Brincadeira de Polícia e Bandido – O vilão e o herói

Brincadeira de Polícia e Bandido – O vilão e o herói

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Nos últimos anos, os policiais passaram a ser os grandes vilões da nossa sociedade. Em alguns casos, os homens que são pagos para nos proteger nos agridem e se corrompem. O bandido perdeu esse posto de vilão ao passo que a sociedade interpreta suas ações como o esperado de sua posição social, enquanto uns policiais fazem o inverso do que se espera deles. Segundo o Secretário de Direitos Humanos, em entrevista a Época On-Line (em 27/02/2009), a polícia é “corrupta, violenta e incompetente”.


Em um dos trechos da música “Polícia e Bandido”, interpretada pelos cantores Marcelo D2 e Leandro Sapucahy, é narrado um diálogo entre um policial e um bandido. A conversa é sobre o pagamento de propina em troca de vista grossa dos policias. O trecho diz o seguinte: “Você levou tanto dinheiro meu, agora vem querendo me prender.” As exposições na mídia de casos em que policiais chegam a capturar traficantes de alta periculosidade e dão preferência a soltá-los mediante pagamento de propina, do que levá-lo preso conforme a lei, fizeram com que a sociedade, hoje, culpe a corrupção policial como um dos fatores que corroboraram para a atual situação da sociedade carioca. As autoridades e a sociedade civil discutem soluções de curto prazo para a situação e parecem não chegar a um consenso. Parece que falamos de outra música, desta vez de Gabriel, O Pensador, onde ele cita em uma estrofe: “A paz é contra a lei e a lei é contra a paz”.


Numa Cidade Muito Longe Daqui (Polícia e Bandido) – Marcelo D2 e Leandro Sapucahy



Um dos fatores que contribui para a marginalização da polícia é a má remuneração. O salário de um Policial Militar, no Rio de Janeiro, varia de R$ 500,00 a R$ 800,00. Mas isso é só a ponta do iceberg, a corrupção começa nos altos escalões. Os descasos do próprio governo e os descumprimentos das leis que regem nosso Estado colaboram para que a corrupção seja disseminada como um vírus, atingindo as partes mais fracas, a polícia e a sociedade. Podemos ver isso com clareza nesse trecho da música em questão: “É que o judiciário está todo comprado e legislativo está financiado, e o pobre operário que joga seu voto no lixo, não sei se por raiva ou só por capricho. Coloca a culpa de tudo nos homens do camburão, eles colocam a culpa de tudo na população.” Luiza Nagib Eluf, membro da Procuradoria Criminal do Ministério Público paulista, afirmou em 2006: “A elite no Brasil quer a Polícia corrupta porque não quer cumprir as leis.”


Expondo aqui a fala de MV Bill: “O sofrimento de um Falcão é combustível para o surgimento de outros. Enquanto as crianças não tiverem exemplos de vida descente continuarão achando que o correto da vida é ter aquilo que quer a qualquer preço, que o tráfico ou o roubo é tão digno quanto o trabalho como assalariado”. Talvez o problema esteja nesta última palavra da frase anterior. Um menino consegue, mesmo sem sair de perto da sua casa, na favela, receber ao fim de uma semana de “trabalho” uma quantia bem acima do que poderia receber em um mês de trabalho assalariado. Isso faz com que os jovens queiram, a qualquer custo, andar de carro, moto, comprar roupas de marcas famosas e ter as mais belas mulheres.


Luxo na favela! Após a ocupação da polícia, casa de traficante serve de playgound para as crianças. | Jeferson Bernardes - AFP

Luxo na favela! Após a ocupação da polícia, casa de traficante serve de playgound para as crianças. | Créditos: Jeferson Bernardes - AFP


É, de fato o “trabalho” para o tráfico é um tédio só. Aliás, no mundo da malandragem o traficante é visto pelos assaltantes como uma figura menor. O assaltante planeja o assalto, convoca um grupo de assaltantes no morro e parte para o ataque. Terceiriza o crime, só vai na boa. E depois gasta o dinheiro do assalto com mulheres e festas. Ou distribui a renda entre os parentes. Não precisa se esconder. Vai para o morro vizinho, e acabou. Já o traficante tem que ficar no morro, no seu território, manter o estoque de cocaína, de armas… Tem que comprar a polícia para não morrer, ter relações com políticos e agradar à comunidade. Enfim, um monte de “responsabilidades” que torna essa vida muito chata. O bandido mais experiente, que quer grana fácil, vida boa, não quer saber do tráfico.


Vida fácil, grana boa e não ter “responsabilidades” é, basicamente, o que a maioria das pessoas almeja, e quem alcança esse estilo de vida acaba virando um verdadeiro “ídolo”. Virar jogador de futebol, ser modelo, grande executivo ou empresário de sucesso exige uma vida de estudo, dedicação, disciplina e custos. Custos: esse é um dos grandes problemas de crianças e jovens que vivem em comunidades carentes. Cursar uma faculdade, ou até mesmo conseguir terminar o ensino fundamental, sem ter que conciliar estudo com trabalho, é uma tarefa difícil para a maioria dos jovens, adolescentes e crianças de classe baixa. O tráfico muitas vezes acaba sendo o caminho mais “fácil” para a saída de uma vida miserável.


É incrível como uma criança que mora em uma favela não discrimina os “grandes” bandidos e não consegue ver com bons olhos policiais que estudaram, fizeram concurso público e ganham um salário de R$ 800,00.


Em um trecho do texto Cultura “não-contabilizada”, da autora Ana Paula Pontes, encontramos uma entrevista feita pela jornalista Neide Duarte, da TV Cultura, com crianças de uma favela do Rio de Janeiro. A reportagem falava sobre o que as crianças daquela localidade gostariam de ser quando crescessem. Uma delas respondeu: “Quero ser bandido, acho legal!”. A autora comentou: “Vejam só, que loucura. Bandido, na visão daquela criança, é uma profissão que pode levá-la a ficar famosa e até aparecer na TV.”

Léo Monteiro
Léo Monteiro é publicitário e consultor de comunicação política e cultural. Terráqueo, brasileiro, mangueirense, carioca e botafoguense. No twitter: @leandromonteiro.

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  • Fernando Henriques

    Leandro e Diego, parabéns pelo trabalho, ficou realmente bom.

    Esse lance de vilão e bandido, no macro, parecia até estar sendo amenizado com a introdução das UPP’s, mas sabemos que falando do estado do RJ, ainda falta muito pra esse quadro mudar. O caso do menino Juan, supostamente morto pela polícia, mostra isso.

  • http://deusamaamusica.blogspot.com Walter

    É.. infelizmente essa é a dura realidade da nossa cidade. Porém nós não poderemos mudar a nossa cidade se essa mudança não começar na gente.

  • http://www.tetrafilmes.com.br Rafael Ramos

    Bem antes de tudo dando os parabéns para o Leandro pela bela matéria. Foi muito feliz nas abordagens sobre o assunto. Eu me interesso muito pela discussão, jamais quando falamos do socio-político-cultural. Um dos pontos da matéria que gostaria de abordar é sobre a classe menos abastada não gozar de simpatia pelas autoridades. Esse fator é cultural, já que fomos colônia e sempre sofremos repressão da metrópole com os nativos (índios) e negros. Depois em outro período sofremos uma ditadura militar, então concluímos que sofremos mazelas com as autoridades. Claro que não esqueceremos o fator social, mas esse já é decorrente da concentração de renda, pois é regra básica do capitalismo para um ter muito é por que muitos não têm nada. Enquanto idolatramos figuras como: Eike Batista, Hebe Camargo, Fausto Silva e por ai vai… estaremos atestando e confirmando que é certo que pessoas têm que dormir na rua para essas celebridades podarem ter torneiras de ouro.

    Um outro fator é da própria população que absorve os valores errados, pois sempre adotam como ideologia a ideologia de estado, ou seja, nunca lutam pelo coletivo, sempre o sonho de cada cidadão é de ser o super-homem ou a celebridade, e nunca lutar pela coletividade. Um alerta é que se olharmos na natureza vamos sempre comprovar que o formigueiro é sempre mais forte que uma formiga, então não podemos ter como exemplos para as crianças ser o cara, ser o super-heroi, ou o super-bandido e sim ser um ser pensante que faz parte de uma comunidade que é forte. Já que a cidade de Esparta, Atenas e Troia eram fortes por ter uma comunidade forte.
    Mas para ter um povo crítico teremos que ter educação, entramos em outro ponto do texto, poios o governo é igual a elite e ambos resultam no “PODER”, e o “PODER” por ser “PODER” é corrupto!

    É onde entra novamente a ideologia de estado do filosofo Louis Althusser, em que a elite sempre será elite por ela controlar e formar os aparelhos ideológicos de estado, ou seja, filho de elite será educado para controlar, comandar e gerenciar, enquanto os filhos dos pobres são educados para servir e trabalhar. Parem para pensar! por que é passado para a criança do subúrbio na escola, e igrejas que elas tem que servir, seja a Deus ou o Estado, en quanto as crianças ricas aprendem a conhecer arte, literatura e sempre ter o senso crítico?

    Concluindo esse meu comentário quase matéria, rs,rs… Vamos ler mais, cuidar mais dos nossos e sempre passar informação e conteúdo para quem não tem. Como Darcy Ribeiro sempre reproduzia o povo sem educação é um povo dominado.
    Obrigado!

    • Fernando Henriques

      Putz, muito válido esse seu comentário, foi quase uma matéria mesmo. O povo vive o capitalismo, mas talvez nem o conheça realmente, não sabe as consequências. Porém, apesar do histórico de repressão que temos no país, precisamos lutar para mudar nossa história pessoal a cada dia. E isso não é fácil, mas é possível, basta não nos conformarmos em apenas servir a elite.