Casa, comida e roupa lavada

Casa, comida e roupa lavada

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Não sei como andam as coisas aí no seu estado, mas aqui no Rio de Janeiro já faz tempo que não precisamos ir ao cinema para ver cenas de ação. Tiroteios e outras peripécias em plena luz do dia nos são comuns há anos. Mas não é só pela ação hollywoodiana tradicional, de tiros e bombas, que o Rio é cinematográfico.

 

Recentemente os cariocas têm tido a oportunidade de observar pessoas emularem outro gênero de filmes, muito popular: de zumbis. Protestos, greves e outros motivos para acumular gente em prol de uma causa, com coro organizado e tudo, são cada vez mais frequentes na cidade. George A. Romero parece ter feito escola por aqui. Hordas de zumbis – gente que anda a esmo e repete as mesmas falas inconscientemente é isso, afinal – enchem as ruas e param a cidade, fazendo necessário, quase sempre, deslocamento de efetivo policial para demovê-los de seus intentos “infracionários”.

 

Já tem virado costume. Duas ou três balburdias por mês, com direito a vasta cobertura da imprensa. A diferença é que os zumbis cariocas não reivindicam o cérebro alheio, querem casa, comida e roupa lavada.

 

Isso vem se agravando desde o fim do último pleito para prefeito da cidade, quando Eduardo Paes, vulgo Dudu, venceu no primeiro turno uma disputa que pareceu de segundo. A eleição desde o começo foi polarizada entre Paes e o segundo colocado à época, o deputado estadual Marcelo Freixo, famoso pela CPI das Milícias. Ao fim da corrida eleitoral, com Freixo derrotado, seus correligionários e apoiadores (o pessoal do “Nada deve parecer impossível de mudar”) declararam que não acabava ali, que política se fazia nas ruas e não só em época de eleição; ou algo parecido. Não acabou mesmo, e política se faz no dia a dia sim, o tempo todo, mas precisam dirigir um filme do Romero por semana? Pode ser coincidência, claro, mas não é!

 

A balburdia da vez envolve “sem-tetos”. No dia 30/03/2014 cerca de cinco mil pessoas invadiram um prédio abandonado da Oi – ex-Telemar, que dizem na internet ser do filho do Lula, mas não é –, no Engenho Novo. O prédio estava abandonado mesmo, mas continua tendo dono, ou seja, entrar lá e construir uma casota é delito de invasão de propriedade. Nada que esse pessoal estilo MST urbano respeite.

 

Invadiram o terreno da Oi numa semana, na outra a Justiça determinou uma ação de reintegração de posse à empresa e a PM fez cumprir a lei; no mesmo dia então, os repentinos desabrigados vão para a porta da Prefeitura pedir moradia. “Queremos casa!”, gritam. E quem não quer?

 

Parece uma questão complexa, vemos senhoras de idade e crianças na rua, gente sem camisa dando entrevista. Mas a pergunta crucial os repórteres que cobrem o fato não fazem: Onde moravam antes da invasão?!

 

Voltem para lá, ora, porra! Se não o fazem, optando por acampar em frente a Prefeitura até ganharem uma casa nova, com a geladeira cheia e roupa lavada, não são diferentes daqueles mais abastados que, eleitos, igualmente só querem mamar nas tetas da babá mais famosa do mundo: o Governo.

 

Carro da polícia estacionado nas cercanias do prédio foi incendiado.

Carro da polícia estacionado nas cercanias do prédio foi incendiado.

 

Houve conflito, claro, na chamada “ação de reintegração de posse”, e depois dela, nos arredores do local e em outros bairros que sofreram por tabela com saques e vandalismo gratuito. As imagens dos jornais pareciam revelar que as portas do inferno haviam sido abertas, ou que toda a plateia do “Esquenta!” havia saído direto dos estúdios da Globo e ido para as ruas de uma só vez.

 

Pior: não foi um dia excepcional. A cultura do caos cada dia se espalha mais pela cidade. Qualquer muvuca, com a polícia no meio, é motivo para uns mascarados quebrarem bancos, sempre os bancos, queimarem ônibus – revanche dos R$ 0,20 – e até saquearem pequenos comércios, gerando prejuízo a quem faz aquilo que estes “zumbis” não fazem: produzir, trabalhar.

 

O jornalismo, como sempre, passa vergonha numa hora dessas. Ávidos por matérias, sedentos por corpos e sempre dispostos a criminalizar polícia e governantes, sejam estes últimos quais forem, incitam as vítimas a contarem seus “causos”, suas desgraças, suas lástimas. É o sensacionalismo em ação, colhendo audiência. Tudo é motivo de vitimismo, e para imprensa, qualquer denúncia é ela própria o veredito sumário do acusado. “O PM bateu no meu filho”, então bateu. “Chegaram atirando”, então chegaram. Culpados? Mais uma vez, toda a corporação policial, toda forma de governo… Com o tempo que essa gente passa reclamando, outras pessoas já teriam ganho seu pão. Até pedintes de rua fazem mais que estes reclamões invasores.

 

Foram cerca de 150 pessoas que resolveram acampar em frente a Prefeitura, entre eles uma grávida de nove meses, prestes a dar a luz, crianças de colo, em carrinhos de bebê, e outras somente um pouco maiores mas trazendo o nariz escorrendo como traço em comum. Numa ocupação de 10 dias certamente deu tempo de engravidar ou fazer isso tudo de filhos. São filhos do governo, com certeza.

 

A quantidade de pessoas em frente a prefeitura aumentou, agora está em torno de mil. Será que todas estavam no prédio da Oi ou ouviram falar que daria "boca livre" e foram conferir?

A quantidade de pessoas em frente a prefeitura aumentou, agora está em torno de mil. Será que todas estavam no prédio da Oi ou ouviram falar que daria “boca livre” e foram conferir?

 

Nessa hora, quando invasores passam a vítimas na voz da mídia e nos olhos e ouvidos do resto do povo, a Prefeitura e o Governo do Estado são culpados de tudo. Não só pela recente falta de teto, mas também pela falta de alimento, roupa… O que lembrarem em frente as câmeras e perante os ongueiros e assistentes sociais de plantão.

 

Realmente uma situação lastimável, com sujeitos dignos de pena se orgulhando por causarem tal sentimento.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • André Luís Marçal Júnior

    Ótima argumentação. O mais engraçado só no facebook vi vários comentários de pessoas que revindicavam moradia, que teriam casa em lugares próximos. O grande culpado disso tudo é o governo federal, por essa política de dar “esmolas” para quem não tem nada, ao invéz de dar emprego e educação, geram cada dia mais vagabundos que vivem sendo sustentados pelos impostos pagos pela classe trabalhadora.
    Obs.: “ou que toda a plateia do “Esquenta!” havia saído direto dos estúdios da Globo” Ri muito!

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      A ideia da frase era fazer rir mesmo. Sobre o Governo Federal, é inegável que suas políticas assistencialistas fazem um mal cultura ao país. Se sempre fomos preguiçosos e em busca de alguém para nos escorar, tudo isso só tem se agravado.