Convicções de Papel: Trump x Cruz

Convicções de Papel: Trump x Cruz

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Odioso como as portas do hades é o homem que oculta na mente uma coisa e diz outra

Homero – Ilíada

 

Na famosa obra Ética a Nicômaco, Aristóteles rejeita determinado entendimento de Platão apresentado na Teoria das Formas (ou Teoria das Ideias). A isso, o fundador do Liceu devota todo o capítulo VI do Livro I. Importante frisar que Aristóteles não apresenta suas posições diretamente. Começa examinando as visões e opiniões pré-filosóficas, filosóficas e não-filosóficas (doxa) dos assuntos que trata. Sua preocupação não consiste em marcar sua posição em contraste a essas, mas, sim, se conectar a elas, procurando descobrir com o que possa concordar. Como destaca o filólogo alemão Hellmut Flashar, a filosofia de Aristóteles não consiste em: “outros dizem aquilo, mas eu digo isso”. Não entendia que todas as posições precisavam antes ser expostas como falsas ou insuficientes para, então, a “real” filosofia poder começar. Aristóteles procurava obter a partir dessas premissas um conjunto de questões formuladas, designações linguísticas e descrições. É desta forma que procede na Ética a Nicômaco quando entra em desacordo em relação a que consiste a busca dO supremo bem.

 

O supremo bem, no entender geral, seria o caminho à eudaimonia, de acordo com a obra; o estado do ser habitado por um bom daemon, um bom “gênio”, traduzido como felicidade e bem-estar. Antes de avaliar este aspecto, Aristóteles também procura investigar o bem como um conceito universal (katholou) e aqui está a discordância para com a visão de Platão, que ele critica e rejeita.

 

Como ressaltado, tal crítica não está preocupada inicialmente em produzir uma linha de corte, mas em buscar elementos comuns. Ainda assim, foi particularmente doloroso a Aristóteles argumentar contra a Introdução às Formas de seu mestre, a ponto de, para poder fazê-lo, apelar à passagem do Livro X da República de Platão. Neste livro, Platão introduz uma crítica aos poetas, principalmente direcionada a Homero – que o fundador da Academia alega ter sido seu grande “capitão e professor” desde “a tenra infância”. Platão, entretanto, escreve: “(…) um homem não deve ser mais reverenciado que A Verdade”.

 

A analogia ilustra a admiração e carinho que Platão alegava possuir por Homero. O mesmo carinho e admiração que o próprio Aristóteles possuía por Platão, quando reforça “a verdade mesmo acima dos nossos amigos”. Tais celebradas palavras deram origem à conhecida expressão latina: amicus Plato, sed magis amica veritas (Sou amigo de Platão, mas sou ainda mais amigo da verdade).

 

A interpretação imediata da passagem é praticamente tautológica: entre a verdade e a amizade (ou admiração, estima, confiança, autoridade), devemos ficar com a verdade. Entretanto, no dia a dia, tal escolha não se mostra recorrente e, justamente por isso, o conceito deve ser expandido. Na filosofia grega (assim como na Bíblia), os casos particulares e específicos devem ser usados para produzir um quadro geral. O particular em questão é alguém se defrontando com uma demonstração teórica de um amigo. Seu dever é posicionar-se de acordo com o que acredita ser a verdade, ainda que precise fazer o que não deseja, e se opor à versão daquele por quem tem amizade e estima. Deste particular, produzimos o caso geral que possa ser utilizado de modo abrangente e dele traduzido em um sem fim de situações – estas que se apresentarão não só na forma de teorias e opiniões, mas em situações de escolhas reais de casos concretos, que vêm misturados e confusos.

 

A meu juízo, o fundo da passagem, em última linha (e o fio que quero puxar no tema do artigo), está nos dizendo que a verdade, como o bem, não emanam de uma pessoa (exceção feita ao logos divino encarnado). Nunca! Ninguém está certo a priori. Ninguém está certo por ser quem é. No caso, Platão não está certo porque é Platão. Ele é Platão porque busca acertar, ainda que erre. Essa passagem é a própria negação do personalismo, uma ode à existência da verdade objetiva e condenação do relativismo casuístico.

 

“Aqui de boas, avaliando se dedico um capítulo inteiro a dizer no que e por quê discordo de Platão ou se não é preferível higienizar as pessoas a tudo que ele tenha dito ou escrito, a priori, desqualificando-o como racista, nazista, machista, fascista, eugenista supremacista.” (pintura: "Aristotle" de Francesco Hayez)

“Aqui de boas, avaliando se dedico um capítulo inteiro a dizer no que e por quê discordo de Platão ou se não é preferível higienizar as pessoas a tudo que ele tenha dito ou escrito, a priori, desqualificando-o como racista, nazista, machista, fascista, eugenista supremacista.” (pintura: “Aristotle” de Francesco Hayez)

 

O assunto de que tratarei no artigo ocorreu há algum tempo, mas vale ser resgatado por seu aspecto simbólico: em 11 de março, manifestantes invadiram um comício de Donald Trump na cidade de Chicago. O evento privado, marcado com bastante antecedência, sofre assédio de milícias organizadas que buscam, sob a carapuça da livre manifestação, calar um adversário que tratam como inimigo.

 

Pessoas de toda sorte, renda, escolarização e idade, que saíram de suas casas para assistir o pré-candidato republicando, se veem acuadas, acusadas de serem o que não são e metidas na confusão. Donald Trump e as forças de segurança locais decidem em conjunto cancelar o evento para que mais pessoas não se machuquem. Um lado preocupado com consequências; o outro, invasor, preocupado em conseguir uma primeira vitória: impedir a livre expressão de um desafeto.

 

A segunda vitória vem através da caixa de ressonância de narrativas pré-programadas na qual se transformaram os grandes veículos de comunicação. O bilionário já vinha sendo rotulado de “polêmico” por abordar temas que são “vacas-sagradas” da agenda progressista (apenas debater um assunto que se quer pacificado e homogêneo pela narrativa influente já basta para que lhe colem a pecha negativa). Trump, às vezes, o faz de forma atabalhoada – não é um político profissional. Mas não paga pelo que diz; paga-se pelo que afirmam que diz. Seus detratores apostam na pouca informação dos interlocutores para associar posições do pré-candidato sobre imigração ilegal com xenofobia, condenação de militâncias violentas com fascismo, endurecimento contra o Islã com racismo (como se o Islã fosse uma raça) etc.

 

O espantalho é criado para justificar protestos como o ocorrido em Chicago (que continuam ocorrendo, em maior ou menor grau, por onde passe o pré-candidato). Se Trump é um fascista, nazista, machista, racista, homofóbico, são também, por consequência, seus apoiadores. “Enfrentá-los” nas ruas está justificado. Usam esses termos como ofensas e desqualificação, não como um descritivo de Trump e eleitores.

 

Até aqui, ainda que detestável, nada de novo. Os que já cruzaram com as esquerdas, no mundo todo, conhecem bem tal tática. Sendo assunto de relevância nacional, esperava-se reação dos demais pré-candidatos republicanos. E veio. Só que não como deveria.

 

Em Chicago, vemos claramente intolerantes violentos excitados pela retórica fascista de Trump. Só que não.

Em Chicago, vemos claramente intolerantes violentos excitados pela retórica fascista de Trump. Só que não.

 

John Kasich, Marco Rubio e Ted Cruz relativizaram o ocorrido e culparam a vítima. Apostaram na desinformação e em reproduzir uma falácia comum, bastante utilizada para associar fenômenos supostamente de causa e consequência: post hoc ergo propter hoc (depois disso; logo, por causa disso). Endossaram a narrativa da esquerda na imprensa: os militantes se tornaram agressivos porque Trump fala o que fala. Condenando a violência no genérico e alertando para o “tom” usado por seu rival, reforçam que a violência só ocorreu porque Trump passou de uma suposta linha aceitável.

 

Buscando dividendos políticos, mascaram a realidade: esses militantes são violentos por si, intolerantes por natureza. Estavam esperando pretexto para lançar mão desses expedientes. O trio não atenta para a repetição da brutal campanha difamatória nas prévias de 2012 contra Newt Gingrich, por este ter dito que os palestinos são um povo inventado ad hoc. Mitt Romney embarcou nessa como estes embarcam contra Trump. A agressividade verbal e militante antecede o ato dos opositores da esquerda. Está lá, latente, esperando o momento de se manifestar. E fatalmente o farão.

 

A postura desses pré-candidatos trouxe condenação de personalidades conservadoras, como David Horowitz, que atentou para o suicídio de tal tomada de posição; e Ann Coulter, que os chamou de traidores.

 

Do governador de Ohio, John Kasich, ansioso para ser o candidato do establishment do partido, não surpreende a reação. De Marco Rubio, idem. Este já é considerado traidor pelos próprios eleitores da Flórida, Estado notadamente contra a anistia para imigrantes ilegais. Principalmente, vejam vocês, por parte dos porto-riquenhos (cujo país caminha para se tornar um estado americano) e pelos cubanos – todos feitos cidadãos legais. O problema e a amargura do episódio residem no comportamento de Ted Cruz. E nele pretendo me demorar por ser ele quem é, e por se tratar de um comportamento repetido na direita (principalmente a brasileira), que ignora a passagem de Aristóteles que abre o artigo.

 

Dando Autoridade aos Violentos

 

Ted Cruz é o cara (e não falo para amaciar antes de bater). Ted Cruz é (ou era) o símbolo do ideal: conservador constitucionalista, debatedor proficiente, com ampla formação intelectual e performance quase irrepreensível no Senado desde 2011. Conservadores do mundo todo torcem por ele e eu mesmo já declarei minha torcida – mais de uma vez, inclusive. Entretanto, a reação de Cruz denota um erro de essência.

 

Essencial, em primeiro lugar, porque deixa a esquerda dar a versão final e definitiva do caráter das pessoas. Do mesmo modo que fez Reinaldo Azevedo, abraçando o espantalho de Bolsonaro construído pelos socialistas, dizendo ao vivo em cadeia nacional: “Há uma diferença entre ser conservador e ser burro… ele tem uma mentalidade golpista… acho ele homofóbico… quem tem medo de ficar perto de gay é porque acha que corre o risco… ”. Esse personagem descrito pelo jornalista não existe. É a adoção de uma versão difamatória.

 

Em segundo lugar, e mais importante, concede às esquerdas a posição de determinar o que é e o que não é aceitável ser dito. Esse poder não pode ser conferido de jeito nenhum, ainda que Trump tivesse usado realmente argumentos racistas e xenófobos na defesa de suas propostas (mas não o fez e desafio a mostrarem o contrário). Relativizando, Cruz concede o privilégio às esquerdas de determinarem que assuntos podem e que assuntos não podem ser debatidos – se muito, até onde podem e em que termos. Fica estabelecido o monopólio da moral e dos meios da censura que impõem ao hoje candidato líder e mais contundente (amanhã a todos). Só que essa censura não está ancorada em lei alguma, o que a faz ainda mais perversa, pois é o terreno dos mais virulentos.

 

Era para vocês derrotarem a esquerda, não se juntarem a ela!

Era para vocês derrotarem a esquerda, não se juntarem a ela!

 

Amicus Cruz

 

Mas por que Cruz fez isso? Sabendo quem é, o que faz e como Cruz pensa, por que concederia esse poder, com consequências futuras, aos seus adversários verdadeiros? Escolheu fazê-lo porque o alvo é Trump e ali deu um salto mental próprio das esquerdas: “mais importante que defender a verdade, os fatos e os princípios, é chegar lá. Minha candidatura, não a de Trump, justifica ignorar fundamentos que nominalmente professo. O meu governo é mais importante e fará mais pela América.” Assim, não condenou os bandidos e deixou que se safassem.

 

Entretanto, não é determinada pessoa em determinado cargo que produzirá o bem, mas os valores e princípios que ela carrega. Ninguém está justificado como melhor opção a priori e a despeito do que faça. E ainda que tenha feito, cabe aos seus defensores não endossarem só porque ele é ele (como Ben Shapiro, que vem ordenhando vergonhosamente o caso de Michelle Fields, deveria fazer).

 

Só desse modo fugimos do culto da personalidade. O indivíduo só representa o bem enquanto portar os valores que nele subsistem. Se decide que a sua própria presença no cargo é “O” mais importante, a despeito do que precisará deixar de lado, tomou a posição de que o bem emana de si mesmo. Portanto, tudo o que for feito para chegar lá, em nome da geração deste bem, está justificado retroativamente. E este é “O” erro das esquerdas. Sua diferença para os marxistas será apenas de grau, e não de essência.

 

Defender o direito do indivíduo se expressar livremente sem ser coagido e assediado por milícias violentas é fácil em teoria ou em situações distantes, como no caso do ataque terrorista muçulmano à redação do Charlie Hebdo. Não houve conservador que dissesse que eles provocaram a própria sorte e que não deveriam ter feito sátira com Maomé. Isso seria culpar as vítimas de uma monstruosidade. Os que assim agiram são os mesmos que estão nos preparando arreios verbais.

 

Não estamos nessa só para ganhar uma eleição, muito menos para patrocinar um projeto de poder pessoal. Estamos nessa enquanto os candidatos agirem de acordo com o que acreditamos, pois os efeitos são mais duradouros do que um mandato. Um mandato não produzirá, por si, o bem. Não se pode trocar os valores de sempre pela eleição de hoje. O importante, ainda que difícil, é atuar quando a ocasião concreta se apresenta. Ou seja, na confusão do real, de encontro a alguém que você eventualmente despreza. Senão se torna uma convicção de papel, feita a um ideal de livro – abstrato e teórico, que pode ser abandonado em nome do “pragmatismo”.

 

A disputa política é a continuação de um embate que acontece a cada minuto de nossos dias – a luta pela civilização. Se não fosse assim, qualquer partido serviria e qualquer ato estaria justificado, pois o fim último está em si mesmo: o tal candidato lá, personificando o bem.

 

Adesão ao Gosto e ao Abstrato

 

Esse artigo não é uma condenação de Ted Cruz. A eleição americana ajuda a pautar agendas no mundo todo e a atuação deste governo garante o equilíbrio do planeta. Um presidente acabando com o IRS (Receita Federal na América) traria esse debate também ao Brasil. Se Ted Cruz conseguir chegar à Casa Branca, que bom! – ainda que tenha falhado miseravelmente em algo essencial.

 

E Trump? Trump não é um conservador clássico e conceitual como Cruz, mas não há nada mais conservador do que chamar as coisas pelo nome. Sem contornos, sem eufemismos, sem ceder ao vocabulário imposto, sem ficar preso a conceitos abstratos.

 

Isso puxa outro ponto: Trump tem sido chamado de “estatólatra” e “inimigo do livre- mercado” por ter feito ataques aos trade deals da América com China e México. Reitero que, quando Trump vitupera contra as empresas que saem da América rumo ao México e à China, deseduca o debate. Neste ponto, o problema é caseiro. Entretanto, em extensão a essa “fuga” de indústrias, está o protecionismo que esses países utilizam no comércio com os EUA. Livre comércio não pode ser defendido de modo abstrato e independente de contextos, como num debate acadêmico. Se a China proíbe a entrada de seus produtos, isso é livre comércio? Defender o livre comércio como um fetiche conceitual se iguala à apologia do PNA (Principio de Não Agressão) que tanto agrada os libertários.

 

A adesão a palavras e gostos também é uma convicção de papel, que só existe nas palavras. Tal como pessoas aderindo a partidos que essencialmente não possuem aquilo que elas almejam, mas por brandirem uma “palavra” com a qual se identificam, alegremente prestam apoio e adesão automáticos.

 

Como resistência final, tratam da falta de decoro do “presidenciável” de Trump e do modo espalhafatoso como medida do que seria seu governo – se tornando, por isso, uma extensão de sua personalidade visível, fazendo de Trump um louco radical. De modo metonímico, atribuem o espectro político do sujeito de acordo com seu comportamento e decoro. Se fala baixo, com vernáculo cuidadosamente estudado, se abre em sorrisos na imprensa: “ah, esse é um moderado”. José Genoíno, defensor professo da implantação do socialismo, ex-guerrilheiro e operador do Mensalão (tem como ser mais radical do que isso?), é um dos caudatários dessa “avaliação”.

 

Não só na América, mas também no Brasil, a direita busca candidatos que emulem a imagem acabada da posteridade de estadistas como Ronald Reagan e Winston Churchill. Pior: como se eles, enquanto pessoas reais, tivessem sido desde sempre essa imagem acabada da posteridade. Tomam essa visão dos grandes estadistas retroativamente.

 

Winston Churchill, em especial, se surgisse no meio político hoje, não caberia nessa afetação da imagem abstrata do “ideal” que buscam num candidato. A “Trilogia do Leão” de William Manchester, com destaque para o segundo livro, Alone – 1932-1940, mostra um homem irascível, tratado como catastrofista, presunçoso e pouco decoroso por seus pares. Ainda que os avisos insistentes sobre a Alemanha tenham sido negligenciados de início por isso, quando a situação se mostrou tal qual ele descrevia, o país se voltou a ele. A verdade emana de dizer as coisas tal qual como elas se apresentam e não de modo a se adaptar a conceitos doutrinários pré-existentes.

 

A realidade existe no concreto, não no papel. E, neste aspecto, Trump está na frente de Cruz.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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