Comentário sobre “Django Unchained” (2012)

Comentário sobre “Django Unchained” (2012)

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Vou ter que conviver com a culpa pelo crime, imperdoável em mesas de bar, de não ter gostado de “Django”.

 

Tarantino, cada vez mais parecido com um Renato Aragão rechonchudo, para minha absoluta tristeza, começou a se levar a sério. O nerd genial que misturou o pop, o trash, o grunge e o kitsch com diálogos memoráveis e um humor único, que entrou para a história do cinema derrubando a porta, debochando de tudo, profanando vacas sagradas sem a menor cerimônia e sacralizando a violência, está envelhecendo. Aquele Tarantino que fez Samuel L. Jackson citar Ezequiel antes de matar ganhou seus primeiros cabelos brancos e, criativamente, parece caminhar com a mesma dificuldade de Stephen, o fantástico escravo de bengalas que é o que há de melhor em “Django”.

 

Jaime Foxx, no papel que dá nome ao filme, não é nada. Não tem a força de Cinque, o escravo insuperável de Djimon Hounsou em Amistad, nem está a altura e a carga emocional de qualquer protagonista de faroeste, como o saudoso William Munny de Clint Eastwood em Os Imperdoáveis. Django não tem sequer a autoridade moral de Carl Lee, o inesquecível papel de Samuel L. Jackson em Tempo de Matar, um filme injustamente subestimado.

 

Outra lástima é o papel de Christoph Waltz, uma das grandes descobertas da vida de Tarantino, que faz um cover acanhado e sem qualquer convicção do seu eterno Hans Landa. Um desperdício.

 

Christoph Waltz e Jamie Foxx em Django Livre.

Christoph Waltz e Jamie Foxx em Django Livre.

 

Se em Bastardos Inglórios temos aquele Tarantino sem medo, olhando o nazismo com superioridade e desprezo, em “Django” a escravidão é no máximo um hip-hop, uma história de vingança sem nuances, sem sustos, sem reviravoltas, é tudo tão previsível e apressado como num gangsta rap banal.

 

Espero que Tarantino nunca seja infectado pelo que eu chamo de “Síndrome de Oliver Stone”, que é quando um artista inteligente e vibrante vira um chato engajado depois de ser dragado pela política, perdendo o brilho e virando apenas um militante opaco e entediante.

Alexandre Borges
Alexandre Borges é carioca, flamenguista, pai de uma princesa, mas sem títulos nobiliárquicos. Publicitário, diretor da B Direct Comunicação e do Instituto Liberal.

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  • http://quartapessoa.blogspot.com Tarilonte

    Interessante sua crítica. Realmente o Dr. Schultz lembra muito o Hans Landa, embora isso não seja, na minha opinião, um demérito.

    Discordo que o filme seja pretensioso (Tarantino se levando a sério além da conta).

    Eu ainda destacaria a atuação do Leonardo DiCaprio.

    Enfim, foram quatro atuações muito boas, com destaque para o Samuel L Jackson, que se encaixaram muito bem na dinâmica peculiar dos filmes de Tarantino.

    Contudo, não foi dessa vez que Pulp Fiction perdeu o posto de obra-prima do cineasta.

    • Alexandre Borges

      Leonardo DiCaprio estava bem no filme mesmo, concordo. O pior filme do Tarantino ainda é melhor do que a média dos outros. Algumas cenas, de tão previsíveis, foram constrangedoras. A do diálogo dos membros da KKK, por exemplo. Abs!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Bem lembrado, quando o Christoph Waltz foi indicado novamente ao Oscar de ator coadjuvante, e do DiCaprio não, lembro que fiquei meio puto, imagina quando ele venceu.

  • Ricardo Martins

    Eu acho que o Christoph Waltz ficou ótimo, não acho uma “versão” do Landa, embora o ator tenha esse estilo de atuar (ele inclusive fala desse modo, acho que isso é dele mesmo). Também não acho pretensioso, a não ser em pensar em agradar mais o Oscar, rs. Mas concordo com o tema central do texto: esse é o Tarantino mais comportado e sem surpresas que já vi, e isso é preocupante sim. A maioria dos grandes diretores começam a ter queda de qualidade quando passam mais a se preocupar em agradar a todos a fazer um bom filme.