“Dois dedos de Teologia”, oito de outra coisa qualquer

“Dois dedos de Teologia”, oito de outra coisa qualquer

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O canal “Dois dedos de Teologia”, de Yago Martins e Felipe Cruz, cresce a passos largos em popularidade, sendo cada vez mais comum ver um vídeo dele compartilhado por algum de meus amigos cristãos.

 

E a coisa vai tão bem que já observo uma galera que se ufana com a dupla, vendo-os como o suprassumo dos cristãos modernos – seja lá o que isto signifique. Algo que, sendo bastante sincero, está distante da realidade. Em alguns temas, como o MMA, objeto do vídeo que comento neste texto, a opinião deles está distante de qualquer coisa “moderna” e não é devidamente sequer embasada.

 

Tenho enorme ressalvas com o Yago, por exemplo, desde que deu chilique em texto contra Jair Bolsonaro, chamando-o de homofóbico – suas palavras não perdiam para as costumeiras de Jean Wyllys.

 

Na verdade, desde que popularizaram alguns vídeos da dupla eu já nutria algumas suspeitas. A estética do discurso deles soa-me forçada e vazia, a despeito do esforço que fazem para aparentar o contrário – se vendem como intelectuais. Algo não batia pra mim. Sentia um esforço em demasia para ser e parecer culto em todos das áreas, a partir de uma visão cristã.

 

Quando veio o texto do Bolsonaro, de ruim esteticamente apenas, no caso o Yago – já que o texto é só dele -, a divergência passou a ser de conteúdo também.

 

Resolvi, então, para uma crítica melhor elaborada, entrar no canal deles e assistir mais vídeos. Minha conclusão: É certo que conhecem muita coisa, em Teologia, mas fora dela… Era melhor se absterem.

 

Este vídeo onde comentam sobre MMA e violência é um exemplo crasso (assista ao final do texto). Falam muito, e em geral muita besteira. Demonstram nitidamente que sabem pouco do que estão falando. Acusam o MMA de ser “violência gratuita”, mas dizem que o Muay thai é um esporte mais nobre e menos violento (?!).

 

No caso do Yago – é, não curto muito o sujeito -, que faz muay-thai, soa quase como hipócrita, ou mesmo a mais pura negação da realidade, o fato de mistificar o “Thai”, uma das mais belas e mais violentas artes marciais (não sei se ele treina realmente a arte tailandesa ou algo parecido, visto suas opiniões). Um desavisado verá em suas palavras o Muay thai como um espécie de Judô dos socos e chutes, tamanha caricatura. Nada mais falso.

 

Quando justifica porque o Muay thai vale, para o cristão, e o MMA não, ele viaja num pote gigantesco de maionese e compara um suposto campeonato mundial em que seu mestre participou com o UFC, sendo o primeiro ok, o segundo praticamente um “louvor ao Demo”.

 

Só que o campeonato que ele cita, afirmando ser tão visto ou importante quando o UFC, é amador. Foi, no máximo, algum campeonato que se disse mundial e amador, de Muay thai ou o tal “algo parecido”. Ele menciona que seu mestre e os demais participantes vestiam, além das luvas de 16 onças – obrigatórias em qualquer esporte de “golpes traumáticos” -, caneleiras, capacetes e ainda proteção no tronco. Exatamente como no treino de iniciantes. Campeonato mundial de Muay thai? Claro que não. Isto é o campeonato mundial Muay thai: http://youtu.be/_FmkewoId0A. Profissional.

 

O campeonato do Yago era amador, independente de seu peso ou real titulação, se mundial, regional ou sei lá o quê, pois o uso de tais proteções o caracteriza como tal (veja o caso do Boxe, que quando olímpico e, naturalmente, amador usa os mesmos equipamentos, excetuando as caneleiras, e quando profissional, de Mike Tyson e Floyd Mayweather, não). Tudo bem. O problema é usá-lo como parâmetro numa comparação com lutas organizadas pela principal organização de MMA do mundo.

 

Maior desproporção não poderia haver. O famoso “alhos com bugalhos”.

 

Presumo que Yago e Felipe desconheçam a existência de campeonatos de MMA amador, que utilizam, ora, pois, os mesmos equipamentos de proteção que na infantil argumentação do Yago inocentam o “Thai” em relação ao “UFC”, aos olhos cristãos.

 

Yago patina também ao mencionar que luvas maiores trariam maior proteção aos atletas em combate, algo muito comum de se ouvir, porém também errôneo. Na verdade, as luvas maiores existem para “prolongar o sofrimento” daquele que apanha, aumentar a durabilidade da luta e, consequentemente, do entretenimento – que eles condenam, da violência como entretenimento. Ao contrário das luvinhas do MMA, que foram criadas para evitar que os atletas quebrem a mão, algo que era constante nos primórdios, quando não se usava luva alguma, dada a frequência do “osso com osso” (da mão com o do rosto), e não para viabilizar o show, as “luvonas” aumentam também o sacolejo do cérebro dentro da caixa craniana, o real problema em se levar um soco.

 

No MMA, com a luvinha, a luta tende a terminar mais rápido, com os atletas com escoriações leves na face, visíveis sim, mas com menor dana ao cérebro; já no Boxe, com a luvona, o dano é prolongado e ao mesmo tempo que evita escoriações aparentes, aumenta o impacto “interno”, dentro do “caixa”.

 

Mas é claro que Yago e Felipe não sabem nada disso, o que não seria problema algum, se eles não danassem a comentar a respeito.

 

Aliás, gostaria de saber como reagiriam Vitor Belfort e Manny Pacquiao, dois lutadores profissionais de elite, ou seja, que lutam MMA e Boxe sem as proteções que para Yago isentam uma arte de ser violenta, e também cristãos fervorosos, que não se furtam de testemunhar sua fé, ao saberem que consideram o que fazem “violência gratuita”. Certamente, taxariam o interlocutor como mais um ignorante no assunto.

 

Ainda na isenção do Muay thai e condenação do MMA como algo violento (existiria algo mais absurdo dentro de um contexto marcial?), assistam o vídeo e vejam como é forçada a afirmativa, por exemplo, de que existem os cotovelos (golpes com esta parte do corpo são os que mais geram cortes e lacerações no MMA) no Muay thai sim, “mas são pouco usados”. A fala comprova que Yago treina, provavelmente, apenas um arremedo de “Thai”, pois a arte nascida na Tailândia destaca-se exatamente pelo uso dos cotovelos e joelhos.

 

Técnicas com joelhos e cotovelos, das mais violentas vistas no MMA, consagradas por nomes como Anderson Silva e Jon Jones, são oriundas exatamente do Thai. O próprio Anderson, ironizado pela dupla no início do vídeo, é um lutador de Muay-Thai, formado na arte, a verdadeira, que começou a lutar em ringues sob tais regras. Somente depois de faixa-preta na arte tailandesa ele foi estrear no MMA.

 

Mas Yago e Felipe infelizmente ignoraram essas e outras muitas informações na análise que segue, demonstrando claramente que não entendem do assunto que resolveram abordar. Um péssimo exemplo cristão.

 

Treinar Muay thai numa academia no fim da rua de trás não lhe confere autoridade para comentar um tema tão complexo, objetivando validar ou não o gosto alheio: aquele tal “o cristão pode isso e não pode aquilo”.

 

Uma pena que muitos lhe darão ouvidos e rumarão para frescura e para ignorância, quando argumentarem sobre o tema.

 


Link Youtube | “O cristão pode lutar artes marciais e assistir MMA?”

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Alexander Moitinho

    Yago… Yago… Yago… rs