Carpeaux: do todo à parte, do universal ao específico

Carpeaux: do todo à parte, do universal ao específico

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Quando se volta o olhar para a não tão recente história literária brasileira é possível perceber que, mormente entre os séculos XIX e XX, a trajetória da produção nacional sofre movimentos abruptos de cisão estilística.

 

Se após a Independência fomos servidos com os românticos, chamando para si a tarefa hercúlea de forjar uma cultura nacional – a exemplo do indianismo de Gonçalves Dias e José de Alencar, com a criação de símbolos de identidade nacional -, dado processo sucessório, organizado ou não, culminou naquela que seria a cesura mais profunda identificada na história da literatura brasileira; a chegada do Modernismo. Preenchido por um amálgama de estilos expressivos como futurismo e surrealismo, a modernidade artística e literária brasileira trazia consigo todo o arsenal filosófico, psicológico e sociológico que iria terraplanar a tradição. O cenário do relativismo e do reformismo ganhava ensejo no Brasil.

 

A passagem gradual, a filigranas, do imaginário poético no processo histórico, até seu assentamento e estabilização no seio de um povo leva tanto tempo quanto este precisa para encontrar seu lugar no mundo e ser capaz de dialogar com ele. É ordem espontânea em busca de uma imaginação moral. O conhecimento e a sabedoria transmitidos pelos mitos, a moral, o valores, os costumes, a tradição passada; o espírito supratemporal.

 

Pouco foram os críticos dispostos a tolerar e valorizar a complexidade do processo, e sua importância a despeito de projetos coletivos amplos e organizados tentando nos dizer quem nós somos. Um deles, Otto Maria Carpeaux.

 

Austríaco radicado no Brasil, Otto Maria Carpeaux chegou ao país em 1939, evadindo-se de Viena em fuga da perseguição nazista. Ignorante da língua portuguesa e leigo de tudo quanto fosse da cultura nacional, Carpeaux, superadas as dificuldades de sua chegada, dominou a língua – da qual, mais tarde, viria a demonstrar não só domínio técnico, mas estilístico – e colocou-se a fazer o lhe era vocação: jornalismo crítico.

 

Otto Maria Carpeaux foi não só responsável pela divulgação e publicitação de autores brasileiros na imprensa e no mercado editorial, mas foi também mentor involuntário e referência de um par de gerações e desmistificador das letras tupiniquins no momento em que não só as comentava e criticava, mas as estudava em profundidade, sempre dialogando com o pensamento universal e com literaturas estrangeiras.

 

A se considerar a Semana de 22 como o marco maior de transformação das artes brasileiras – Literatura aí inclusa –, e que Otto surge no cenário da crítica nacional posterior a esse período de maior efervescência, sua visão não se torna tão sujeita a obnubilações de contexto, como estiveram seus pares de ofício. O distanciamento permitiu a Carpeaux a visão ampla, contextualizada e assentada num processo cronológico – permitiu a observação do todo até ali. Rendendo-lhe então, ainda em 45, 6 anos após sua chegada ao país, a Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira (RJ, Serviço de Documentação do MEC).

 

Considerando seus ensaios publicados ao longo de quase quatro décadas de atividade jornalística, Carpeaux cumpriu também o papel de filtro, de mediador – natural da atuação do crítico, quer queira ele ou não, como apontou Northrop Frye, que “é missão do crítico público mostrar como um homem de gosto usa e avalia a literatura, e assim apontar como a literatura deve ser consumida pela sociedade”. Depondo ainda a favor do austríaco o caráter ensaístico das análises, que iam tanto mais ao fundo da obra quanto mais os periódicos dedicavam espaço a essas seções de suas páginas. Condição que ao longo do tempo vem regredindo às notícias da moda e às manchetes do dia, à guisa do mercado jornalístico de simples resenhas puramente episódicas.

 

No ensaio intitulado “Uma Fonte da Filosofia de Machado de Assis”, publicado em seu livro “Respostas de Perguntas”, Otto dá mostras do calibre de sua pena. Buscando analisar um tema em específico, Carpeaux excetua todos os outros elementos que compõem uma obra e são, geralmente, abordados pela crítica, e busca tão somente elucidar o caráter filosófico contido em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.

 

Privando-se de comentar a caracterização da sociedade carioca feita por Machado, o caráter não linear da narrativa, o autor metalinguístico e outras questões contidas na obra, Carpeaux pousa os olhos sobre aquilo que seria o princípio do “humanitismo” machadiano, mais bem acabado em Quincas Borba.

 

Machado foi leitor assíduo de Schopenhauer, e este, por sua vez, foi grande admirador de Leopardi. Voltarei a esse ponto. Em todo caso, o autor do delírio de Brás Cubas reconhecido teria em Leopardi mais que um poeta melancólico e sim um pensador poético ao qual o ligavam profundas afinidades. O delírio de Brás Cubas é da mesma Lucidez das “Operette morali” que são o documento principal da filosofia leopardiana (CARPEAUX, 1953, p.3).

 

Erudito, o ensaísta possuía vasta biblioteca em Viena, cujos livros só conseguiu resgatar alguns, em sua fuga do nazismo. Seu referencial cultural era o aspecto diferencial na construção de sua análise. Prezando sempre por estruturas discursivas dialéticas, o autor frequentemente se utilizava do método de oposição e comparação.

 

Na análise da filosofia contida no romance de Brás de Cubas, Carpeaux vai buscar no poeta Italiano Giacomo Leopardi e no filósofo alemão Schopenhauer a base de sustentação para o elemento por ele identificado na obra. Confrontando as características de cada um, o crítico vai encontrando pontos convergentes em suas obras, bem como mostrando a relação entre eles, demonstração não só de capacidade analógica, mas também conhecimento histórico, trazendo ao leitor a conhecimento o diálogo direto entre os distintos autores – e as influências exercidas de um sobre o outro. Relação que Carpeaux foi buscar em Croce, para estabelecer o fio histórico entre literaturas atemporais, cuja substância fundamental transcende o tempo e o espaço e pode encontrar com seus pares em qualquer período ou geografia.

 

Carpeaux na capa da revista José, em 1978.

Carpeaux na capa da revista José, em 1978.

 

Seu método não só analisava o tema-objeto, como apresentava as fichas de quem a compunha: era faustosa a lista referencial e o universo de possibilidades analíticas a que o velho austríaco poderia recorrer. Se em Croce Carpeaux encontrou a arte como meio de sobrevivência do espírito hegeliano, em Weber assimilou a compreensão sociológica das épocas e a individualização estilística dos autores, permitindo-os não só como fruto do meio, mas como entes dotados de alguma expressão genuína, e de Dilthey assimilou a necessidade de compreender os fenômenos humanos e sociais, buscando-se para isso não as causas, mas a intenção e o sentido subjacentes a eles, de modo que a literatura fosse não um objeto isolado, mas um elemento explicativo da realidade. Para o austríaco o estudo e compreensão da literatura era uma forma de compreender o mundo.

 

Era de pasmar o caráter enciclopédico da escrita de Carpeaux. Isso irritava certos eruditos provincianos, habituados a se consagrarem pelo simples aspecto quantitativo de citações em seus trabalhos.

 

Finalizando seu ensaio, Otto enfim define a relação entre Leopardi e Machado, citando ao longo do ensaio personagens e passagens de obras que ilustram aquilo que seria o ponto nevrálgico da filosofia de ambos – a ponte que levou Machado à sua verve filosófica. A descrença na vida, o pessimismo por dias melhores neste mundo do jeito que é.

 

Machado de Assis embora espirituoso, não foi um cético; ele também – “a vida é boa” – foi materialista. Em Leopardi também se encontra o motivo que sugere a impressão de cepticismo ao leitor de Machado de Assis. Como materialistas epicureus, o erudito grecista Leopardi e “mulato grego” Machado seriam “pagãos”; mas na verdade não podem existir pagãos depois do advento do cristianismo. Fica, até nos anticristãos, estímulo da inquietação espiritismo, do cepticismo pascaliano. Machado foi leitor de pascal, Leopardi também foi leitor de Pascal; o famoso “Pari” inspirou-lhe as demonstrações lógicas do diálogo de vendedor de almanaques, sobre o valor do futuro. Mas por serem pascalianos, ainda não eram cristãos: Leopardi consolava-se com a “morte eterna” (“a matéria liberta para sempre da alma extinta”, diz o nosso poeta), e o outro com o pensamento de não ter transmitido “a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Egoísmo? O “epicurismo” lendário é egoísmo, mas o verdadeiro epicurismo não é. O “cântico do galo silvestre” ensinou ao poeta, despertando-o do sono das “imagens vãs”, a seguir o seu fado, “com ânimo forte e sereno”. O outro, quando o galo da madrugada o despertou da agonia, pôde dizer: “A vida é boa”. Pois então, não havendo mais futuro, é boa. (CARPEAUX, Otto Maria, 1953, p.8).

 

Ao privilegiar a dimensão filosófica do romance, evidencia a ideia subjacente à história pura e simples. É a mensagem que confere à obra seu caráter transcendente. Detendo-se da necessidade de comentar o enredo, as alegorias ou estrutura do romance, tanto mais se distancia do caráter resenhista do contexto crítico-jornalístico que percorre esses dias.

 

Apegando-se ao substancial, à visão de mundo ali exposta por Machado, estabelecendo diálogo deste com a poesia italiana e a filosofia alemã, Carpeaux evidencia o imaginário literário brasileiro trazendo não o que o autor diz sobre o Brasil, mas ao homem. Estabelecendo o fio espiritual condutor do tempo – fazendo o diálogo do todo e a parte, do universal e específico, do Brasil e do mundo.

 

Referência:

 

CARPEAUX, Otto Maria. Respostas e Perguntas. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1953. Os Cadernos de Cultura.

Laio Brandão
É jornalista de formação e mestre em Literatura pela Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais. Capixaba, trocou o litoral pelo interior, pois acha que não há vida saudável em meio à ventania, sol escaldante e maresia. Escreve menos do que gostaria, pois ainda não leu tudo que deve. No twitter, @laiobrandao.

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