtube | O comentário que gerou toda a polêmica.

 

A ótima retórica de Sheherazade já incomoda não é de hoje, mas a proporção deste incômodo desta vez se estendeu a quem no conforto de sua casa concorda com ela. Além das já citadas qualidades da jornalista, contou bastante para isso a modesta ascensão conservadora no Brasil através da internet, cujo estopim foi o momento pós-manifestações em 2013. Dessa forma, os mesmos que apontavam a suposta incoerência dos cristãos nos posts no Facebook, não falhavam em utilizar o jargão acusatório comum aos anti-direitistas e anti-conservadores de sempre: “Fascista!”

 

Apesar de já ser rotina é sempre impressionante contemplar a ignorância alheia, seja por estes ardis de cobrar uma moralidade suprema – neste caso cristã – mesmo sem exercê-la, seja pela utilização do clichê mor mais comum àquelas que se opõem a um discurso conservador, que é chamar todos de fascistas. Em alguns tópicos, cristãos honraram a farda e mostraram verdadeira paciência de Jó.

 

Agora, se me permitem, falo a estes cristãos que viraram alvo junto com a jornalista do SBT: não há mal algum em defender a fala da Rachel Sheherazade ou ela em si. Isso não é nem um pouco anti-cristão, pelo contrário, e apenas demonstra que você não é pautado pela doutrinação politicamente correta que recebeu desde a infância, em todo lugar neste Brasil. Nada mais cristão que defender a Justiça! Rachel preza pela Justiça, e teceu um comentário compreendendo a indignação do povo. Somente.

 

Não foi raro também, no meio desses “ataques”, ver os “críticos” da vez esforçarem-se em tentar depreciar o cristianismo da Rachel, e por consequência daquele que atacava, utilizando o nome dos polêmicos deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, como se houvessem um Cristianismo bom e outro mau. Existem sim diversas doutrinas cristãs, Bolsonaro é católico e Feliciano evangélico, mas não é sobre isso que falam os acusadores da vez. Para fins políticos existe um só Cristianismo e este é por natureza lógica conservador.

 

Bolsonaro e Feliciano são dois cristãos, próximos sim em pensamento da Sheherazade – apesar da ação e personalidade serem obviamente bem distintas entre os três. Isso não é demérito pra ela, mais uma vez, bem pelo contrário. Nem para você, se por um acaso aprecia algum deles. Tem esse direito. Os três são algumas das personalidades que mais fazem pelo Cristianismo em geral neste país hoje, e qualquer cidadão cristão mais atento aos embates políticos é capaz de entender isso.

 

Se alguém chegar até você, após ter manifestado apoio a qualquer um destes, cobrando-lhe mais “amor” para com o próximo, pergunte-o se conhece o Velho Testamento. É lá que conhecemos um Deus justo. E Ele é imutável, lembram?

 

Assim como na época do famigerado projeto que recebeu o nome erroneamente de “Cura Gay”, foi posta em prática uma estratégia (através de artigos na blogosfera progressista e na Carta Capital, por exemplo) para confundir o receptor da mensagem a ponto deste desentender aquilo que Rachel falou e demonstrou. Algo que só poderia ter funcionado aqui mesmo, num país onde muito mais da metade da população é composta por analfabetos funcionais. Mesmo os jovens, ainda que universitários, mal sabem interpretar um texto.

 

Sheherazade falou claramente que “compreendeu” a ação de indignação daqueles que contra-atacaram um marginal, mas em nenhum momento os isentou, como fazem aqueles que se intitulam defensores dos direitos humanos e seguidas vezes só enxergam o bandido como detentor destes. Não pode existir pecado algum em compreender a realidade que nos cerca, em toda sua complexidade.

 

Já o último trecho da fala da Rachel, que pede o fim da hipocrisia exatamente deste pessoal do “direito dos manos”, foi quase que um kibe sem querer do que disse Bolsonaro para a deputada Benedita da Silva, do PT, mais cedo no Congresso. Ele pediu para que a petista adotasse o menor do poste, já que estava com tanta pena. Tal atitude e a fala da Rachel devem ser entendidas dentro deste contexto, que é um peso exacerbado na defesa do bandido por parte deste pessoal da esquerda. “Adote um bandido” é uma fala reativa, sarcástica, irônica, que, infelizmente, a maioria dos brasileiros não tem capacidade de compreender.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Anderson

    Fernando,

    Esse video do Lucinho fala sobre isso: http://www.youtube.com/watch?v=gTDy5_72iJQ

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Então, Anderson, é mais ou menos sobre isso. Diria que menos do que mais, porque a questão da Polícia é algo diferente. Descontando toda a “pirotecnia” da fala dele, a questão é simples: muitas vezes é preciso tirar uma vida para preservar outra, e isso não é errado perante a Bíblia. No caso dos policiais, a situação se torna mais latente por ser constante. Agora, o caso da Rachel, foco deste texto, não trata especificamente de morte. É mais uma questão cultural de postura em relação à Justiça, se essa postura mais rígida para com quem comete crimes é compatível com Cristianismo ou não. Pontuei que é.

  • Daniel Tavares

    O problema dessa polêmica causada pela fala dessa repórter na minha opinião não tem nada haver com a religião, mais sim com o contraponto que está sendo exposto na rede entre a fala dela sobre esse menor que foi caçado por ser infrator e o cantor Justin Bieber. É claro que existem pessoas de má-fé que estão se utilizando do comentário dessa repórter que é uma pessoa pública como um eventual motivo para uma verdadeira guerra santa-ideológica. Por ser uma pessoa pública essa repórter tem sim que pensar até onde vale a pena interferir em uma notícia a ser anunciada. Quem fala tão tem que escutar!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Mas Daniel, não levei a questão pelo lado religioso gratuitamente. Fiz questão de falar, através deste texto, aos cristãos que pudessem me ouvir, pois testemunhei nessa semana de debates uma certa patrulha para com alguns cristãos. O resto está no texto.

      Mas sobre a Rachel em si, sim, quem fala tem que ouvir, nada mais natural na democracia que duas vozes distintas sobre o mesmo fato. Estamos, desde 2013 em função da ascensão citada no texto, tendo algum discurso diferente na mídia, um ensaio do que seriam posições conservadoras intelectualmente elegantes sobre os fatos do nosso cotidiano. Dessa forma, a grita a favor e contra é natural. Porém cabe frisar que ela não “interfere na notícia anunciada”, ela tem um quadro de opinião, avisado em letras garrafais que o é. Lá, ela dá a opinião dela. Sobre o Justin Bieber, tenho pra mim que a fala dela foi irônica.

    • Vitor Barreto

      Amigo Daniel, eu já discordaria um pouco do seu posicionamento. Acredito que ela é atacada por ser conservadora sim. Tanto isso é verdade que vi várias listas (em páginas esquerdistas) dos jornalistas conservadores, incluindo Reinaldo Azevedo, Luiz Carlos Prates, etc. que não tinham absolutamente nada a ver com o caso. O problema é que eles encontraram, no discurso dela, alguma razão pra atacar, como você bem frisou.

  • Vitor Barreto

    Como bem lembrou o Felipe Moura,

    “Se o ladrão for achado roubando, e for ferido, e morrer, o que o feriu não será culpado do sangue.” Êxodo 22:2

    Legítima defesa é bíblico. As Escrituras reconhecem a autoridade secular quando essa é justa (veja bem: QUANDO É JUSTA).

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Versículo interessantíssimo.

  • Wellington Cunha

    É incoerente para um ser humano civilizado defender justiça com as próprias mãos, sem possibilidade ampla de defesa e contrariando as leis do próprio país, ainda mais num país democrático, onde as leis são feitas por representantes do povo. Não tem nada a ver com religião e sim com civilidade. E legítima defesa pré (matar alguém só porque sente ameaça futura) ou pós (ai já e vingança mesmo), não existe. A legitima defesa só se configura no momento exato do crime e se for uma ação que ameace a vida da vítima (um furto, onde não há emprego de violência, descaracterizaria). Além do mais, se fossem amarrar os tais “justiceiros” que vão à favelas para pegar drogas, que dão a cervejinha pro guarda pra se livrar da multa, que trafegam pelo acostamento, etc acho que iriam faltar postes.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      A situação é bem mais complexa do que se pode pressupor rapidamente. Legítima defesa é um tema caro aos brasileiros, algo que não faz parte da nossa cultura, porém é premente que tenhamos maior atenção sobre isso, visto que a violência só aumenta.

      Wellington, o Estado Democrático de Direito é o melhor sistema que temos, não há o que discordar sobre isso e não há o que defender fora dele, na minha visão. Presumo que a Rachel também não discorde disso. Mas o fato é que é necessário compreender a fala dela em toda sua extensão e complexidade, principalmente pelo caráter de exceção do cao. Onde impera a barbárie (grandes centros como RJ e SP são violentíssimos), tais situações extremas acontecem e não vejo mal em um cristão ou qualquer outro ser buscar compreender isso. Vejo sinceridade, isso sim. Se os “justiceiros” eram igualmente criminosos, como parece ter sido revelado depois, é outro papo. A compreensão citada pela Rachel passa por ter empatia para com o cidadão comum, que apenas trabalha e convive em família, que não debate política e nem nada, só quer paz. É entender o motivo deste se rebelar, e é possível fazer isso sem “justificar” o ato, como fazem os ongueiros com os menores infratores.

      O termo que alguns vem utilizando para condenar o discurso dela é “aceitar”. Bem, compreender não é a mesma coisa que aceitar. Compreender é entender, desde o autores até o motivo do fato ocorrer. Nisso não vejo nada demais. Existe um motivo para “compreender” ser diferente de “aceitar” na língua portuguesa. Não é uma questão de defender a justiça pelas próprias mãos, como você citou de início, querer torná-la o certo, um padrão… Mas isso não nos isenta da possibilidade de ter empatia para com os praticantes e julgar que talvez, numa situação extrema de se ferrar todo dia nas mãos de um mesmo meliante (exemplo), também reagiríamos. Seja isso “pré” ou “pós” (assumindo que aquele cara já te roubou). E veja, a tortura que parece ter ocorrido com o “menor do poste” é um exagero incompreensível, mas isso nem entrou na pauta do discurso.

      E você falou em matar, mas isto também não entra na pauta. A reação de qualquer um contra um criminoso não tem este fim necessariamente. Os justiceiros ensandecidos do Flamengo não mataram o “marginalzinho”, para imitar a Rachel.

      A justiça com as próprias mãos não é uma boa forma de agir porque é injusta, quem poderá condenar quem? Entra nesse mérito, mas a situação aqui é de exceção. E podemos compreender exceções quando o assunto é legítima defesa. Sua fala é legalmente correta, existe ainda o critério de não reagir acima daquilo que sofreu, se te dão um soco, você tem o direito de dar outro. O problema é quando te matam, não dá pra reagir depois disso.

      Sobre legítima defesa “pós”: Conhece o filme “Tempo de Matar”, com Samuel L. Jackson? É baseado em livro homônimo. Em resumo, a história é a seguinte: O personagem do Samuel é um pai cheio de filhos, um deles uma menina de 11 anos. Uma família negra no Mississípi. Certo dia dois brancos filhas da puta, bêbados como gambás, pegam a filha dele de 11 e a estupram no mato, com requintes de crueldade altíssimos, tratando-a como lixo, usando-a como alvo de suas latas de cerveja… Deixa-na pra morrer no mato, mas ela não morre. É encontrada, o estupradores são identificados e vão a julgamento. Mas por terem influência na cidade (filhos de alguém, não lembro), o caso se encaminha para dar em pizza (pena branda ou inocência, também não lembro exatamente). O tempo todo, durante o julgamento, os criminosos ironizam o pai da menina, dão sorrisos sarcásticos (coisa de filme). Há também o atenuante do advogado do pai da menina ser branco e sofrer por isso. O “lawyer” é perseguido por defender negros contra brancos.

      Enfim, ia dar em pizza, mas o pai, que é ex-combatente, resolve buscar a sua justiça, com as próprias mãos, mesmo ciente daquilo ser um erro e de que iria pagar por ele. Ele se escondeu com um M-16 num cômodo do prédio onde ocorria o julgamento e quando os estupradores saíam do julgamento felizes pela impunidade, ele apareceu e fuzilou geral. Uma M-16 é uma arma de grande porte, então foi bala para todo lado. Um dos policiais que conduzia os criminosos foi alvejado na perna e depois acabou perdendo a mesma. Ele tinha uma filha também.

      E então vem o julgamento do pai que fuzilou os estupradores da filha, esse policial, já sem perna, é convocado para depor e surpreendentemente abolse seu algoz, diz que entende porque ele fez isso e faria o mesmo se estivesse no lugar dele (o policial é branco) .

      Sendo assim, diria que esta é uma situação claríssima de exceção e que, fazendo analogia ao discurso da Rachel – forçando um pouco, óbvio, sei que é distante -, este policial “compreendeu” o Pai. Eu não condenaria ele (policial) por isso.

      Sobre legítima defesa pré: não é defesa, é ataque.

      Por fim, recomendo este texto apenas para lançar um olhar diferente e mais abrangente sobre a situação ocorrida no Flamengo: http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/02/07/a-tranca-na-garganta/.

      Enfim, não busco concordância, não é o caso, apenas acho legal trabalhar melhor a argumentação. Abraços!

    • Leonardo

      Wellington Cunha, seu discurso é muito bonito pra uma “sociedade civilizada”, experimente andar a noite nas ruas do centro do Rio de Janeiro, pra não dizer bairros ainda mais perigosos da zona norte, no mínimo será assaltado umas 2 vezes. Então essa tese de civilização não cola com a gente. Não tem jeito, aqui a impunidade reina, a população tá perdendo a paciência…

  • Daniel Tavares

    Concordo… em muita coisa com o meus colegas. Mas devemos ser primeiro cidadão depois as demais intitulações (políticas, religiosas e ideógicas).

  • joão

    Ela não falou nada demais, só falou que a reação é compreencivel, e ponto.
    Datena e outros de programa semelhante ja falaram um monte de coisa e não ouve esta celeuma.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Datena e outros não são conservadores.

  • Daniel Tavares

    Está mas do que provado que as grandes emissoras vendem um produto e não a verdade. Uma vez uma grande professora me falou que não podemos falar de um assunto ao qual não conhecemos, ou seja que vivenciamos. De fato muitos desses reportes, falam algo que está distante da sua realidade, demonizando pessoas, causando e fomentando a raiva no cidadão comum ao seu bel-prazer. Ser irônico diante de milhões de pessoas sedentas por uma ajuda e com várias falências dentre elas sociais. Não podemos esperar uma boa compreensão dos mesmos sobre o que está sendo dito ali. Aí que está a questão; como essas pessoas conduziriam essas informações levantadas dessa forma? Um grande exemplo de mudança de linguajar é o Jornal Nacional que para quem não percebeu as falas que antes eram bem rebuscadas, hoje já estão em um tom meio informal.

  • Saulo Reis

    Fernando, vc acha que o Bolsonaro é conservador? q indicativos lhe dão essa visão?