Domingo é Dia de Ócio. E de séries

Domingo é Dia de Ócio. E de séries

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Domingo é, oficialmente, o dia do ócio. Numa tradição que remonta a criação da Terra e do universo, Deus gastou seis dias para fazer tudo que devia ter feito e um para descansar. Este dia, no caso, foi o domingo. Portanto, desde o início dos tempos, para a maior religião do mundo Ocidental, esse dia da semana serve ao descanso da mente e do corpo. Não há qualquer pecado em passar o dia vendo filmes, séries ou futebol enquanto o sol brilha com todo seu esplendor do lado de fora da sua casa. Se você está associando esse texto a uma espécie de ode à preguiça, acertou em cheio. Uma ode à preguiça, em especial no último ou no primeiro dia da semana (de acordo com o referencial).

 

Segundo a Wikipédia (que ao menos nesse assunto é uma especialista de marca maior) a preguiça pode ser definida como “aversão ao trabalho, bem como negligência, morosidade e lentidão”. É basicamente tudo que eu te desejo para o dia de hoje. Um domingo preguiçoso, repleto de aversão ao trabalho, negligência, morosidade e lentidão. Desejo que você se esqueça do país, do Lula, da sua ex e, principalmente, do seu chefe.

 

Se a Wikipédia é uma especialista em termos de preguiça, outra novidade dos nossos tempos é talvez a maior especialista em preguiçosos. Me refiro a Netflix, aquele singelo site de streaming, que em quatro anos e meio de atividade já fez mais pela cultura do brasileiro médio do que o Ministério da Cultura desde o governo FHC. Com um acervo rico, mas limitado, a Netflix vem para substituir uma perola da infância de quem nasceu nos anos 90: a videolocadora.

 

A videolocadora, para você que nasceu em 2000 e já tem incríveis 16 anos, era, basicamente, um cubículo com filmes para todos os gostos, do chão ao teto, o paraíso para cinéfilos ou o melhor lugar para qualquer um que não tivesse muito tempo ou dinheiro para ir ao cinema. Nos anos 2000 foram modernizadas, se transformaram em multinacionais e passaram alugar também DVD. Se você possui algum tipo de saudosismo com o passado, sugiro fortemente que passe em uma antes que todas fechem as portas de vez. É uma viagem a um verdadeiro rito dos noventista. Afinal de contas, quem nunca passou horas e horas lendo as descrições dos filmes para depois escolher o mais óbvio possível – o filme do Brinquedo Assassino, o novo do Stallone ou algum do Al Pacino, dependendo do gosto. Pois é… Se pudéssemos explicar para alguém que não viveu para ver a revolução das mídias digitais, diríamos que é exatamente isso um site em que você pode escolher um monte de filmes que te sugerem, mas sempre acaba optando por uma série com super-heróis, uma série engraçadinha ou, é claro, um filme com o Stallone.

 

Em meio a essa espécie de videolocadora do século XXI, muitas vezes gastamos mais tempo escolhendo o filme do que os assistindo. É justamente para ajudar você a gastar o mínimo de tempo possível que fizemos uma lista com 3 séries que são relativamente conhecidas, mas que ninguém dá o devido valor. Vamos a elas!

 

Black Mirror

 

 

A primeira vez em que eu ouvi falar de Black Mirror foi através de um post do Guga Chacra. O comentarista de política internacional da Globonews, conhecido por ter opiniões de centro e por falar o óbvio (o que em um mundo cada vez mais cercado por conspirações é uma virtude em tanto), fez um breve comentário a respeito da série. Foi suficiente para que eu pesquisasse mais a respeito, mas insuficiente para me fazer assistir por conta própria. O tempo passou e eu acabei assistindo por indicação de uma amiga.

 

Black Mirror é uma série que reflete sobre as nossas relações com o meio digital e com as revoluções tecnológicas que ainda estão por vir. Cada temporada não tem mais do que 3 episódios independentes entre si. A única relação entre eles é a existência de um futuro distópico, dominado por aplicativos, redes sociais e relações pouco humanizadas. O tom meio assustador, meio de ficção cientifica, se dá sempre apresentando um personagem com todas as características de um ser humano comum, para então mostrar como em um futuro nem tão distante assim o nosso vício com o meio digital e a nossa incapacidade de refletir sobre isso pode nos fazer escravos de nós mesmos.

 

O episódio que aborda a polêmica do Primeiro-Ministro David Cameron com porcos

O episódio que aborda a polêmica do Primeiro-Ministro David Cameron com porcos

 

Tudo isso sem um discurso clichê e sem apelar para o didatismo. Pelo contrário: como em toda boa distopia, a insegurança e o medo é que guiam a reflexão. Não há boas mensagens em Black Mirror. O que há são personagens presos no mundo digital e relações que um dia já foram humanas sendo transformadas em meros joguetes de aceitação social e “popularidade” (alguém falou em Facebook?), tudo de uma forma extremamente vulgar e superficial (o que é que tem o Instagram?).

 

A série é uma ampliação até as últimas consequências de um presente que já vivemos. Talvez por isso a série nos passa uma sensação meio sombria, porque, apesar de se passar em um futuro distante, muito do que acontece nela já pode ser visto por aqui. E o pior: sem lição de moral ou autoajuda para aliviar a culpa. É necessário ressaltar que outro acerto da série é não julgar a tecnologia em si, mas os anseios humanos que propiciaram a criação desta.

 

Em um economês simples: é um problema de demanda, não de oferta. O problema está em quando começamos a criar o futuro de Black Mirror – mas isso é discussão para um post inteiro. Em tempo: o enredo, a trilha sonora, o enquadramento, tudo tem uma qualidade no mínimo compatível com as outras séries do mercado.

 

Jericho

 

 

A menos conhecida das três séries. Jericho está fora das grandes rodas de discussão. Poucos sabem que ela existe e menos gente ainda se dispôs a escrever uma resenha digna para a série.

 

Imagine um mundo dominado por uma guerra nuclear. Imagine todos os efeitos nefastos que a população mundial sofreria com uma guerra de proporções continentais entre grandes duas potências. Agora imagine que você está em uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. Os meios de comunicação não funcionam por conta da radioatividade e da guerra e a única coisa que você sabe é que uma bomba nuclear explodiu em algum ponto que você é incapaz de precisar.

 

Como seria viver num mundo devastado por uma guerra nuclear?

Como seria viver num mundo devastado por uma guerra nuclear?

 

É exatamente este a premissa de Jericho. Uma série que fala de um futuro sombrio afetado por uma guerra que você sabe que está acontecendo, mas não tem a mínima ideia de onde ou quando. A grande diversão está no tom meio oitentista da produção. Em muitos aspectos, o roteiro, a fotografia e até o tratamento de imagem lembram os de uma série feita nos anos 80/90. É um excelente passatempo para quem já se pegou pensando no pior que poderia ter acontecido se a Guerra Fria tivesse outro desfecho.

 

Obs: Jericho é uma dessas séries que seguem à risca o lema do período militar brasileiro: “ame-a ou deixe-a”. Isso é tão notável que a série, apesar de ter sido cancelada cedo, conta até hoje com uma legião de fãs que sonham em ver um desfecho compatível com a grandeza da série.

 

Sons of Anarchy

 

 

É a mais conhecida das três e não é necessário falar muito para convencer qualquer um a assistir. Basta dizer que é uma série que aborda a rotina de motoqueiros contrabandistas de armas. Os personagens, as motos, a fotografia, tudo na série soa com cara de mau. Tudo mesmo. E o melhor, sem qualquer clichê: os personagens de Sons of Anarchy são durões, mas não são superficiais – e surpreendentemente bem trabalhados.

 

Um belo resumo

Um belo resumo

 

O mundo que envolve a série é real. Nada que não aconteça pior em um país com 60 mil mortes anuais. São sete temporadas dividas em episódios de 50 minutos. Mas a combinação “motoqueiros durões, polícia e tatuagens” é simplesmente inesgotável. Sons of Anarchy é uma série que explora o nosso desejo óbvio por perseguições, discussões que soem reais e brigas de bar – e, talvez por isso, seja tão atemporal quanto os faroestes da década de 60. Quem gosta, costuma amar. Quem não tem paciência não consegue acompanhar nem o primeiro episódio.

 

 

Para um Domingo preguiçoso, dá para ver pelo menos dois episódios de cada série enquanto o Estado não regulamenta a Netflix e acaba com a diversão de todo mundo em nome da “cultura nacional” financiada a base de impostos. Segue a dica para quem quer fugir do caos em que o mundo, o Brasil ou a sua vida se encontram.

Thiago Penna
Publicitário, jornalista, humorista de ocasião e filósofo de boteco. Não necessariamente nessa ordem...

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