Deadpool – Crítica com spoilers e palavrões

Deadpool – Crítica com spoilers e palavrões

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A expectativa era grande por parte dos fãs (até porque o público comum nem conhecia o personagem). Por outro lado, ficava aquela desconfiança: é um filme da Fox… Havia um grande medo de que o estúdio cagasse no personagem novamente. Mas no fim, tudo deu certo: Deadpool é um ótimo filme e o personagem foi devidamente retratado.

 

Se você mostrasse uma imagem de Deadpool a um espectador comum há uns 10 anos atrás, ele provavelmente perguntaria “por que o Homem-Aranha tá usando essa roupa esquisita?”. Em 2009, no entanto, a Fox produziu o filme Wolverine: Origens, e introduziu o personagem que viria a ser o vilão final do filme. Só por aí já vimos que isso estava errado, pois Deadpool não é um vilão, tão pouco pro Wolvi. Não satisfeitos, ainda deram ao personagem poderes os quais ele não tinha, espadas acopladas aos braços e, o pior, COSTURARAM sua boca. Tiraram uma das principais características do personagem, que é ser tagarela (seu apelido em inglês é Merc With a Mouth, algo como Mercenário Tagarela). Em resumo, a Fox apresentou o personagem da pior forma possível o grande público.

 

BARAKA WINS!

 

É claro que os fãs odiaram a adaptação e aqueles que não o conheciam acharam um personagem ruim, fraco, sem carisma (alem de continuarem não o conhecendo). O próprio Ryan Reynolds, ator que interpretou o personagem e se declara fã do mesmo, parece constrangido quando questionado a respeito da adaptação. Pior ainda para sua reputação, pois em 2011 fez uma adaptação mais pífia ainda de Lanterna Verde. Sua imagem com os fãs de quadrinhos não poderia estar mais arranhada, pois ele ‘destruíra’, segundo estes fãs, dois personagens queridos tanto da Marvel quanto da DC.

 

Quando uma cena que, aparentemente, era um teste para um filme solo do Deadpool vazou na internet no final de Julho de 2014 e foi anunciado que quem estava por trás da máscara do mercenário era Reynolds, a confusão estava instaurada. “Como podem dar o personagem a esse cara que claramente não serve pra esse tipo de filme?!”, diziam uns. “Mas, veja: a atuação dele nessa cena ficou boa. A cena toda em si é digna do personagem… será que ele não merece mais uma chance?”, diziam outros. O fato é que Reynolds apostou alto. Era a oportunidade de uma carreira. Tudo ou nada. E ele estava mesmo dando a cara a tapa, entrando em território hostil. E as chances de fracassar eram grandes, afinal, a Fox acabara de fracassar bisonhamente mais uma vez, agora com o Quarteto Fantástico. Por isso a expectativa para o filme era grande. Por ser um filme tão aguardado de um personagem tão querido, mas de um público muito restrito. Além disso, a Fox fez um filme com classificação R, de restrito para maiores de 17 anos. Seria um verdadeiro tiro no escuro. Arriscar tanto (ator, restrição, histórico recente) num filme que não se sabia se daria o retorno esperado.

 

Valeu a pena! Pra caralho!

 

o resultado dificilmente seria melhor! Deadpool é um filme que não apenas é muito bom para os fãs, mas agrada a todos que curtem filmes de ação com boas pitadas de comédia. Imagine um Bad Boys com classificação 18 anos, talvez dirigido por um discípulo de Quentin Tarantino. É mais ou menos como o filme é. Pois além das piadas com masturbação, palavrões e dos miolos voando, você tem uma história concisa, momentos de drama e até mesmo de romance. Ah, sim. E alguns peitinhos (e a bunda de Reynolds).

 

A brasileira Morena Baccarin é Vanessa, uma stripper/prostituta pela qual Wade wilson se apaixona depois de ser cantado num buteco pé sujo e levá-la pra jogar sinuca. Vanessa é uma mocinha apenas por assim dizer, pois é praticamente o Wade de saia (bem curta e sem calcinha): fala palavrão, gosta muito de sexo, faz piadas e entra muito bem em açao quando precisa.

 

Quando Wade descobre que tem câncer terminal, ele procura um figurão que havia lhe prometido curar o câncer. Acontece que ele é submetido a uma tortura sádica no meio do caminho. Lhe é inserido um super soro que lhe daria habilidades especiais que só se manifestariam em condições extremamente adversas (a.k.a. tortura). Mesmo enquanto está sendo torturado, Wade mantem seu senso de humor absurdamente ácido. No fim, como uma tortura final, Wade acaba desfigurado e precisa explodir todo laboratório/oficina onde estava sendo mantido. Luta contra seu torturador e é dado por este como morto ao ter uma barra de ferro atravessando seu coração. Porém, é justamente nesse momento que sua super habilidade se manifesta como um super fator de cura.

 

Neste momento é que temos algumas diferenças de adaptação. O fator de cura de Wade Wilson nos quadrinhos é extraído de Wolverine. No filme não há qualquer citação sobre isso. Da mesma forma, quem faz a inserção deste em Wade é uma organização secreta do governo canadense que deseja (ainda) a criação de um super soldado. No filme… bem, no filme isso não fica muito claro. Só nos é dito que Ajax, o torturador sádico e sua ajudante Angel (que seria Angel Dust nos quadrinhos mas aqui não teve o ‘sobrenome’ mencionado) tentam criar supersoldados pra vendê-los a quem pagar mais. Além disso, nos quadrinhos Wade acaba desenvolvendo uma personalidade psicótica e esquizofrênica, especialmente devido a tortura a qual é submetido. Isso faz que não tenha senso em suas atitudes, especialmente ao matar a sangue frio e com crueldade, e também que tenha vozes em sua cabeça, com as quais discute em voz alta as vezes. No filme, Wade realmente não parece ter filtro em suas atitudes e por vezes conversa consigo mesmo, porém não há uma clareza quanto aos seus problemas psicológicos. Outro ponto solto no plot é sobre o passado de Wade como soldado. Não fica muito claro o que ele fazia, pra quem fazia e porque, exatamente, parou, além de como se tornou um mercenário. Mas isso talvez possa ser explorado mais a frente.

 

Meta piadas, idiotices e palavrões

 

O que mais me surpreendeu no filme foram as piadas. Sim, isso mesmo! Quem conhece o personagem dos quadrinhos, sabe que ele faz piada sobre absolutamente TUDO na cultura pop e cultura geral. E isso foi retratado fielmente no filme. Logo na sequencia inicial temos uns dois breves easter eggs: uma caneca com a inscrição Rob L. (Rob Liefeld) que é o nome do criador do personagem, porém essa é maior contribuição dele pros quadrinhos, afinal, sempre será lembrado por sua arte disforme e e falta de habilidade, fazendo desenhos com física e biologia impossíveis; os créditos inciais são todos pequenas piadinhas e não mostram o nome de ninguém de fato, apenas coisas do tipo ‘diretor: um cara que acha que vale muito mais do realmente vale’, ‘fotografia: um cara aí desconhecido’, ‘roteiro: estes sim, os verdadeiros heróis’; mas o mais interessante é um tipo de card com uma imagem do Lanterna Verde, onde você pode ver a auto piada, a capacidade de rir da própria desgraça.

 

Esse ritmo é mantido por todo filme. Vira e mexe eles citam algo da cultura pop fazendo piadas improváveis, como quando Wade fala pra Vanessa que ela poderia ser a Robin de seu Batman, e depois diz que isso não seria ok por ele ser apaixonado por ela, porém, ele acredita que o Robin é, sim, apaixonado pelo Batman. Ou quando ao dar início ao processo de inserção do fator de cura Wade não para de tagarelar e Ajax ameaça costurar sua boca. Ou mesmo quando Wade vai procurar Colossus e Míssil na mansão dos X-men e diz: ‘Por que, numa casa tão grande, só vocês dois aparecem? Parece até que o estúdio não tem dinheiro pra bancar a aparição de outros personagens…’. Há uma outra muito boa, quando Colossus diz que o levará para o Professor Xavier e este o convencerá a entrar pros X-men, daí Wade solta: ‘Qual dos dois? McCavoy ou Patrick Stewart? É que essas linhas temporais me deixam confuso…’. Wade ainda zoa algumas vezes seu ‘alter ego’ Ryan Reynolds, nos créditos inciais aparece uma revista com o ator na capa com os dizeres ‘o homem mais sexy do mundo’ e mais adiante na película ele diz: ‘Aparência é tudo sim, ou você acha que Ryan Reynolds consegue seus papéis pelo seu extremo talento de interpretação?!’

 

Outra característica marcante do personagem que foi fielmente respeitada graças a classificação R foi os palavrões a torto e a direito. Em quase todo diálogo há um fuck (em sua maioria traduzidos como porra ou caralho) ou fuckin’ (normalmente utilizado como intensificador, tipo ‘pra caralho’, ou ‘puta’, como em ‘esse foi um puta filme’) e em alguns momentos há até dificuldade de traduzir os palavrões de um jeito que fiquem naturais, como cocksucker que acaba sendo um ‘viadinho’. Mas não veja como apenas uma distribuição gratuita de termos desnecessários, apenas pra justificar a classificação. Na hora em que Ajax sequestra Vanessa, Wade desabafa com seu amigo Weasel/Fuinha soltando vários palavrões. Não haveria como descrever o que ele estava sentindo naquele momento usando ‘droga!’, ‘maldição!’, ‘aquele safado me paga!’. Acredito que todo palavrão utilizado no filme é justo, não gratuito. É assim que o personagem fala, assim como a maioria das pessoas não só lá fora, mas aqui no Brasil também. Da mesma forma, acho que a violência é justificável quando estamos falando de um personagem que é um mercenário perito não só em armas de fogo como com espadas. Além do mais, o sangue e os miolos voadores são apresentados de tal forma que fica quase impossível sentir alguma repulsa daquilo. É quase como um Kill Bill.

 

De boa aqui, lendo a crítica do meu filme

 

Todos os outros itens relevantes do filme se desenvolvem bem. Os personagens de suporte, Colossus e Negasonic Teenage Warhead (Míssil {?!}) são importantes na história na medida certa e tem também uma boa carga de humor. Pra mim só não fica muito clara a razão pela qual Colossus quer trazer Wade pros X-men e porque logo ele e a menina vão atrás do mercenário (óbvio que a piada de Wade citada mais acima explica isso, mas no filme, qual seria a explicação plausível?). Já a trilha sonora… essa, sim, não fica devendo em absolutamente nada! Foi muito bem escolhida desde as mais ‘românticas’ até os raps, incluindo um exclusivo que fala do próprio Deadpool. Se eu tivesse que escolher o melhor do filme, seria a trilha sonora.

 

Até na cena pós-créditos há piadas e surpresas. Primeiramente, o fato de ela fazer referência a Curtindo a vida adoidado, foi uma ótima sacada da produção, pois lá nos anos 80 Ferris Bueller já fez uma cena pós crédito antes disso ‘ser modinha’, além disso, ele quebrava a quarta barreira, falando diretamente com o público, assim como Deadpool faz. Segundamente, o que ele diz, além de deixar os fãs em êxtase a respeito da continuação, ele ainda faz piada com as cenas pós-créditos da Marvel, dizendo: ‘O que vocês esperavam? Sam Jackson? Com tapa olho e roupa de couro e tudo mais? Pela amor de Deus, não temos dinheiro pra isso…” Mais uma piada que eu não esperava.

 

Sobre a continuação, fica claro que a Fox está criando um Universo onde tudo que envole os X-men se conecta. Aparentemente eles farão um filme com uma equipe secundária de mutantes, tipo a X-force, onde Deadpool possa se encaixar. Faz sentido, considerando que o próximo filme é com o Apocalipse, maior vilão dessa equipe. Só nos resta torcer pra que a Fox consiga manter essa onda de acertos, pelo menos após o novo filme dos X-men, que sinceramente não boto a menor fé, mas que pode servir como uma espécie de reboot da série.

 

Considerações finais

 

Deadpool foi surpreendente. Um bom filme de ação, um filme pra se divertir. E pra quem é fã do personagem, o filme é, no mínimo, digno. E foi bom de uma forma que nos fez voltar a acreditar na Fox, e quase perdoar por todas as cagadas que eles fizeram em outras ocasiões. Valeu a espera de anos pela redenção, não só do estúdio, como do personagem e até mesmo do ator Ryan Reynolds. Pra mim, foi o primeiro nerdgasm do ano. Abriu a temporada dos filmes nerds do ano de forma sensacional. Me deu um super fôlego pra aguardar os próximos capítulos desse 2016 de redenção dos nerds. Agora, nos resta aguardar a mais uma redenção dupla: de Batman e Ben Affleck (e quem sabe mais uma grata surpresa com Gal Gadot no papel de Mulher Maravilha)

Thiago Amaral
Nerd inveterado. Entretanto, apaixonado por esportes, especialmente futebol. Professor de inglês e jornalista wannabe. Consumidor voraz de cultura pop. Conhecido no underground como pai da Alice.

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