Amy Winehouse e o Oscar

Amy Winehouse e o Oscar

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Escrevo este texto sem saber o resultado das manifestações do dia 13 de março. Independentemente do número de pessoas nas ruas, trata-se de um dia histórico, seja pela consolidação do Partido dos Trabalhadores no poder ou pelo fim de um ciclo que durou irônicos 13 anos. Como não sou vidente e o presente já me dá trabalho demais, não me arriscarei a dar palpites. Em um regime democrático, cada povo tem o governo que merece – ainda que isso possa soar cruel em boa parte dos casos. De um lado e de outro, os ânimos estão acirrados, amizades de longa data estão sendo desfeitas e a efervescência do momento tem feito muita gente, que até então ignorava a política, dedicar longas e longas horas a ela.

 

É sob esse contexto que, humildemente, peço que esqueçam um pouco o calor dos debates e as paixões do poder para lerem algumas linhas a respeito de um assunto que desperta sentimentos tão efusivos quanto à política: me refiro ao cinema. O último Oscar foi dominado por questões completamente irrelevantes. O boicote, em primeiro lugar, e o famigerado Oscar ao ator Leonardo DiCaprio. Em meio a uma cerimônia até então destinada aos melhores participantes da maior indústria cinematográfica do mundo, a arte deu espaço a política e a tediosas discussões sobre racismo e meritocracia.

 

Ao leitor que já separou as pedras, explico: não questiono os protestos, tampouco os méritos do protagonista de O Regresso. Apenas lembro que alguns grandes filmes acabaram como coadjuvantes no meio de todo fogo cruzado. Um deles em questão me chamou a atenção. Me refiro ao documentário Amy ganhador do Oscar nesta categoria.

 

Drogas, Exposição e Indústria Cinematográfica

 

Sobre o documentário, a primeira coisa a se dizer é que foram os 127 minutos mais impressionantes de 2016. Brigas conjugais, trabalhos de faculdade, discussões com amigos ou mesmo o estresse do cotidiano, nada se compara ao documentário dirigido pelo britânico Assif Kapadia. E Amy é intenso basicamente porque é real. E é real a ponto de nos fazer pensar que só pode ser mentira.

 

Capa do documentário Amy

Capa do documentário Amy

 

Amy Winehouse foi uma cantora de blues/jazz que fez sucesso entre 2003 e 2011. Foi alçada a fama com o single Stronger than Me, estourou com Rehab e Back to Black e encerrou com Body & Soul, com participação de Tony Bennet. Tudo em um intervalo de pouco mais de seis anos. A carreira da cantora pode ser considerada um espelho contemporâneo dos rock stars dos anos 60 e 70 por uma dessas coincidências inexplicáveis do destino a vida.

 

Amy Winehouse teve uma vida que se assemelha a muito a de outros grandes ícones da música. Logo na infância teve de conviver com uma família desestruturada. Foi durante essa fase que ela teve de enfrentar dois problemas que viriam a causar estragos enormes: a bulimia e a depressão. Na adolescência, descobriu a música, dom capaz de condenar e redimir ao mesmo tempo. No caso dela, fez-se os dois. Foi condenada a um mundo superficial, cercada de parasitas. Foi redimida através da possibilidade de expressar tudo àquilo em letras. Desde o primeiro minuto, tudo sendo apresentado com depoimentos próximos e imagens de arquivo. Impecável!

 

O início da carreira também é nos apresentado com farto registro audiovisual. É como se pudéssemos ver a uma ópera, cujo fim já foi exaustivamente apresentado nos jornais do mundo inteiro, mas que ainda não conhecemos a melodia. A fama, as relações abusivas, tanto em âmbito familiar quanto em âmbito amoroso, a intensa cobertura dos meios de comunicação, o auge, a decadência. Tudo se funde em uma única obra. Amy Winehouse foi uma cantora que nunca esteve preparada para a fama, mas que, do dia pra noite, se tornou a personalidade mais falada pela imprensa. Ganhou dinheiro, cantou nos lugares mais famosos do mundo, lotou estádios inteiros e, mesmo assim, foi incapaz de espantar os próprios diabos, entre eles o próprio pai, o ex-namorado, a imprensa e, o mais terrível deles, a própria Amy. A incapacidade de aceitar seu lugar dentro do mundo pode fazer estragos e, no caso dela, vemos uma artista incapaz de reconhecer o seu tamanho – nem mesmo quando recebe um elogio da lenda do jazz, Tony Bennet. As drogas, os flashes e a bulimia foram os elementos que turbinaram o imenso caos chamado Amy Winehouse.

 

Amy era assim: uma artista agonizando em praça pública e pior, com a conivência explicita da imprensa e dos setores conservadores e progressistas da sociedade. A mídia se divertia com as escapadas da cantora. Setores mais conservadores aproveitavam para condená-la com moralismo barato e os progressistas, por sua vez, idolatravam o mesmo estilo de vida que a condenou a um fim melancólico. Poucas coisas são mais patéticas do que essa história de que “meus heróis morreram de overdose”. Um músico que morre de overdose ou de complicações similares não é um mártir, não é um inimigo da civilização e também não é uma mera imagem a ser explorada comercialmente. Cinquenta anos após termos perdido uma geração inteira de músicos talentosos, o documentário Amy nos mostra que não fomos capazes de aprender nada. Pelo contrário: regredimos vergonhosamente.

 

A imagem de Amy que a mídia mais explorava

A imagem de Amy que a mídia mais explorava

 

Mas não pode se dizer que Amy Winehouse era uma vítima. Pelo contrário. Em diversos momentos, o documentário apresenta uma mulher capaz de fazer escolhas e mudar o próprio destino e, no entanto, não o faz. A cantora teve em suas mãos a oportunidade de mudar de vida de vez através do seu antigo empresário e fez troça disso. Resultado: escreveu álbuns, ganhou muito dinheiro, foi alçada a fama de forma meteórica e morreu antes dos 30. Amy também é sobre escolha individual e, assim como melhores obras da literatura, ela nos passa a impressão de que estamos todos condenados, inclusive ela. A ideia que duas ou três decisões poderiam ter evitado uma tragédia nos remete a nós mesmos. Quantas vezes não tivemos a oportunidade definitiva para mudarmos a nossa realidade através de uma única palavra e quantas vezes não fracassamos… É mais fácil pensar em uma tragédia colocando a responsabilidade única e exclusivamente no “iceberg” e ignorar que o Titanic foi comandado por gente que poderia mudar a rota.

 

Amy joga isso na nossa cara. Uma tragédia capaz de envolver a imprensa mundial, a nossa própria cultura e, claro, as escolhas da própria Amy Winehouse. É por isso que o documentário foi o ganhador do Oscar. Não foi porque Hollywood glamouriza o uso abusivo de drogas – ainda que, de fato, glamourize. Não foi porque Amy seja mais importante do que a questão ucraniana do documentário que concorreu com ele ao premio, até porque não é. É porque em todo o seu vigor, Amy nos apresenta um dos mais completos retratos da alma humana já registrados.

 

P.S.: uma observação sobre o trabalho do diretor é necessária. Assif Kapadia já havia feito um filme tão impactante quanto Amy. Trata-se de Senna, em que a história do piloto brasileiro é relatada por seus amigos e inimigos de Fórmula 1. É, sem sombra de dúvidas, um documento enorme para relembrar, mas não teve e nem mereceu ter o peso que teve Amy. Senna é capaz de levar as lágrimas qualquer brasileiro que acompanhou o piloto ou mesmo qualquer fã das corridas. Amy é uma obra de arte que nos fazer refletir sobre elementos tão distintos quanto a indústria cinematográfica e a alma humana.

 

Em um, somos apresentando a um grande piloto que, de uma forma ou de outra, venceu na vida e o fez de forma retumbante. No outro, o diretor nos apresenta uma artista elogiada por nomes gigantes do blues e do jazz, mas que não alcançou aquilo que dela se esperava. Seria como se comparássemos O Senhor dos Anéis e Crime e Castigo. O primeiro é uma obra grande por mostrar aquilo que há de melhor dentro de nós. O segundo é uma obra gigante por mostrar justamente o contrário. A diferença, no caso, é que o autor é o mesmo.

Thiago Penna
Publicitário, jornalista, humorista de ocasião e filósofo de boteco. Não necessariamente nessa ordem...

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