Cotas para negros, índios… e brancos!

Cotas para negros, índios… e brancos!

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Conforme a Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988, aqui não temos cor nem credo. Todos somos iguais perante a lei. E para que isso seja respeitado é importante ficar claro que a CF/88 tem que ser obedecida. Ela existe para colocar ordem no país, independe de interpretações.


Digo isso porque o recente julgamento sobre cotas para índios e negros nas universidades, ocorrido no Supremo Tribunal Federal – STF, considerou as vagas constitucional. Ou seja, se contradiz numa demonstração de poder absoluto deste órgão que deveria zelar pela Constituição Federal. Se somos iguais perante a lei, que esta seja recíproca considerando que a lei é igual para todos. Estipular cotas para negros e índios não só discrimina como inibe, causa revolta e contraria a Carta Maior. Índios e negros tem os mesmos direitos que brancos. Somos todos brasileiros, sem cor, sem raça, sem credo, como já foi escrito.


Pessoas se reuniram em frente ao Supremo pedindo a continuidade das cotas. | Créditos: Globo.com

Pessoas se reuniram em frente ao Supremo pedindo a continuidade das cotas. | Créditos: Globo.com


O problema se encontra na base da educação brasileira. É lá nas séries iniciais, no ensino fundamental e médio, que está o problema. Deficiência nítida e revoltante voltada para a má qualidade de ensino, e por consequencia má aprendizagem. A nossa educação está entre as mais baixas do mundo em termos de qualidade dos programas educacionais. Ocupa hoje a 85ª posição, conforme dados da UNESCO. Com este índice fica muito difícil que a grande maioria do povo brasileiro tenha alguma oportunidade de ingressar na universidade através de méritos próprios, ou seja, através de uma sólida base educacional. E como a educação virou um negócio que deve dar lucro, as entidades particulares deitam e rolam oferecendo vagas aos candidatos que não conseguem entrar na universidade pública. O vestibular é pesado, exigente, infame até, pois está em nível mais elevado que a maioria dos candidatos.


O que acontece neste caso é que para poder ter acesso a uma vaga na universidade pública, o candidato se dedica durante um considerável tempo, e se prepara com auxílio de cursos preparatórios caríssimos e de grande qualidade (um apredizado que deveria ser absorvido no ensino médio gratuito), e assim suas chances de conseguir a vaga ficam mais acessíveis.


Contradição notória: A universidade pública é frequentada por alunos que podem pagar uma boa preparação, enquanto os alunos de baixa renda buscam desesperadamente as universidades particulares, por ser mais fácil o acesso. Mas isso não significa saída fácil, pelo contrário, existem alunos que estudam mais de uma década para concluir a formação em um curso de quatro anos.


O lamentável episódio da retirada de manifestantes (dois índios) do plenário do STF, arrastados para fora como bandidos perigosos, é apenas a repetição do que vimos diariamente a quem ousa reclamar. Eles só queriam protestar sobre as cotas para índios e negros, mais nada. E na casa onde deve reinar a justiça, fica a imagem de que ali o sistema também é o mesmo: “fora os que são contra, aqui não é a casa do povo”. Mas afinal, onde é a casa do povo? Na Câmara, no Senado e no Planalto? Nestes lugares também não se pode reclamar.


O índio Araju Sepete Guarani foi retirado a força do pleito após um protesto.

O índio Araju Sepete Guarani foi retirado a força do pleito após um protesto.


O sistema de cotas é desumano, discriminatório e inibidor, mas é legal. Não é moral. A educação perde com isso, e assim perdemos todos nós.

Gerson Andrades
Gerson de Andrades é pedagogo, pós-graduado em Supervisão Educacional e Mestre em Educação. Educador, pessoa simples voltada para as questões sociais e preocupado com tudo que acontece no país e no mundo. Seu trabalho é sugerir, criticar, debater e contribuir, de alguma forma, para um mundo mais humano.

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  • léo

    não é de se negar que os negros/índios tem mais
    ”dificuldade” perante a sociedade, até pelo histórico cultural e tudo mais,
    mas acho essas ”cotas” um desrespeito com o próprio negro/índio, faz com que
    ganhem a vaga por sua cor de pele e pelo instinto ”coitadinho”, não por sua
    competência, que, creio eu, é como querem ser reconhecido, pelo talento
    pessoal… Muito Bom Texto ”kleiton”! hahaha

    • Ferreira

      Muito obrigado Leonardo! Não me é surpresa seus comentários sempre oportunos e interessantes. Continue conosco. Um abraço.

  • Enzo

    Não conhecia seu blog, gostei de ver, pela primeira vez na net, um texto que fala dos dois lados (geralmente a maioria, se manifesta contrário as cotas e apresenta argumentos previsíveis), e apresenta bons argumentos para ambos os lados.
    Acho as cotas um mal necessário. Em um mundo ideal, a educação pública seria tão boa como a particular, e os estudantes disputariam as vagas em universidades em condições iguais, ambos bem preparados. 
    Na vida real, existe um abismo enorme entre o ensino público e privado. Estudantes que podem pagar, estudam em universidades públicas. Estudantes que não podem pagar, tem que arrumar um emprego para poder pagar uma universidade particular. Dividindo seu tempo entre estudos e trabalho.
    Colocar um estudante, que teve um ótimo ensino, para disputar uma vaga com um estudante que teve um péssimo ensino, é ainda mais injusto que o sistema de cotas. As pessoas sempre tendem a ver apenas o seu lado, ignorando o lado do outro.
    Mesmo, que um milagre acontecesse, é o ensino melhorasse absurdamente esse ano, ainda assim, nós só veríamos os resultados daqui há alguns anos. A geração que está se formando agora ou está próxima a se formar, estaria em desvantagem.
    Deixem o egoísmo (recado para as pessoas em geral, e não para você), e pensem,se você estivesse do outro lado, acharia justo o sistema usado hoje?
    Deixando claro, que sou favorável as cotas, levando em consideração as condições financeiras do estudante e não a cor, raça ou credo.

    • Ferreira

      Muito obrigado pela participação caro Enzo! Continue nos prestigiando na nossa Revista com seus comentários democráticos e argumentação sólida.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Enzo, diante do seu comentário, acredito que o mais interessante seria um sistema de cotas para os estudantes de escola pública. Indo por este caminho não teríamos tantos polêmicas e presumo que também não estaríamos ferindo a CF/88.

      Uma questão que é importante observar também, é que mais uma vez o STF “passa por cima” da Constituição e aprova algo que, para ser vigorado, deveria ser mediante alteração  na lei vigente, na Câmara. Foi assim também na questão do casamento homossexual. O que acham disso?

  • @bruno_zeiro

    Não creio que a discussão deva se limitar à base fornecida pela escola pública. Para isso, já existem cotas que destinam parte das vagas das universidades para estudantes de cotas públicas (igualmente absurdas se vistas pela crítica do mérito). A necessidade de cotas raciais amplamente defendidas pelos assistencialistas visa desde o preconceito até uma suposta dívida história para com os negros. O mercado de trabalho em si é uma peneira e o fato de um negro ser cotista de longe aumentará suas oportunidades de mobilidade social (uma vez que a discussão já afirma que negros seriam sinônimos de pobreza e ignorância). Endosso seu texto quanto ideias de igualdade, mas não acho que os argumentos contrários às cotas raciais se resumem aos citados!
    Abraço! 

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Realmente @b2d6bf13742cf3e90fc4d26f4d77814d:disqus , a questão da “desvantagem” histórica é o maior argumento em favor das cotas, mas não é uma máximo que negros sejam pobres e ignorantes, por isso muitos reclamam que hoje em dia isso (as cotas) não sejam necessárias.

      Gostaria muito de ler os demais argumentos que você tem, acho que iriam enriquecer o debate.

  • Roos Eduardo

    As próprias cotas já são uma forma de discriminação legalizada pois classifica índios e negros como seres inferiores, incapazes intelectualmente.
    Também revela a falência do ensino público, são nestas salas de aula que índios e negros estão mais presentes, para amenizar esta dificuldade de alcançar melhores níveis de conhecimento que as cotas são criadas, mas a questão fica mais preocupante quando lembramos que os brancos das classes econômicas mais baixas da sociedade também frequentam esta mesmas salas de aula.
    Parabéns pelo texto.   

  • André Luís Marçal Júnior

    Na minha opinião não deveria existir cotas por raça, cor, religião, partido político, opção sexual ou qualquer tipo. Acho totalmente errado o pensamento de compensar o déficit da educação brasileira facilitando a entrada de pessoas menos providas de conhecimento. O que escuto de amigos que estudam e estudaram em faculdade pública que quase nenhum e quando algum após o dobro de tempo algum aluno de cota completa o curso universitário. 
    Para resolver deve extinguir ou selecionar bem instituições de ensino particular, aumentar o número de escolas e faculdades públicas para suprir essa diminuição e não só isso, melhorar a qualidade de professores públicos. Criar um plano de carreira investindo nas especialização do professor e investir em novos métodos de ensino.
    Mas infelizmente nenhum político está interessado em educar a população. Quanto mais o povo tiver falta de conhecimento, mais fácil de manipular e retirar os direitos.

  • http://abacaxivoador.com.br/author/tiberio-velasquez/ Tibério

    Muito bom.

  • Leonardo

    Excelente texto Kleiton.

  • Julia Coli

    Estudei numa escola municipal com
    outros próximos, das mais variadas cores. Todos iguais, como nunca é para
    deixar de ser simplesmente porque é. Falo com minha propriedade de saber
    acumulado na vida: onde já se viu uma quantidade maior ou menor de melanina
    influenciar a cognição? Jamais, né? Mas como será que vemos o mundo quando ele
    nos é refratário pela história injusta do homem branco com relação ao negro? Olha
    um amigo meu que estuda em outra escola do Estado, preto, entrando no Clóvis
    Monteiro sob tiroteio? Olha a saúde mental do bonde do lado de lá do manguinhos,
    será que viver sob constante tiroteio, revista (ou existe alguma dúvida de que
    o preto é mais revistado que o branco?), olhares de medo com relação a vc,
    entendimento criado por um mundo colonizador branco que o teu cabelo é
    “ruim”… Será que isso, nessas nossas condições iguais, não nos coloca
    em condições diferentes? Independente da capacidade, ela é inequívoca, começa a
    existir uma possível diminuição das perspectivas, que geralmente leva a uma
    possível chance menor de oportunidade. Posso estar redondamente errada, mas
    olha as nossas universidades públicas: elas são brancas. E o Clóvis Monteiro, é
    preto. Coincidência? E aí vamos à questão que as pessoas contra as cotas mais
    colocam: Isso vai tirar uma pessoa que MERECE porque tirou nota maior no
    vestibular. Quem disse que essa nota prova algo? Meu irmão fez faculdade
    particular, mesmo ele pagando impostos em tudo e que sustenta quem tá lá
    dentro. É direito dele! E não o fez pq não passou numa prova que diz quem
    merece ou não. Qual o critério? Inteligência? Vai falar que esse meu irmão, politizado
    e engendrador de ideias racionais singulares não merece, não tem capacidade de
    cursar uma faculdade? Jamais, tá errado esse modo de acesso. Estamos
    inequivocamente fechados, todos os que discutem sobre isso, sobre uma reforma
    educacional drásticas. E só pra finalizar, já saíram artigos acadêmicos
    sugerindo sim uma diferença no desempenho escolar de crianças brancas e pretas
    de uma mesma trajetória escolar. A classe dominante subverte nossas opiniões
    sobre esse assunto pq destinar vaga para pobre (e dentre os pobres… lembra-se
    do Clóvis Monteiro) atrapalha o estabelecimento de uma classe elitista no
    chamado ensino superior. Que de superior não tem nada.
     

    • K. Ferreira

      Julia!
      Muito obrigado por suas sábias palavras. posicionamento correto sobre o assunto. Não deveria existir diferenças entre as pessoas, mas elas existem. E estão escondidas entre as formas mais sutis da sociedade. A discriminação racial ou outra qualquer é um crime, mas neste país parece nada é crime. Concordo plenamente com você, a cor da pele não demonstra em nada a capacidade cognitiva, afetiva e emocional do indivíduo, mas tem uma diferença enorme aqui no planetinha. Na educação principalmente, na sala de aula desde o curso pré escolar e se estende à universidade, colocando brancos e negro, e também índios no mesmo funil, porém com gargalo maior para os brancos. Infelizmente é nossa realidade. Continuemos a denunciar, lutar e exercer nosso poder de educador e de ser humano consciente para que este quadro se modifique.
      Um abraço

  • Franciscoafonsomarcenaria

    serei breve : no sul de nosso querido país existem milhares de brancos de olhos azuis em situação de miséria.pelo amor, cotas sociais.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Pois é, as cotas sociais seriam mais “lógicas” do que cotas raciais.

      Eu entendo o argumento histórico que defende a cota para negros, porém, hoje não é uma realidade aplicável a todos. Devemos é nos esforçar mais e pensar em outras formas de diminuir a desigualdade social no Brasil.

  • Leonardo Tigro

    Há quem diga que as cotas raciais são apenas uma forma urgente do governo se desculpa com os descendentes de negros e índios que sofreram com a exploração/colonização do Brasil, mas olhando mais pra frente vemos a mão gorda do capitalismo.
    Como um país pode se tornar desenvolvido se a maioria de seus habitantes não tem ensino médio, ou ensino superior completo?
    É dessa forma precipitada que o país quer capacitar seus habitantes. As cotas raciais nada mais é do que um incentivo ao estudo.
    Tudo mundo acha um absurdo por pensar que isso é uma afronta ao intelecto do negro, do índio e tudo o mais… E se você negro/índio não tiver dinheiro para pagar a faculdade? E se você negro/índio não tiver tempo para estudar porque está dobrando no serviço? Você vai deixar de usar a cota só por achar este benefício um insulto ao seu intelecto?
    Todos apoiam a cota social visando aqueles que não tem condições de pagar pelo ensino superior, mas já parou pra pensar na algazarra que seria? O país inteiro ia querer estudar, as faculdades privadas não iam lucrar e com isso o governo também não.
    Parece que tudo nesse país gira em torno disso, dinheiro, capital, bufunfa, faz me rir.

    • Karapumar

      Olá meu caro Leonardo! Primeiramente quero agradecer seu oportuno e inteligente comentário sobre o artigo em pauta. Vale lembrar que a distribuição de vagas pelo regime de cotas para negros, índios e brancos é uma clara e evidente forma de demonstração do poder do capitalismo, que cumpre direitinho o seu papel de transformar a educação um instrumento do “Aparelho Ideológico do Estado”, ou seja, é para promover disfarçadamente a ascensão destes candidatos às universidades, já que as mesmas sempre foram destinadas às elites. O branco pobre também sofre a discriminação. Portanto, a lei das cotas universitárias é mais um instrumento que disfarça o sistema capitalista e coloca todos os envolvidos em uma “falsa competição”. Como citei na coluna, o problema se resolve é na educação de base e no acesso a um ensino de qualidade desde cedo. Só assim todos terias as mesmas chances.
      Um abraço!

  • gizoni

    É lamentavel saber que um governo tão mediugre como este, possa achar que criar um sistema de cotas, irá fazer justiça com negros, indios ou pobres. Isto é discriminação, o que foge totalmente a constituição, que por sinal, contraditória com essa nova lei.

    Não estamos mais no passado imperial, vivemos atualidade de hoje, portanto sem essa de justiça agora. Como sempre, tem alguem mordendo por fora ou tentando se livrar de uma dor de cabeça, que estaria lá no começo de tudo.(primário, ginasial…) quem será!!!!! (melhore o ensino, reformule a base, acabe com ditaduras e regras arcaicas dentro das faculdades, e certamente teremos muito mais que simples formandos de cursinhos onde não é só conhecimento didático que irá lhes fazer profissionais, mas sim o conhecimento do senso comum do dia a dia, somado a pratica e seus valores).