Carta à Mãe

Carta à Mãe

2

Mãe,

 

há tempos sinto a necessidade de uma conversa sincera com a senhora. Apesar dessa inanição que permeia nosso cotidiano há um tempo considerável, não significa que eu não tenha o que falar. Acontece que sua superioridade, mesmo que inocentemente, me inibe. Foi necessário um tempo considerável para que eu conseguisse começar a escrever esta carta – e mesmo assim não consigo considerar as palavras escolhidas dignas (ou justas) o bastante; foram concebidas mais pela insistência fruto do desejo irrefreável que seu humilde filho tem em lhe dizer: OBRIGADO.

 

Porém, antes de qualquer agradecimento, preciso me desculpar (o que se mostra, até agora, a tarefa mais árdua). E mesmo que algumas traiçoeiras lágrimas tentem me impedir embaçando minha vista, prosseguirei.

 

Em alguns momentos da minha vida, talvez por rebeldia ou burrice, cheguei a considerar a família uma ideia idiota (e isso começava com a figura materna – pilar fundante de toda instituição familiar). Hoje reconheço o quão idiota eu fui. Arrependo-me de cada momento que tornei desagradável por não considerar tão importante. Peço desculpas por nem sempre ter dado à senhora a devida importância que cada mãe merece receber. Entristeço-me pelos momentos em que ignorei sua vivência e insisti no erro; e você, talvez vencida pelo cansaço ou, até mesmo, querendo me dar uma lição, assistiu com melancolia seu filho errar. E o mais importante: esteve lá para me amparar. E como dói a lembrança de quando gritei com você e das mentiras que contei. E mesmo que já tenhamos superado todos esses momentos (graças a sua benevolência), não poderia deixar de me desculpar pelo menos mais uma vez.

 

Até pouco tempo atrás, considerava que a maternidade era uma mera questão. Ledo engano. Não precisei refletir tanto para concluir que ser mãe é, também, um sacrifício – talvez um dos maiores. Todavia, o que inocenta esse suplício e o torna belo é a ausência da culpa do filho. Não pesa sobre a vida do indivíduo o martírio de sua mãe (e nem poderia, a vida é algo incalculável, seria atroz demais agregar seu peso à existência).

 

Foi a partir dessa reflexão que passei a entender um pouco mais no que consiste a natureza de uma mãe. O sacrifício em prol de uma vida de um desconhecido é a maior prova de amor que o ser humano pode experimentar.

 

Ser mãe é uma experiência tão transcendental que chega a ser metafísica. Começa já na gestação, quando a mulher e seu filho desfrutam do máximo de aproximação. A mãe protege e garante a sobrevivência de seu filho. O filho depende plenamente da mãe. Após o nascimento, apesar da emancipação física, a dependência continua. É da mãe que vem o amparo, o alimento, a educação e, principalmente, o amor. Sempre disse que a mãe é nosso primeiro (e muitas vezes, único) amor.

 

Foi com você que eu experimentei uma das sensações mais angustiantes de minha vida. Algumas decisões me fizeram errar bastante em certo momento da minha vida. O mais grave era que eu não reconhecia. A angústia veio quando você descobriu. O momento mais marcante da minha vida, de fato, foi esse: quando eu vi a decepção que tinha causado. A pancada mais forte veio junto: as lágrimas que escorriam pelos seus olhos, o seu choro. Porém, não demorou muito e você destilou o mais refinado exemplo de amor: me perdoou, apoiou, me defendeu e acreditou em mim quando ninguém mais acreditava.

 

É a partir desse ponto que me considero apto para agradecer. Lembrar que serei eternamente grato por ter acreditado em mim e me apoiado apesar de todos os tropeços. Reconhecer que quando você teve que ser rude, foi para o meu bem. Agradecer por ter cada palavra amiga, cada carinho e conselho. E não há meios de expressar minha gratidão por ter me dado caráter e sensatez, me criar para ser um homem e ter comprado minhas brigas quando estas eram pesadas demais para mim. Seria impossível lembrar-me de cada fato pelo qual serei grato pelo simples fato de, desde o meu nascimento, você ter se dedicado ao meu bem. Então, basicamente, obrigado por ter me amado e por ser, além de mãe, uma amiga.

 
                                                                                                                

Com amor e carinho,
Charbel Selwan.

Charbel Selwan
Charbel Selwan estuda Engenharia de Produção na UFF. Amante de literatura e filosofia. Fã declarado de Albert Camus, Fitzgerald e Hunter S. Thompson. "E assim nós prosseguimos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente de volta ao passado.” (F. Scott Fitzgerald - O Grande Gatsby)

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.
 
  • Bella

    Ser gay não é um erro! Espero que sua mãe tenha entendido… bjss

    • Shibernalda

      Verdade, depois de um tempo ela passa a aceitar, fique bem !