Designer X Cliente X Micreiro

Designer X Cliente X Micreiro

1

A briga por clientes no mercado é cada vez mais árdua, conquistar sua clientela é uma tarefa cada vez mais dura, pois o mercado é uma selva onde a lei do mais forte predomina. Embora esteja falando da área de design, existem profissionais de outras áreas que irão se identificar com esses problemas.


Round 1: Designer x Cliente


Enfrentando essa realidade, para se destacar e atrair atenção é necessário, a princípio, um diferencial e, sempre, um bom relacionamento com o cliente (Atendimento). Mas, até onde vai este bom relacionamento?


Para tudo há limites, até mesmo nessa questão. Dar liberdade ao cliente não é sinônimo de boa relação. O cliente não pode decidir tudo sobre o seu projeto, mas ele precisa se sentir “parte” do projeto. Então, nem tanto ao céu, nem tanto à terra.


No Design, principalmente para quem atua como freelancer, a questão do relacionamento com o cliente será uma eterna novela, repleta de capítulos, às vezes inéditos, mas em sua maioria reprisados (sabe aquela velha história do “já vi esta cena antes”). E o principal motivo de cada capítulo é: o gosto do cliente nem sempre é o mesmo do seu público-alvo.


O designer quando projetar precisa usar sempre uma metodologia de projeto (em breve um texto só sobre Metodologia de Projeto), para que possa conseguir identificar quais são as necessidades do seu cliente, e além disso, deve saber usar todas as ciências envolvidas com o design.


Mas, ao apresentar a peça para o cliente, o mesmo simplesmente diz:


“Você pode trocar a cor laranja pela cor verde? Sabe, é que eu não gosto muito da cor laranja…”


Esse é o ponto crucial onde fica definido se você é ou não designer, pois se lembrará de todo o estudo de caso que fez para o projeto e caso você opte por ser mais que um sobrinho do cliente (famoso micreiro), irá tentar explicar para o seu cliente o porquê das suas escolhas e provar através dos seus estudos que não faz sentido usar a cor verde. Isso porque existem cores que quando utilizadas podem ser conflitantes (por exemplo, azul e verde) ou contrastantes (como azul e laranja), e que uma combinação feita de maneira adequada é muito importante para a composição da peça, sem falar da teoria da cor (neste momento, vamos ficar apenas na questão da combinação, depois farei outro artigo sobre teoria das cores).


Neste momento, ele precisa manter a calma e lembrar que o cliente não tem conhecimento sobre combinação de cores (a não ser que o seu cliente tenha uma empresa de tintas, ou algo do tipo), portanto, caso ainda não tenha feito uma apresentação, o que seria mais correto, uma breve explicação é bem-vinda.


Por outro lado, se o designer aceitar a sugestão pelo simples fato de não perder o cliente ou não contrariá-lo, ele acaba por se tornar um mero amador, ou “amigável”, pois o máximo que conseguirá conquistar desta forma é o cliente, e não o público-alvo dele (sendo assim, de nada adiantará todos os esforços do trabalho). Pode parecer em curto prazo que o melhor é fazer como o cliente pediu, mas se seu projeto não der resultados, pode ter certeza que ele não hesitará em chamar outra pessoa.


Round 2: Designer x Micreiro


“Mais do que a formação acadêmica, a diferença entre o designer e o micreiro está na atitude profissional.”
Lígia Fascioni – Livro: O Design do designer.


Desde que comecei na área de design (na época eu era micreiro) ouço as pessoas reclamarem que o micreiro é o pior terror para a profissão, que eles denigrem nossa classe entre outras coisas. Os designers reclamam que eles estudam, pesquisam, fazem tudo certinho, mas acabam perdendo a vez para aquele pessoal que faz qualquer coisa por um preço bem baratinho. O cliente, por desconhecer, ignora toda a competência do designer para contratar uma pessoa qualquer que apenas sabe operar a ferramenta Corel/Photoshop. Aí você me pergunta: E agora José?!


Existem vários pontos que posso falar sobre essa introdução, mas para ficar mais claro vou citar alguns exemplos: A Pentagran, Studio de Design da Paula Scher, nunca contratou um micreiro para fazer suas peças, a Designo, Studio de Design do Alexandre Wollner, nunca terceirizou uma identidade visual para um micreiro. Agora talvez uma farmácia pequena do seu bairro o tenha chamado para fazer um site para ela, e mais umas peças gráficas, e ele tenha feito tudo por R$ 500,00 – um valor que no seu mundo não existe porque só o site seria uns R$ 1.500, mas o dono da farmácia não terá esse valor para te pagar. Talvez o sobrinho do amigo do tio, que sabe operar Corel e PS, tenha cobrado R$ 5,00 para fazer um cartaz divulgando a mercearia da esquina.


Pense comigo, é com esses caras que você quer competir no mercado? É esse tipo de trabalho que você quer fazer? Além disso, o micreiro tem uma das grandes vantagens que já comentei acima: ele faz exatamente o que o cliente quer. Se o dono da padaria quiser uma marca gráfica toda cheia de degradês e efeitos especiais, ele capricha e coloca em prática tudo que sabe de Photoshop. Se o sócio do restaurante quer usar os desenhos da filha de cinco anos como marca d’água no folder do estabelecimento, não tem problema. Para o micreiro não tem crise, ele faz tudo na maior boa vontade (e por um preço bem baratinho, não se esqueça). O cara é tão boa gente, como competir com um tipo desses?


O cliente não estudou como você, aqui no Brasil as pessoas ainda são ignorantes com relação ao Design, digo isso porque lá fora a conscientização da importância do Design é bem difundida. Então o que você pode fazer para concorrer com nosso amigo boa gente?


Você deve sempre montar uma apresentação, mesmo que pequena e/ou simples, para defender seu projeto. Isso só você pode fazer, o micreiro não consegue fazer isso. O designer pode e deve explicar para o cliente, da maneira mais simples possível, porque não pode usar o verde no cartão de visita, porque não pode usar a Comic Sans como sua fonte tipográfica padrão… O designer deve explicar também a interpretação semiótica de todos os elementos que ele colocou no projeto gráfico, justificando o porquê de cada coisa estar ali. Devemos sempre considerar que o cliente tem um olhar diferente do seu, e às vezes é possível combinar esses olhares numa solução interessante sem ofender seu senso estético. É importante também saber defender bem o conceito de uma marca que criou sem se sentir pessoalmente ofendido com perguntas ou questionamentos. Se você sabe que o palpite do cliente não vai dar certo, explique para ele, sem esbravejar ou criar alarde, o impacto que aquilo terá sobre a percepção do consumidor e como pode prejudicar o seu negócio. Enfim, o designer, além de saber muito e se comunicar bem, deve ser um grande negociador.


Kevin Spacey é o cara no filme O Negociador, inspire-se

Kevin Spacey é o cara no filme O Negociador, inspire-se.


Ao documentar as reuniões, anotar todos os pontos que o cliente falar, escrever um briefing bem feito, fazer uma boa pesquisa, cumprir os prazos, primar pela pontualidade e pela qualidade nas apresentações, sempre entregar o que prometeu e explicar detalhadamente cada parte do seu trabalho. Fazendo tudo isso certamente o designer estará se diferenciando do micreiro. Qualquer um da torcida do Flamengo consegue ver a diferença. O designer cobra mais porque sabe o que está fazendo, seu trabalho vai fazer diferença no negócio. Ele faz por merecer cada centavo.


O mercado está cheio de “designer” com diploma que acerta tudo de boca, ou seja, não projeta, apenas faz. Não explica seu trabalho direito (as vezes não tem explicação), mal sabe contextualizar o que fez, não entende nada das ciências envolvidas no design, atrasa todas as entregas e senta com a perna aberta mascando chicletes e falando “tipo” a cada três palavras. Comporta-se como um artista temperamental, tudo o que faz é na base da intuição. Método projetual? O que é isso? Fiz assim porque achava que ficaria legal e ponto final. Esse sujeito fica ofendidíssimo ao ser tratado como um micreiro, pode ser que ele não saiba, mas ele realmente é um micreiro.


Em contra partida tem micreiro (são poucos, é verdade) que anota tudo direitinho, faz contrato, analisa as opções, é pontual, se dedica ao máximo para resolver as necessidades do cliente, lê vários livros sobre o assunto, sabe conceituar o que fez, cumpre sempre o que prometeu… Esse profissional acha que é um designer, e é mesmo.


“Mais do que a formação acadêmica, a diferença entre o designer e o micreiro está na atitude profissional.”


No mercado há espaço para micreiros e designers, a gama de clientes é muito grande, por isso existe lugar para todo mundo. Tem uma frase que diz assim: “Os competentes se reconhecem mutuamente”.


Manter o cliente envolvido no processo tem seus limites, conforme dito no início deste artigo. É necessário e fundamental, para ambas as partes, entender que cliente e designer têm papeis diferentes, e cada um assumirá o seu, mas um precisa do outro para expor as informações necessárias (cliente) e transformá-las em algo concreto (designer).


Agora quero saber de vocês, como é sua relação com o cliente?

Anderson Barboza
Anderson Barboza da Silva estuda Design Gráfico na Unicarioca, porém já atua na área de design há cinco anos. Adora filmes, séries, futebol americano, F1 e edição de vídeos. Também é um amante da música, toca percussão, bateria, um pouco de baixo e atualmente está aprendendo gaita.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Grande texto Anderson, esse questão do micreiro é comum também em outras áreas ligadas a internet. As vezes o cara faz um curso disso, outro daquilo, e já sai ao mercado ofertando seus serviços. Não está errado! Como você disse, tem mercado para todos, porém quando vemos nosso serviço – teoricamente mais qualificado – ser preterido por questões de valor, notamos que este não era um cliente para nós ou realmente é o cliente certo, mas com os conceitos errados.

    Gostei quando no final você nivelou todos pela qualidade, essa é a única pauta a ser seguida. Até porque estudo não garante nada, apesar de ajudar muito.