Cabo Daciolo quer a cabeça de Eduardo Cunha, mas… <br />Quem pediu sua opinião?

Cabo Daciolo quer a cabeça de Eduardo Cunha, mas…
Quem pediu sua opinião?

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Cabo Daciolo, aquele mesmo que foi expulso do PSOL, depois de eleito deputado federal pelo partido, pede a saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados, em nome do povo evangélico. Onde está o erro? Errado é quem o leva a sério.

 

Daciolo tem um ponto: é obstinado. Só que tal obstinação não advém de uma característica positiva sua, bem ao contrário. Ele marca posição e não arreda pé em suas posturas intransigentes – que em certos momentos podem ter sido corretas, visto que até relógio quebrado acerta duas vezes ao dia – não por ser dotado de convicção incomum mas por faltar-lhe o senso do ridículo.

 

Ora, um sujeito mais exasperado que Silas Malafaia em cada palavra que diz, que termina todo discurso com um jargão (Meu Deus, um jargão, na Câmara dos Deputados, não no Zorra Total!), só pode ser desprovido de sensos. Infelizmente, este mesmo sujeito tem um mandato legislativo e, ao que parece, alguma base de apoio entre evangélicos.

 

(Ainda sobre a estética de seu discurso: Malafaia sabe a hora certa de dosar a ênfase em seus discursos e por isso mesmo é um bom orador, ao passo que Daciolo não passa de um desesperado por atenção. Espero que, via de regra, não a tenha.)

 

Mas cabe, independente de sua irrelevância como deputado, analisar aqui seu discurso contra Cunha, na tribuna da Câmara dos Deputados, em 29/10/2015. Na ocasião, ele pediu que o presidente da Câmara, arrolado em denúncias de evasão de divisas, renunciasse a seu posto. E pior, fez isso em nome do povo evangélico. Metendo-se numa briga para qual não foi chamado e, provavelmente, ganharia mais ficando quieto.

 

As denúncias contra Cunha florescem justamente quando o pleito do impeachment da presidente Dilma ganha força, com o pedido elaborado por Janaína Paschoal e Hélio Bicudo (convocado estrategicamente para obter maior aceitação entre a elite intelectual brasileira, pois esquerdista como ela) sendo comentado por toda parte, ao contrário dos anteriores, e claramente vêm para servir aos interessantes de PT e Palácio do Planalto. Diante deste cenário, ainda mais para um amador (Daciolo é novato, ou não?), uma fala dura contra alguém que até o momento (em 2015) tem-se postado como oposição eficiente a um governo decrépito que afunda o país é imprudente.

 

Inevitavelmente, neste episódio, Daciolo serve aos interesses do PT. Não sei se é bem essa sua intenção, imagino que não.

 

Independente de sua estética ruim, de seu desespero frente ao microfone, ou mesmo da luta contra o PSOL para manter o seu mandato (única coisa que facilmente aponto como positiva na trajetória de Daciolo, o fato de ter envergonhado o PSOL com sua postura, a ponto de ser expulso, evidenciado que o partido da tolerância não é tão tolerante assim), vejo-o como alguém despreparado para o cargo que exerce.

 

Ele poderia continuar seu jargão e exasperação e mudar esse perfil “despreparado”, passando a merecer maior atenção – pensei que ocorreria algo parecido depois de vencida a luta com o PSOL (ele ficou com o mandato, afinal, não o partido). Como ainda está distante disso, urge dizer-lhe – colei o comentário abaixo em sua página no Facebook – a verdade de sua condição, principalmente quando arrisca-se a falar em nome de 20 milhões de brasileiros:

 

Cabo Daciolo, o senhor não está autorizado a falar em nome de todo o povo evangélico. Se tanto presa ética e moral, e é honesto, como gosta de alardear, não deveria cometer tal desonestidade intelectual. Eu, por exemplo, sou cristão reformado e não defendo que Cunha deixe seu mandato, principalmente neste momento, antes de as investigações que envolvem seu nome serem findadas. Por fim, acredito que se, novamente, o Sr. presa tanto a ética e tem por objetivo fazer um mandato sério e de qualidade, deveria urgentemente debruçar-se sobre livros de ciência política, quiçá de História.

 

O deputado tem certeza da culpa de Eduardo Cunha nos crimes em que é acusado? Se sim, possui mais informações que o próprio STF e deveriam avisar os ministros, para que poupem seu tempo em julgar o atual presidente da Câmara, visto que Daciolo já o fez.

 

Daciolo pega duas estéticas importantes para a direita, militarista (é Cabo dos Bombeiros) e evangélica, junta as duas em sua salada estragada e as redireciona para a esquerda, com um discurso que não deve em nada ao PSOL, em termos de histrionismo. Veja Jean Wyllys e Chico Alencar ao microfone, e depois Daciolo, para comprovar.

 

Cabo Daciolo foi expulso do PSOL, mas a estética de seu discurso ainda é inteirinha do partido. Assim como o conteúdo, neste caso específico de Eduardo Cunha.

 

Como deputado estreante que é, e ainda confuso quanto as ideologias que deseja seguir (um cara que se elege pelo PSOL com um discurso de “Deus é fiel” não está exatamente por dentro do assunto), Daciolo deveria abster-se com relação ao caso Cunha. Ou ao menos manifestar-se de forma pessoal, expressando sua opinião particular. Quando tenta falar em nome do povo evangélico, erra desastrosamente.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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