Ciro Gomes, o cão de guarda de Lula

Ciro Gomes, o cão de guarda de Lula

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Desde 1989 o Brasil não tinha uma corrida eleitoral que movimenta-se, de verdade, todo o país, com a devida antecedência e importância que o evento merece — nos EUA todo o processo de sucessão presidencial dura cerca de 14 meses.

 

Aqueles que criticam aquilo que chamam de “campanha antecipada” apenas temem que seu favorito na corrida eleitoral perca holofotes para o rival. E são muitos, desta vez, os rivais. Em comparação com as últimas eleições, a coleção de nomes será bem maior.

 

Até o momento temos neste grupo os pretendentes sérios a corrida em 2018, alguns mais fortes que outros: Jair Bolsonaro (PATRI), Lula (PT), João Dória (PSDB, Centro ou PMDB, ninguém sabe), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva e Joaquim Barbosa (estarão juntos pelo REDE, não se sabe apenas quem será vice de quem), Henrique Meirelles (PSD), Álvaro Dias (PODE), Paulo Rabello de Castro (PSC), João Dionísio Amoedo (NOVO), Chico Alencar (ou outro desvairado do PSOL) e mais alguns tão irrelevantes que não merecem citação.

 

Com o elenco posto, ainda que seja cedo para afirmar, os principais atores já se destacam em cena, com papéis distintos que já podemos analisar e entender.

 

Ainda que nenhuma pré-candidatura seja oficial, as participações em programas de opinião em TVs, rádios e Internet ocorrem como se já o fossem. Dentre os acima citados, é fácil apontar Jair Bolsonaro, Lula, Ciro Gomes e João Dória como os mais requisitados para tais participações, cada um em canais conforme seu perfil.

 

Jair Bolsonaro e Lula, além disso, saem pelo Brasil. Um aclamado pelo “povo livre”, aquele que o conheceu da internet, das diversas polêmicas filmadas, da declaração histórica sobre o presídio de Pedrinhas, dos memes, no WhatsApp, no Facebook e afins — se é que existem afins em termos de internet para esse povo –, que não é filiado a partido algum, que nunca votou por coerência ideológica, que não se interessa, e talvez não saiba, o que é ideologia e que, certamente, há não mais que dois anos descobriu que direita não é o lado dos malvados, conforme fora lhe contado em idade de formação.

 

O outro pelo povo acorrentado pelos programas sociais e instituições ligadas ao PT e a esquerda de modo geral, aquela gente acostumada a brigar por candidato, para não perder benesses que consideram direito, que distribui panfleto e pede voto com vontade, filiada a partido (de esquerda), filiada a sindicato, filiada a CUT, MST, UNE ou outra siglas do gênero, ligada a alguma organização social, sejam ONGs ou pastorais da Igreja Católica, infelizmente há muito cooptadas, estudantes de universidades públicas e demais usufrutuários e defensores de regalias estatais custeadas pelo “povo livre” acima citado. Uma gente mais acostumada com campanha e com essa “briga” toda que envolve o processo, e por isto mesmo já cansada e desgastada. Mas ainda viva.

 

Ocupados então, e liderando as principais pesquisas, Lula e Bolsonaro pouco se bicam. Apenas quando solicitados com mais veemência. Bolsonaro com toda razão, pois precisa, antes de tudo, se apresentar para grande parte do país que não o conhece. Já Lula, o personagem político mais conhecido de nossa era, não bate no rival por não estar em posição para tal. Encontra-se na defensiva, tentando desvincular-se da pecha de bandido que corretamente lhe impôs ninguém menos que justiça federal, ao fim do primeiro (de 5) processo em que foi réu e culminou em uma condenação em primeira instância de 9 anos e meio de cana.

 

É um missão e tanto, até para a eficaz retórica do ex-presidente.

 

De tal forma, ciente de quão ruim seria deixar Bolsonaro livre e solto em pleno crescimento, e ainda João Dória criticando sozinho, sem contraponto, o tal legado do PT, a esquerda organizada em diversos partidos e candidatos, que historicamente sempre afunila em favor do PT e de Lula, já escolheu seu atacante e já o colocou para jogar contra Bolsonaro e Dória.

 

Não é segredo que Ciro Gomes, com toda sua verborragia, impressiona os impressionáveis. Atendendo a um público distinto em relação a Lula, composto por intelectuais “brasileiros” (uso nossa nacionalidade como xingamento em muitos cenários, não se preocupe) e gente que pensa ser mais esperta do que é, Ciro vem há alguns meses exibindo pelo país sua boa retórica, especialmente em universidades.

 

Devidamente recolocado ao cenário, passou então a sua função principal neste corrida: atacar os principais concorrentes que não são de esquerda. Ciro atua, sem pudor, como cão de guarda de Lula ou de quem o suceder como candidato do PT — o próprio Ciro almeja o posto, mas seu histórico digno de patologia psíquica o inviabiliza.

 

Fala por mim, Ciro.

Fala por mim, Ciro.

 

A escolha logo de Ciro para o papel, afora qualquer qualidade retórica, se dá também por uma inexplicável aura de “outsider” que o ex-ministro de Itamar Franco e Lula, ex-governador do Ceará, que começou a carreira política pelo PDS, partido sucessor da ARENA na década de 1980, carrega.

 

Lula “soltou” Ciro Gomes para cima de Bolsonaro e Dória na tentativa de ver o coronel fajuto e esquentadinho furtar parte do eleitorado (que seria o tal “povo livre” mais a massa de eleitores não-petistas decepcionados com a alternativa até então, PSDB, que vê em Dória apenas João Dória, não outro nome do PSDB e por isso mesmo lhe dá base) que clama por novidade, por alguma espécie de outsider tupiniquim — tudo que Ciro não é.

 

Ou seja, mais um embuste vindo deste lado do espectro político. Porém, ainda que o seja, assim como foi o mantra “Dilma gestora”, que o Brasil precisou sofrer para descobrir ser mentiroso, é um embuste que tem capilaridade e pode sim gerar prejuízo às citadas e possíveis candidaturas de Dória e Bolsonaro.

 

Ciente disso o prefeito de São Paulo, homem de comunicação, não se faz de rogado e defende-se muito bem dos ataques feitos pelo ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes, sempre classificando-o como caso para psiquiatras. Sugerindo que o cearense não seria sequer apto para a política.

 

Já Bolsonaro, bem a frente de Ciro nas pesquisas, tem evitado uma briga franca agora, em atitude que concordo. Tivemos recentemente um belo exemplo desta postura. Em entrevista ao Pânico na Rádio, Ciro afirmou sem meias palavras que Bolsonaro “lavou dinheiro” ao devolver ao PP, seu partido à época da última eleição (2014), os famosos 200 mil reais oriundos da Friboi que recebeu via partido em sua conta para despesas de campanha. E isto porque na sequência o partido lhe repassara novos 200 mil, desta vez oriundos do fundo partidário, a que Bolsonaro tinha “direito” como um dos mais bem votados de seu estado.

 

Sem ataques mais fortes como faz Dória, Bolsonaro limitou-se neste episódio a informar em sua página no Facebook que processaria Ciro pelas declarações imprecisas e falaciosas sobre esta história, fartamente documentada pelo próprio (atitude corretíssima também).

 

Jair Bolsonaro e Magno Malta: Aliados não é de hoje.

Jair Bolsonaro e Magno Malta: Aliados não é de hoje.

 

Compreendo e respeito a estratégia de não confronto por ora, porém sugeriria uma estratégia alternativa com potencial não só de defesa e manutenção, como a atual, mas também de ataque. Até para testar os ânimos para 2018: “Solta” o Magno Malta para cima do Ciro, Bolsonaro!

 

O evangélico, que será companheiro de chapa de Bolsonaro em 2018, conforme reiteradas afirmativas públicas, não é fraco no confronto verbal e tem uma memória de elefante. Se se dispor a estudar a história política do concorrente pedetista, e principalmente consumir todo material que roda pela internet e pesa contra ele (vídeos de chiliques com populares e afins), terá munição infinita.

 

Fora o palanque privilegiado que Magno Malta possui como atual senador da República.

 

Bolsonaro observaria e acumularia informação para o ano que vem, isto se a pré-candidatura de Ciro sobreviver até lá. Tal munição pode ser necessária na “batalha final” pela cadeira presidencial.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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