Crítica: The Witch (2015)

Crítica: The Witch (2015)

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Pouco tempo depois de estrear nos cinemas, The Witch (A Bruxa), do diretor iniciante Robert Eggers, já havia atraído milhares de olhares para si. Stephen King, um dos mais prolixos escritores do nosso tempo, considerado um mestre do terror contemporâneo, chegou a fazer uma declaração dizendo que o filme tinha assustado ele “pra caralho” (sic).

 

Todo esse buzz em cima do filme me deixou receoso; não era a primeira vez que eu via isso acontecer. The Blair Witch Project (A Bruxa de Blair) fez algo semelhante na virada de 1998 para 1999. Não que o filme seja ruim, pelo contrário. Mas o que marcou mesmo foi o marketing, a maneira como o filme se vendeu – talvez a jogada publicitária mais genial dos últimos anos no cinema. Eu temia que The Witch fosse mais do mesmo e, no entanto, me surpreendi. O filme fez para o cinema de terror atual o que Mad Max: Fury Road fez para cinema de ação: negou ser “formulático” e soterrado nos clichês e nas convenções atuais do gênero. Chega de found footages preguiçosos baseados muito mais em jump scares (sustos) do que em medo e atmosfera.

 

A História

 

Link Youtube | The Witch

 

O subtitulo do filme é “A New-England Folktale”. Se passa por volta de 1630 e conta a história de uma família que é expulsa de uma comunidade no norte da Inglaterra e vai parar na Nova Inglaterra, Estados Unidos. A família é composta por William (Ralph Ineson), um chefe de família religioso de voz grossa e empostada, sua dedicada esposa Katherine (Kate Dickie), um garoto chamado Caleb (Harvey Scrimshaw), uma pré-adolescente radiante chamada Thomasin (Anya Taylor-Joy), dois gêmeos, Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) e um bebê chamado Samuel.

 

É uma família muito puritana e exageradamente devota no evangelho, o que acaba sendo o motivo da sua expulsão da sua antiga comunidade. O filme não se estende muito na explicação disso.

 

Ao chegarem na Nova Inglaterra, eles se veem completamente isolados do mundo, cercados por uma tenebrosa floresta e tendo consigo apenas a fé, alguns animais e o suficiente para desenvolver uma agricultura familiar de subsistência. Dentro de poucos dias coisas estranhas começam a acontecer, a começar pelo misterioso desaparecimento de Samuel.

 

Sugestão é tudo

 

Depois do desaparecimento de Samuel há uma cena escura, iluminada pelo fogo, onde vemos o que parece ser um ritual e… a sugestão de um sacrifício. É uma das cenas mais impressionantes e instigantes que já vi nos últimos anos em um filme de terror. O poder da sugestão e o dualismo interpretativo é algo trabalhado com maestria aqui. Todo o filme sugere uma dimensão dupla de terror psicológico com terror sobrenatural e as cenas mais insinuam do que revelam. Ele trabalha com competência o mistério e sabe muito bem deixar a dúvida perturbadora corroendo a mente do espectador.

 

Por muitos momentos eu me peguei perguntando se o que eu vi era realmente o que vi.

 

E ISSO É FODA.

 

Imersão

 

Além de nos colocar no universo das incertezas (que é o mesmo daquela família), as imagens do filme nos envolve pelo realismo.

 

A começar pelo cenário, filmado com luz natural.

 

As noites são preenchidas pelas luzes bruxuleantes e fantasmagóricas das velas ou decaem no breu total, apenas gentilmente iluminados pela lua de vez em quando.

 

Os dias não são menos assustadores. A floresta ininterrupta e claustrofóbica que cerca a família família é abundante de mistérios, barulhos e vida selvagem, potencializando o clima de terror por via do isolamento total, onde os gritos não são ouvidos e a própria existência parece ser ignorada – até mesmo por Deus.

 

A floresta, elemento constante no filme

A floresta, elemento constante no filme


 

Black Phillip

 

Só quero dizer que Black Phillip é foda. Deem um Oscar para esse bode.

 

Trilha Sonora

 

A trilha sonora composta por Mark Koven é um elemento crucial na construção da tensão e do horror durante todo filme. É magistral. Ela é totalmente criada com instrumentos disponíveis em 1630, como violas de gamba e cordofone de teclas (nyckelharpa). A isso se soma ao som de tambores e corais de vozes femininas que ora parecem cantar, ora parecem gritar freneticamente, criando um ambiente de estranheza etérea.

 

Coelho

 

Esse é o coelho mais assustador do cinema desde Monty Python and the Holy Grail.

 

O Comentário Histórico e Religioso

 

Muitos se perguntaram por que na história do filme uma família cristã e devota é expulsa de uma comunidade igualmente cristã e devota. O fervor religioso deles era motivo para estremecer o statu quo?
 

A resposta é: sim.
 

Desde a reforma protestante de Lutero, algo muito valorizado são as interpretações bíblicas pessoais, desgarradas de qualquer elemento de tradição ou comunidade (diferente do que acontece com católicos e judeus). Desde a ascensão do protestantismo, cada grupo cristão cria para si uma área de “soberania” interpretativa das escrituras. Não há um concílio protestante geral para decidir qual é a interpretação certa e qual é a errada, o que causa divisões em cima de divisões.
 

Os únicos concílios possíveis são de comunidades fragmentadas aqui e ali. Se uma comunidade decidir que você está errado em suas interpretações bíblicas você é expulso dela ou terá que se adequar.

 

Uma vida nova e feliz?

Uma vida nova e feliz?

 

Historicamente, a perseguição dos puritanos na Inglaterra é o que levou à colonização da Nova Inglaterra. Depois que estes se estabeleceram no poder, foi a vez dos episcopalianos serem perseguidos e, então, formar comunidades no sul. Depois vieram os quakers e sua perseguição, que os empurraram para a Pensilvânia e entornos.

 

A família de William se julgava a detentora da verdade bíblica e eles foram expulsos por isso. Sua narrativa é a mesma de muitos dos colonos que pisaram nos Estados Unidos da América.

 

Em meio dessa mútua perseguição entre os cristãos protestantes, havia a perseguição as bruxas. Uma comunidade isolada que dependia de boas colheitas para sobreviver atribuía qualquer desgraça natural a uma punição divina. Bodes expiatórios eram eleitos o tempo todo. Alguma coisa na comunidade sempre estava espiritualmente perturbada. Não é incomum ouvir histórias de mulheres sendo amaldiçoadas e expulsas de suas comunidades. Histórias horrendas de perseguição e morte.

 

A mitologia do filme explora, em parte, essa paranoia. Ela é baseada em alguns relatos de moradores que viveram na região da Nova Inglaterra no período de 1600.

 

Willian e Jó

 

William é como uma releitura de Jó, só que sem redenção.

 

Na Bíblia, Jó é um servo de Deus que é desafiado em sua integridade por Satanás. O diabo questiona a sinceridade da sua fidelidade diante de Deus dizendo que ela só existe porque Deus o abençoa. Se ele ficasse na miséria, logo se voltaria contra Deus e iria blasfemar contra Seu nome. Deus então permite que Satanás interfira na vida de Jó, resultando na sua tragédia.

 

Deus permitiu que Satanás ferisse Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até o alto da cabeça.

 

A figura de William é muito próxima disso. Seu dilema de fé é desafiado. A narrativa do abandono de Deus é algo que permeia suas crises. Ele está o tempo todo tentando se convencer (e convencer sua família) que todo o mal que eles estavam passando era uma provação divina.

 

Ele ora e nada acontece. As tragédias pioram dia após dia e seu desespero também.

 

No entanto, na Bíblia, Deus acaba se compadecendo do sofrimento de Jó em vida. Reconhecendo sua fidelidade, lhe dá em dobro tudo aquilo que possuía antes das tormentas.

 

No caso de William, sua loucura, sua depressão e sua fé estão em simbiose perfeita. E ele é jogado numa espiral crescente de desespero e angústia. Se houve redenção e misericórdia da parte de Deus, foi a morte. Nada além disso.

 

O Final (SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU O FILME, NÃO LEIA ESSA PARTE)

 

Black Phillip

Black Phillip

 

O final é a parte mais fraca do filme — mas não é de todo ruim. O grande trunfo de Eggers foi trabalhar a dualidade entre o terror psicológico e o sobrenatural. No entanto, no final, ele se assume como sobrenatural de forma explícita. O que é válido, mas um pouquinho decepcionante.

 

A cena da levitação é aterrorizante e, ao mesmo tempo, bonita. Há referências simbólicas e metafóricas interessantes nela.

 

Enquanto Thomasin vai levitando, ela vai se misturando aos galhos das árvores como se tivesse se misturando à natureza. Sua decisão final de virar bruxa e seguir o covil é demonstrada de maneira orgiástica. Ela sorri, concluindo o filme de uma maneira sombria e, ao mesmo tempo, sensual.

 

Em suma, The Witch é uma aula de cinema de horror