Bellator 138: De volta ao UFC 1

Bellator 138: De volta ao UFC 1

0

Acontece hoje 138º edição do Bellator, segundo maior evento de MMA da atualidade — o que não significa muita coisa se considerarmos o abismo que o separa do UFC. No card principal, o brasileiro Patrício “Pitbull” defende o cinturão dos penas em disputa contra o alemão Daniel Weichel e Michael Chandler, um dos maiores nomes da organização, tenta se recuperar de três reveses. Mas, o que tem realmente chamado a atenção de todo mundo para esta edição do Bellator é a luta principal, envolvendo dois coroas: “Kimbo Slice” (41) e Ken Shamrock (52).

 

Estranho? Nem um pouco. Articulado por Scott Cocker, que sabe tão bem quanto os japoneses montar um bom show, este main event remonta o início do esporte nos EUA, com a primeira edição do UFC em 1993. Bellator 138 e UFC 1, inclusive, tem um protagonista em comum. Quem não se lembra de Royce Gracie vs. Ken Shamrock I? Não à toa, o evento desta noite tem nos cativado com certa aura saudosista, apesar das ressalvas recorrentes de se tratar de um freak show (discordo).

 

Explico: Kimbo vs. Shamrock é uma luta que basicamente confrontará estilos, assim como acontecia – teoricamente – em todas as lutas dos primeiros UFCs. Ora, foi para confrontar diversos estilos marciais contra o Gracie Jiu-Jitsu que Rorion Gracie criou o UFC. Antes disso, não só Rorion, mas seus demais irmãos e primos lutavam em quintais, academias ou na própria rua para provar a superioridade de sua arte. Rorion, em diversos relatos, já contou que lutava quase que semanalmente quando chegou aos EUA, na década de 1970, em sua própria garagem. Para conquistar alunos, ele precisava provar que era bom, que sua arte era boa. Pouco a pouco Rorion galgou espaço e conseguiu abrir uma academia, onde posteriormente receberia seu irmão Royce Gracie para ajudá-lo na terra do Tio Sam. O restante da história, bem como seu início, lá no começo do Século XX, no Rio de Janeiro (os “Desafios Gracie”), todos conhecem. O Bellator 138, sem querer, alude esta época, o começo dos anos 1990.

 

Alguns seres vivos perderam o trem dessa história (o desenvolvimento do MMA como esporte), que ocorreu sob os olhares de fãs hoje considerados underground, não custa remontar o cenário originário para eles. Não é o que imaginou Scott Cocker, que quer apenas entregar um bom entretenimento e receber uma boa grana por isso, mas é o que sem querer acontecerá. Quem não acompanha o esporte e estará sintonizado na Fox esta noite, dada a grande popularidade de ambos os protagonistas do show, verá bons lutadores antes deles, profissionais de alto nível no auge de suas carreiras (ou pelo menos três ou quatro deles). A chance de se apaixonarem é grande – torçamos para que Pitbull e Chandler estejam inspirados.

 

Porém, sobre a luta principal em si, posso contar que mesmo com idade avançada, Kimbo e Shamrock são interessantes.

 

De onde vem Kimbo Slice mesmo? Por motivos distintos aos de Rorion, Kimbo já lutou em diversos garagens americanas. Suas lutas ficaram famosas no Youtube a tal ponto que, em dado momento, para leigos que o assistiam, ter a coragem de ao menos enfrenta-lo era o próprio desafio. Com suas mãos rápidas e a ajuda de seus segundos algumas vezes (vocês sabe como são essas lutas de rua que envolve apostas diretas), Kimbo nocauteou uma pá de aventureiros. Em 2007, migrou para o MMA profissional como estrela do EliteXC, evento que o abrigou – dois anos depois de seu algoz nos desafios amadores, o policial Sean Gannon, que o venceu em luta registrada no Youtube, ter estreado no UFC contra Branden Lee Hinkle, que o derrotou na decisão. Lá, contra lutadores escolhidos a dedo, construiu um cartel de 4-1 até chegar ao UFC via TUF.

 

Desde o Youtube, vimos que o lutador nativo das Bahamas é basicamente um boxeador. Tem certa técnica, vá lá. Diria até que, pela forma que adentrou nos mundo das lutas, tem até um talento natural para a coisa. Mas no octógono não entregou nada além disso, tendo inclusive sido nocauteado por um jab em luta que praticamente faliu o EliteXC. Apesar de ter dado algumas quedas em Matt Mitrione e Houston Alexander, nas duas lutas que fez pelo UFC, não dá para credenciar Kimbo por algo além do que seu boxe.

 

Já Ken Shamrock foi lapidado como lutador desde a infância por seu pai adotivo, o lutador de wrestling Bob Shamrock. Pois é, nem todos se lembram, até por que Ken nunca ajudou, mas ele é um grappler. Em seu início no esporte, era apresentado como representante do estilo Shootfighting, que eu não poderia definir muito bem aqui. Mas por sua carreira no Japão, lutando pelo Pancrase, o classificaria como adepto do Shoot Wrestling, estilo de luta agarrada popular no Japão, que prioriza, além das quedas, chaves de pé e perna, estrangulamentos e chaves americanas. Tanto o é que, no UFC 1, foi Shamrock o primeiro a tentar uma finalização. Ele, por cima, puxou uma chave de pé reta que, facilmente defendida por Royce, o deixou em maus lençóis até ser finalizado no pescoço.

 

O estilo de luta agarrada do Shoot Wrestling não prioriza as transições na luta de solo, grande diferencial do Jiu-Jitsu, aliás, mas fornece ferramental suficiente para obtenção de finalizações. O americano, em sua longa carreira, conseguiu 23 finalizações num total de 28 vitórias (82%).

 

Temos, então, uma luta entre um striker e um grappler. Tal qual Royce versus seus 11 primeiros adversários no UFC, à exceção de Shamrock e mais três.

 

Sendo uma luta fora do maior evento do mundo, e com lutadores que não estão inseridos em categoria alguma do próprio Bellator, que não possuem maiores pretensões, é como se os fãs dessem uma pausa nas análises e especulações sobre lutas “sérias” e se entregassem novamente ao “primeiro amor”, apostando em que estilo sairá vitorioso. E, além disso, a curiosidade pela luta passa também pela aposta de quanto tempo a mesma durará. 15 minutos? Não mesmo. Alguém perderá antes, seja para o adversário ou para o próprio gás.

 

Kimbo não chegou a ser formatado como um lutador de MMA, apesar das passagens por TUF e ATT, e Shamrock é mais velho que o próprio MMA (quando lutou no UFC 1, já tinha 3-0 em seu cartel). “O que acontecerá?” É essa pergunta que nos levará para frente da TV hoje à noite. E, veja só, não é essa mesma pergunta que nos leva a assistir cada main event do UFC?

 

Kimbo Slice vs. Ken Shamrock é o show pelo show, meus amigos, preparado sob medida para uma sexta-feira pré-UFC. Aproveitem!

 

Palpite para a luta:

 

Shamrock finaliza com uma chave de pé. Na verdade, não é bem um palpite, pois não sei se ele tem condições físicas de aplicar uma queda em Kimbo. Está mais para uma torcida mesmo. E vocês, torcerão para quem?

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

Leia também...

 
Dê mais vida a Feedback Mag., para sua imagem aparecer ao lado de seu nome nos comentários, cadastre-se no Gravatar usando o mesmo e-mail com o qual você comenta aqui na revista. Leva 2 minutos.