Crítica – Capitão América: Guerra Civil

Crítica – Capitão América: Guerra Civil

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Em 2016, pela primeira vez desde que deu início ao seu Universo Cinematográfico, a Marvel teve concorrência séria: a DC deu início ao seu próprio Universo e a Fox fez uma aposta arriscada que deu muito certo com Deadpool. Mas a Casa das Idéias conseguiu, mais uma vez, se superar. Guerra Civil é o melhor filme do estúdio.

 

Capitão América: Guerra Civil é uma sequência direta ao predecessor solo do Bandeiroso, Capitão América: Soldado Invernal, e também ao último filme do time de heróis do qual este é o líder, Vingadores: A Era de Ultron. E nisso, como sequência, todos hão de concordar que o filme acerta e muito, pois tudo está muito bem encaixado. Não há nenhuma peça solta ou incoerência com seus antecessores. Chega até ser necessário assistir aos dois filmes citados como predecessores pra que se haja uma melhor compreensão e consiga pegar todas as referências (como essa, por exemplo).

 

Pra quem leu a crítica aqui publicada do segundo filme do Capitão, se lembrará dessas palavras:

 

(…) um nível de maturidade surpreendente, sem perder o equilíbrio entre o “realismo” e a fantasia necessária para seu universo funcionar. “Capitão América 2″ é tão bom que pode até trazer simpatia para os que torcem o nariz para os filmes da Marvel ou ao próprio personagem, que quem não acompanha nos quadrinhos, não desconfia que ele tem sido muito mais complexo do que apenas uma “propaganda ufanista”

 

As mesmas palavras podem descrever o terceiro filme. É impressionante a capacidade dos irmãos Joe e Anthony Russo têm de conseguir conciliar não apenas esse universo fantasioso de super-heróis com o qual estamos acostumados com uma realidade minimamente plausível (comparável a filmes de espionagem como os de James Bond ou Missão: Impossível), mas também de aproveitar bem tantos personagens ao mesmo tempo, com tanto a mostrar e/ou, até mesmo, apresentar ainda. Que esses grandes profissionais possam ser reconhecidos pelo excelente trabalho que vêm fazendo e, claro, possam continuar nos presenteando com grandes obras.

 

Os irmãos Russo mais uma vez nos entregaram um excelente filme

 

Adaptação de HQs

 

Conforme dito, esse é um excelente filme de ação e espionagem antes de ser um filme de super-heróis. É preciso entendê-lo dessa forma. Não há espaço (nem razão) pra ficar se prendendo a ideia de que é baseado numa história em quadrinhos. Sim, é um filme com personagens já conhecidos de grande parte do público de outras mídias. Mas entendam uma coisa: NUNCA um filme de adaptação de livros/quadrinhos/games/whatever será totalmente fiel ao original, pois simplesmente não há porquê fazer isso. São duas obras distintas. Todos nós, fãs de quadrinhos, já sabíamos disso há muito tempo. Eu mesmo alertei sobre essa diferenciação desde o lançamento do primeiro teaser trailer, mas, mesmo assim, vou quotar novamente uma parte muito importante:

 

(…) Outra coisa que vale pontuar antes de irmos ao trailer em si, é o fato de haverem poucos personagens possíveis de serem utilizados no filme, especialmente depois do anúncio oficial daqueles que estariam envolvidos na produção e das imagens de set vazadas na internet. Afinal, o evento dos quadrinhos envolve praticamente todos os personagens da editora, com exceção à maioria dos X-men (que preferem se abster da treta, negando o pedido de ajuda de Stark quando esse os procura, pois quando precisaram da ajuda dos Vingadores numa outra questão, estes também não quiseram os ajudar como poderiam), exceto por Wolverine, que tem uma pequena participação na história; Hulk que está exilado em outro planeta e Thor que está dado como morto. Assim, os fãs mais exigentes e os reclamadores profissionais da internet já estavam criticando tudo envolvendo o filme desde seu anúncio oficial passando por cada nova informação. (…)

 

Pelas barbas de Odin! Não me venha com mimimi de que o filme fugiu muito da HQ… ISSO SEMPRE ESTEVE MUITO CLARO! Nem vou me alongar nisso, de tão infundado…

 

Comparação com o Batman vs Superman

 

É inevitável a comparação com o filme do ano da Distinta Concorrência. Aliás, essa adaptação só foi levada adiante devido ao anúncio de que O Morcego de Gotham enfrentaria O Filho de Krypton na primeira adaptação cinematográfica do universo DELES. Dessa forma, o terceiro filme do Capitão deve muito ao de sua contraparte. E sabe como ele paga essa dívida? Dando uma banda, três bicudas na cara e xingando as duas Marthas ao mesmo tempo! Sério, Guerra Civil é muito superior a BvS em diversos aspectos.

 

Se o filme da Warner Studios foi feito para agradar aos fãs e tentou mostrar dezenas de referências aos quadrinhos para atingir tal objetivo, mesmo que isso não agradasse tanto àqueles que não acompanham tanto essa mídia, o da Marvel foi exatamente o contrário. O filme é feito, sim, para que os fãs curtam muito. Tem alguns bons easter eggs espalhados pelo longa. Porém, tenho a nítida impressão, de que os irmãos Russo quiserem repetir a fórmula de sucesso de Soldado Invernal e fizeram um filme que qualquer pessoa, o público comum pudesse entender e curtir. E o fizeram brilhantemente.

 

ESSE MOMENTO!

 

[POSSÍVEIS SPOILERS A SEGUIR]

 

Estão prontos?

  
  
  

A já icônica e instantaneamente clássica cena do aeroporto onde os dois times se enfrentam é um momento indescritível. São 15 minutos de pura ação muito bem coreografada, repleta de efeitos especiais bem produzidos e críveis. E por mais que doa na galera que quer(ia) uma ~adaptação fiel~ e reclama que na HQ o momento ‘equivalente’ a essa cena tenha umas duas dúzias de personagens a mais que no filme, o número de personagens envolvidos foi o ideal pra história contada. Ficou coerente. Em comparação com BvS onde haviam ‘apenas’ 3 contra 1, nessa cena haviam 6 contra 6. E eles agiam como grupos de verdade, todo mundo enfrentando todo mundo. E que fique registrado: Pantera Negra e Homem-Aranha estão incríveis, especialmente o PIRRALHO (e isso merece até um texto a parte). Nessa sequência o Spider é essencial, tanto que ele e o Homem-Formiga (outro que tem participação fundamental e cresceu muito nesse filme comparado com o filme solo) só participam do filme nesse trecho.

  
  
  

[FIM DOS POSSÍVEIS SPOILERS]

 

Só pra finalizar essa parte, as sequências de ação, no geral, ficam pau a pau com as de BvS, porém, essa cena em específico, que já ficou famosa desde os trailers, na minha opinião ficou bem melhor que a batalha final do filme do Morcegão e do Escoteiro.

 

Piadinhas

 

Mesmo se assumindo como um filme sério que por acaso tem alguns personagens considerados fantasiosos, a principal característica dos filmes da Marvel está presente aqui também. Sam Wilson (a.k.a. Falcão) não só mostra a que veio numa excelente participação nas sequências de ação com altas parafernálias tecnológicas, como também manda muito bem no humor sarcástico. Suas cenas com Bucky Barnes são muito boas e já dão uma dica de como será essa relação dos dois com o Capitão no futuro. Uma coisa meio ‘Eu sou o melhor amigo dele! Não, eu cheguei primeiro!’.
Um fato curioso a respeito das piadas no filme ficou por conta das legendas (e provavelmente deve estar presente na versão dublada também). Alguns itens da cultura pop brasileira e mundial da atualidade estavam lá presentes. Confesso que não ouvi o que foi dito exatamente em Inglês, mas houve um momento em que Rhodes solta um “Tá tranquilo, tá favorável!”. E há outros momentos nesse mesmo nível.

 

A participação de Scott Lang na história (Homem-Formiga), apesar de curta, também é muito marcante nesse ponto. Quem viu o filme solo do personagem sabe de como ele é naturalmente engraçado. Clint Barton (Gavião Arqueiro), que também já mostrou sua veia cômica antes, também tem seus momentos. Claro que Tony Stark (Homem de Ferro) solta suas famosas respostinhas mal-criadas o tempo todo, especialmente quando não deve. Mas nada disso chega sequer perto do que o Homem-Aranha causa no público. A sala é tomada por gargalhadas a cada fala do Cabeça de Teia, que aliás, FALA MUITO. Me fez desejar muito que Fox, Sony e Marvel fechem logo um acordo desses de sonho e permitam que Peter Parker e Wade Wilson se encontrem, nem que seja um fazendo um cameo num filme do outro. Seria tanta piada e tanta referência que o universo explodiria.

 

O Peter Parker de Guerra Civil e o Deadpool ao qual a Fox deu um voto de confiança nesse ano, nos fazem sonhar com um épico crossover dos dois nas telonas.

 

Steve Rogers vs Tony Stark

 

A principal treta do filme ficou, no mínimo, boa. É claro que sempre fica uma sensação de ‘quero mais’. Talvez praqueles que estavam com uma expectativa muito alta. Não pra mim. Eu sabia que não poderia ficar tão polarizado quanto nas HQs. Mesmo assim, no filme ficou melhor do que eu esperava.
Por que não poderia ficar tão polarizado? Pelo mesmo motivo que muitos acharam desde o trailer de que o Tony estava sendo pintando como bonzinho. Uma razão muito simples: Robert Downey Jr. Ou se você preferir, pode chamar de ‘Galinha dos Ovos de Ouro’ da Marvel. O cara é simplesmente o responsável (pelo menos em cena) por todo esse Universo Cinematográfico. Se não fosse a aposta no primeiro filme do Homem de Ferro, que superou todas as expectativas, não teríamos o primeiro filme dos Vingadores (pelo menos não do jeito que foi) e toda essa conexão entre personagens de filmes e séries. O cara fez um personagem que pro grande público era no máximo secundário (ok, nem tanto nos quadrinhos, mas no geral sim) se tornar o principal. Mais até que o Capitão (sim, aceitemos). Como fazer pra não ‘dar uma moral’ ao cara a quem você deve tudo? E muito mais que isso: um cara amado pelo público! Era preciso fazer de Stark um vilão, sim, mas não em sua totalidade. Ele é muito mais humano do que sua contraparte nos quadrinhos. Ele aceita o Tratado de Sokovia, por razões nobres, e não tanto egoístas como se supunha. Há, sim, bastante de sua personalidade de menino mimado, mas não é o predominante. Sobre isso, torno a dizer: é uma grande bobagem reclamar disso. Esqueça o Tony Stark das HQs, foque apenas no do cinema. Se você conseguir fazer esse simples exercícios, você irá aceitar suas razões.

 

Da mesma forma, esqueça o Capitão América da Guerra Civil dos quadrinhos. Pense no Capitão América que vem se construindo, especialmente nos outros dois filmes solos, muito mais do que no dos dois filmes da equipe. Sua relação com Bucky é de irmão. Bucky é o mais próximo do que ele tem de família. E pra ele, diferente do Stark, não há uma Pepper Potts, um Happy Hogan (um dos seus maiores amigos há anos) e nem mesmo um James Rhodes (Máquina de Combate), pois apesar da equivalência que o filme acaba fazendo entre Bucky e Rhodes, o Capitão achou que havia perdido seu grande amigo por anos e se sentia culpado por sua aparente morte. E pra piorar, quando ele volta, está agindo pras forças inimigas contra sua vontade. Assim, faz todo sentido o Capitão sair cegamente em sua defesa mesmo que tudo leve a crer que ele seja culpado. Por isso, não cabe ficar repetindo que a Guerra Civil do cinema é apenas uma história de amor entre STeve & Bucky com Tony se sentindo traído. Pela mor de Odin!

 

Tony e Steve: polarização na medida certa

 

Os outros personagens

 

Ao longo do texto defendi e elogiei os diretores Anthony e Joe Russo por diversos motivos. Um dos maiores méritos dos dois nesse filme é a conciliação de tantos personagens no mesmo filme. E dá pra dizer que todos são bem utilizados. Claro que alguns acabam aparecendo mais do que outros, é inevitável. Mas esses que aparecem pouco, tem participação fundamental. A própria participação do Homem-Aranha foi muito maior e mais importante do que eu pensava. Mesmo tendo que ser introduzido na história de forma um tanto improvisada, foi muito coerente. O mesmo pode-se dizer sobre T’Challa (Pantera Negra). Ele teve uma rápida introdução, sem muitas delongas e até sem profundidade, mas o essencial pra fazer com que sua presença ali se justificasse. E só pra constar, [POSSÍVEIS SPOILERS] sua motivação, pra mim, foi a mais destoante de todos. Ele estava cagando pro Tratado e só estava agindo em benefício próprio. Entretanto, conhecendo um pouco o personagem, até dá pra aceitar. Ele é tão ou mais egoísta que Tony Stark. Sua adaptação portanto, ficou bem próxima da versão HQ. [FIM DOS POSSÍVEIS SPOILERS].

 

Visão e Feiticeira Escarlate também são muito bem aproveitados, e suas capacidades overpower que poderiam destoar do restante dos personagens, são utilizadas de forma muito coerente e sem deixar a sensação nos fãs (pelo menos os menos chatos) de que ‘poderiam ter sido melhor utilizados’. Ora, a Feiticeira é apenas uma jovem ainda descobrindo e aprendendo a utilizar seus poderes e o Visão… bem… ele nasceu ontem, né? Por mais que seja um tanto onisciente, ele também está num processo de descobrimento.

 

[SPOILERS ALERT]

 
 
 
Há claras evidências de que o envolvimento que os dois tem nos quadrinhos também acontecerá nos filmes a se seguir. Assim como também fica claro sobre o Capitão com Sharon Carter

 
 
 

[SPOILERS END]

 

A Agente 13 também fica tempo o suficiente em cena pra ser importante na história. O mesmo pode-se dizer sobre sobre o General Ross e Everett Ross (ainda que esse segundo precise ser muito mais explorado). Até mesmo Thor, Hulk e Pepper, que não participam do filme são citados (pra que tenham suas ausências explicadas) de forma coerente.

 

Nessa imagem temos a maioria dos personagens que participam do filme, e todos eles são muito bem aproveitados. Uns com menos tempo em cena, mas sempre de forma adequada

 

Como pontos ruins do filme, eu citaria uns três possíveis erros de coerência/continuidade no roteiro, mas ainda creio que esses possam ser resolvidos com uma boa Versão Estendida. Mas não acredito que isso possa ajudar no caso dos personagens não tão bem explorados: Brock Rumlow (o qual sequer lembro de ter visto ser citado por seu codinome Ossos Cruzados), e Zemo (outro que também não foi citado como Barão). Esse segundo sequer lembra em alguma coisa sua versão HQ. É a pior adaptação da Marvel até agora. Porém, não o consideraria um problema no filme caso houvesse só isso de errado com ele, afinal, repeti 687 vezes que não se deve esperar ‘adaptações fieis’ nunca, especialmente nesse Universo Cinematográfico Marvel. O problema, é que sua motivação é muito fraca e sua participação muito menor do que poderia ser. Ele tinha potencial pra causar muito mais estrago. Mas, assim, de repente, parece desistir. Ou sentir que cumpriu sua parte. No entanto, há uma brecha que pode corrigir isso: os filmes futuros. Eles podem ainda ser reutilizados, ou como a equipe Thunderbolts (o Esquadrão Suicida da Marvel) ou como vilões solos mesmo, agora repaginados, mais forte ou com melhores motivações. Enfim, acho que esse foi o único ponto fraco relevante do filme.

 

Por fim, acredito que a Marvel nos entregou o melhor que poderia fazer com as peças que tinha em mãos. E na minha opinião, foi até melhor do que o esperado, se você cismar em comparar com Batman vs Superman. E por essa razão, começo a criar grandes expectativas em relação aos próximos filmes do estúdio, especialmente Guerra Infinita, que será dividido em duas partes. Pois este será dirigido por esses caras que nos presentearam com os dois últimos filmes do Capitão, levando os filmes de herói a um novo patamar, como sérios filmes de ação e espionagem, mas sem perder em diversão e sem acabar com a fantasia.

 

O problema é que, parafraseando o pirralho tagarela: “Com grandes expectativas vêm grandes responsabilidades”.

Thiago Amaral
Nerd inveterado. Entretanto, apaixonado por esportes, especialmente futebol. Professor de inglês e jornalista wannabe. Consumidor voraz de cultura pop. Conhecido no underground como pai da Alice.

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  • http://www.newfrontiersnerd.com.br Vicente [NFN]

    Boa resenha.

    Eu, particularmente, não gostei tanto do filme: o final é meio que uma saída fácil. O conflito registrar x não registrar, no fim, é um MacGuffin [e não um tema, digamos assim]: tá ali para fazer eles brigarem e azar.

    Isso [e algumas outras coisas, como os acessórios dos personagens] fazem com que o filme parece um comercial de bonequinhos [talvez o melhor comercial de bonequinhos de todos os tempos].

    Se você me pertmite o jabá incidental, vou dizer que a melhor coisa que o filme fez foi fugir da hq — que é uma bomba: http://www.newfrontiersnerd.com.br/2015/02/guerra-civil-de-mark-millar-steve.html

    • Thiago Amaral

      Comentarei apenas a respeito do último comentário: não acho a HQ uma bomba. Acho que poderia, sim, ser melhor. Mas não chega a ser ruim.
      E agora que você comentou sobre os acessórios, percebi que realmente pode parecer um pouco forçado, tipo os do Falcão e da Viúva Negra. Já do Tony, War Machine e Gavião acho normal, faz parte do personagem.

      • http://www.newfrontiersnerd.com.br Vicente [NFN]

        Tem o Ossos Cruzados também [aquelas manoplas cheias de extras]. Tem uma hora que ele [ou um capanga genérico, não lembro direito] cai dentro de um jipe e em seguida sai de lá em uma torrezinha que eu até achei engraçada — parece um veículo dos Comandos em Ação.