De quando o “motor imóvel” moveu alguém

De quando o “motor imóvel” moveu alguém

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É impressionante, realmente impressionante como o conhecimento pode libertar. Hoje retirei um ateísta com quem converso/debato há dois anos de sua zona de conforto, o levando a reconhecer que, na verdade, não é um ateísta no sentido literal do termo. Apenas não crê no Deus judaico-cristão. E fiz isso com pouquíssimas palavras.

 

Explanei brevemente sobre o conceito de “motor imóvel”, de Aristóteles, que postula a existência de um deus criador, ou, de um ser inteligente que deu o primeiro passo, que iniciou o movimento que deu sequência aos demais movimentos. Já que tudo na natureza se move (nasce, cresce e perece), conforme o filósofo, primeiro biólogo conhecido, atestou. Adicionei ao conceito também, durante a explanação, o Argumento Cosmológico de Kalam, “ressuscitado” por William Lane Craig, que diz que “tudo que começa a existir tem uma causa”.

 

Assim, afirmei que na natureza nada ocorre por acaso, que nada surge do nada. Uma planta não brota no cimento, ou mesmo da terra sem ser semeada. Ou seja, tudo que se move, precisou de alguém para iniciar aquele movimento. Ele concordou comigo a esse respeito.

 

Depois entrei propriamente na possibilidade de existência de um “motor imóvel”, a quem Aristóteles tinha como Deus (não este Deus, nosso, com d maiúsculo, mas Deus, o Motor, que não é sujeito às leis do movimento). O Ser que iniciou os movimentos e não foi movido por ninguém.

 

Meu amigo ateu concordou com meus postulados, escorados em Aristóteles, e apontou com firmeza: “Isso é ciência!” Para ele, minha argumentação foi científica, o que facilitou a abertura a este pensamento. Como todo jovem moderno, cidadão ativo da Pós-Modernidade, não criado em igreja alguma, este amigo nutre asco natural por qualquer coisa próxima da religião, mas um papo com ares científicos o atrai. Ainda que, na verdade, fosse um papo, modéstia a parte, filosófico. Tanto que quem nos ouvia, de início, brincou que tínhamos “fumado erva”.

 

Este comportamento, mais comum do que imaginamos, do altercante ateu, detona um preconceito religioso – não nos termos que a esquerda gosta, carente de criminalização; um normal – criado sob a batuta do Cientificismo. A ciência rivaliza com a religião inadequadamente – não o contrário, é bom clarear, visto que se vende que a Igreja Católica e protestantes em geral temem a Ciência, quando me parece o contrário. A academia de ciência do Vaticano (Academia Pontifícia das Ciências), da qual fazem parte diversos “nobels”, é a prova.

 

Fosse um pastor ou padre a lhe dizer o que eu disse, em outras palavras, sem evocar Aristóteles ou linguagem filosófica, passaria desacreditado. Um cenário seria bem possível, visto que a Igreja Católica bebeu nas fontes da filosofia grega abundantemente, o que foi ótimo para civilização que se sucedeu.

 

Por fim, clamei por coerência da parte dele. Já que, diante do argumento de Aristóteles, exposto em minhas humildes palavras, havia concordado com a possibilidade de existência de um Ser Supremo, criador, que deu um boot em todo que vemos hoje, ele deveria não mais declarar-se um ateu, mas um agnóstico. Um ateu tem a certeza que viemos do acaso, de que não existe nada fora do plano terreno, de que não existem divindades ou seres supremos; não reconhece a possibilidade, por ter certeza dessa ausência, de que uma inteligência superior nos criou. E como ele acabara de abraçar o benefício da dúvida, diante de um argumento “científico”, o termo agnóstico lhe era mais coerente.

 

À saber, agnóstico é aquele sujeito partidário do agnosticismo, doutrina que declara tais questões (metafísicas) inacessíveis ao conhecimento humano, pela impossibilidade de serem analisadas pela razão. Mas não as descarta rigorosamente, exatamente pela impossibilidade de análise pelo que entendem por razão.

 

Ele, claro, não embarcou. Jamais vi alguém ceder uma posição em debate, mas sabemos quando o alvo foi acertado. O tempo se encarrega do resto, ou não (Caetanei).

 

Agora, o mais impressionante, acabara de conhecer o argumento de Aristóteles, no dia anterior, através de uma leitura rápida de “História da Filosofia Ocidental”, do esquerdista Bertrand Russel.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Saulo Reis

    esse cara se tornou um deísta depois desse papo contigo?

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Não exatamente, seria o processo mais veloz da história. O fato é que passou a considerar a hipótese de existência de uma deidade, antes descartada sumariamente. Como disse, saiu, imagino, da certeza da inexistência para o benefício da dúvida.