Como nosso péssimo jornalismo ajuda os maus políticos

Como nosso péssimo jornalismo ajuda os maus políticos

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O péssimo jornalismo praticado no Brasil além de não realizar sua premissa básica, de ser o espelho da consciência crítica de uma comunidade em determinado espaço de tempo, presta inúmeros desserviços a sociedade, entre eles: proteger maus políticos.

 

No mês de dezembro a saúde pública do Estado do Rio de Janeiro entrou em colapso, tendo as emergências dos principais hospitais fechadas por falta de repasse das verbas destinadas a saúde. O caos instalado contou com problemas desde a falta de material básico, como luvas descartáveis, à falta de pagamento dos salários dos funcionários do setor, de médicos à auxiliares de serviços gerais.

 

O governador Luiz Fernando Pezão afirmou, no dia 22 de dezembro, que o Estado precisaria de R$ 350 milhões para reabrir todas as emergências e que iria fazer o “esforço que precisar” para isso.

 

Não há duvidas de que o Estado do Rio de Janeiro, assim como todo o país, passa por uma crise financeira, mas as perguntas que ficam são:

 

- Por que só após meses de atraso nos repasses das verbas é que o governador vai fazer “o esforço que precisar” para manter os hospitais funcionando?

 

- Não era previsível que após meses de atraso uma hora o sistema iria entrar em colapso?

 

Mesmo que essas perguntas fiquem sem respostas, um jornalismo sério não se limitaria a noticiar que o Estado passa por uma crise financeira e que os hospitais fecharam as emergências. Isso é defeito do nosso péssimo jornalismo. Um jornalismo de verdade teria colocado o governador contra a parede, enquadrado-o e feito dar as explicações que devem ser dadas.

 

Numa analogia grotesca, quando você empresta um dinheiro a um amigo seu e na data combinada ele lhe alega falta de recursos para quitar a dívida, mesmo a contragosto você irá se resignar. Porém, caso veja esse mesmo amigo gastando dinheiro em futilidade isto lhe revoltará, não é mesmo?

 

Colapso no sistema de saúde público do Rio de Janeiro.


 

Quando essa classe incompetente de jornalistas noticia que o Estado não tem dinheiro e que o governador fará “o esforço que precisar” para reabrir as emergências, ela ao invés de pressionar o governador, estará dando uma oportunidade dele sair fortalecido – claro que isso depende da habilidade política dele para tal feito, mas os jornalistas darem esta oportunidade é algo impensado em um jornalismo profissional.

 

Se tivéssemos jornalistas comprometidos o governador já teria declarado se o seu salário de R$ 21.868,14 atrasou. Uma vez que, o salário da técnica de enfermagem atrasou por mais de duas semanas.

 

O governador teria explicado também o porquê que apesar da crise o Estado ampliou em mais de R$ 1,2 milhões o contrato de aluguel de carros de luxo para a Alerj. Será que os deputados estaduais não recebem o suficiente para custear seus próprios carros e aliviar os cofres públicos?

 

Poderia explicar também o porquê de durante uma grave crise na Saúde, a qual o Estado afirma não ter recursos financeiros, ele, o governador, enviou a Alerj, em novembro, projeto para liberar um subsídio que pode chegar a R$ 39 milhões à Supervia, cliente do escritório de advocacia Coelho, Ancelmo e Dourados Advogados, escritório o qual tem como uma das sócias Adriana Ancelmo Cabral, esposa do ex-governador Sérgio Cabral.

 

Se a ordem é economizar, por que não cortar alguns cargos de confiança? Alguns não fariam falta. Por exemplo, na Setrab, dos 27 chefes de serviço, metade possui nenhum subordinado. Eles chefiam quem? Afinal, para ter chefe deve haver chefiados.

 

Ele poderia explicar o porquê de a prefeitura, do seu correligionário Eduardo Paes, dobrará a verba para as Escolas de Samba no carnaval de 2016 ao invés de ajudar o Estado a solucionar a crise da Saúde. Ou até mesmo explicar o dinheiro gasto com o Revéillon, ou com os Jogos Olímpicos do ano que vem, ou até mesmo esclarecer o dinheiro gasto na reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

 

Será que tudo isto era mais importante do que a saúde dos fluminenses?

 

A pressão em cima do governador deveria tê-lo feito convocar uma entrevista coletiva na qual todas estas questões e muitas outras deveriam ter sido esclarecidas. Mas o que esperar de um jornalismo fraco, frio, distante, pragmático, vendido ideologicamente e refém de verbas de publicidade estatal?

 

O governador é aquele amigo caloteiro, que não te paga e ainda gasta dinheiro com roupa de marca, cerveja e noitada…

 

… e você é o bobo que financia tudo isso.

Carlos Santos
Estudante de jornalismo, escritor amador, poeta de ocasião, cronista fortuito e colunista inconstante. Além de tudo, é um ex-comunista que dobrou a Direita.

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