As verdadeiras séries brasileiras

As verdadeiras séries brasileiras

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Sou viciado em televisão e isso não é nenhum segredo, tenho TV por assinatura, porém não largo os canais abertos por nada. Acredito que existe espaço para tudo e por isso tento mesclar bastante. Ainda assim, algumas programações são mais populares no meu gosto, como as séries.


Populares no canais fechados, as séries nunca concorreram com as novelas nas emissoras de sinal aberto. Nem sequer tínhamos produções para avaliar a qualidade entre uma e outra. O que tínhamos era as chamadas minisséries, em sua maioria globais, geralmente exibidas no começo do ano (férias dos demais programas). Eram na verdade pequenas novelas, onde as semelhanças vão dos enredos aos elencos extensos.


Deste formato saíram algumas produções de qualidade, trabalhos que apreciei muito, como A Muralha e A Casa das Sete Mulheres. Ambas se destacaram pelo contexto histórico e elementos diferenciados nos roteiros, fugindo do perfil “novela” que o brasileiro tanto gosta, ou foi educado a gostar.


De Bento Gonçalves a Giuseppe Garibaldi, A Casa das Sete Mulheres foi uma minissérie e tanto.

De Bento Gonçalves a Giuseppe Garibaldi, A Casa das Sete Mulheres foi uma minissérie e tanto.


Mas… Nos últimos tempos tenho percebido na Globo uma disposição em realmente produzir séries, nos formatos originais estrangeiros mesmo. Isso pode ser visto em A Cura, que estreou em 2010 e foi protagonizada por Selton Mello. Um trabalho digno de ser considerado uma série. Selton Mello esteve muito bem no papel do médico Dimas, e a série teve uma boa repercussão. Tanto que até ouvi alguns amigos, que não curtem muito televisão, dizendo que iriam baixar os episódios para assistir.


Já no ano passado, essa inclinação da emissora carioca em fazer, ou apoiar, trabalhos no reais formatos de uma série ficou mais evidente. Estrearam A Mulher Invisível, Macho Man e Tapas & Beijos, cada uma com seu estilo, mas todas legítimas séries.


Das três, Macho Man é a mais “fraca”, porém não é ruim. É sim um pouco caricata, mas tudo bem, tem seu público. O roteiro não me agradou muito, apesar do tema ex-gay ser novo e interessante, mas com Jorge Fernando e Marisa Orth em cena, acaba saindo uma risada ou outra. Em relação a legitimidade como série, nos formatos “originais”, não foge, mas também não apresenta nada de novo e não traz uma mescla entre o estilo estrangeiro e o nacional, como Tapas & Beijos.


Tem algo mais nacional e mais sitcom do que Tapas & Beijos? A série é uma comédia “classe A”, com o melhor estilo carioca e Globo de fazer rir, porém no formato de série que estamos enaltecendo. São muitos méritos, do roteiro ao elenco, mas a caracterização merece ser comentada. Se você andar somente um pouco por Copacabana, lembrará do Rei do Beirute, Djalma Noivas, La Conga e até do Seu Chalita (Flávio Migliaccio está muito bem no papel).


Seu Chalita entre Sueli e Fátima, eita velhinho danado.

Seu Chalita entre Sueli e Fátima, eita velhinho danado.


A Mulher Invisível não precisa dos meus elogios. Inspirada no filme homônimo, que já foi muito engraçado, a série aborda o mundo de Pedro, um publicitário que tem a mulher ideal em seus pensamentos (ou seria real) e agora também uma esposa.


As situações criadas em cima da “bigamia” do protagonista são incríveis, o roteiro é muito original e a ambientação da série é algo novo para as produções nacionais. Não me recordo de outra produção para TV utilizando o ambiente de trabalho de uma agência de publicidade como parte do seu universo. É algo sempre muito interessante – temos um pouco disso no filme Se Eu Fosse Você. Lá fora é comum vermos filmes ambientados neste mundo (O Ex-Namorado da Minha Mulher, 40 dias e 40 noites).


Ah, Selton Mello mais um vez arrasa. O Pedro da série é ainda mais hilário que o do filme, e o personagem é complicado, passa por momentos difíceis para no final explodir em êxtase com uma grande ideia. O restante do elenco também garante, com Débora Falabella fazendo o básico muito bem (sua personagem não necessita de muito mais), Alamo Facó confirmando seu talento com Wilson (melhor amigo de Pedro, o mais engraçado da série) e Luana Piovani também arrasando como uma verdadeira mulher dos sonhos de qualquer homem. A série foi tão bem que teve duas temporadas no mesmo ano.


Força-Tarefa e Aline, sucessos anteriores


Força-Tarefa é uma típica série policial, como as clássicas americanas Cold Case, CSI, The Closer (Divisão Criminal no Brasil, passa no SBT), porém, no nosso cotidiano. Este formato policial tem boa aceitação do público, que após muitos filmes e até novelas explorando este universo, com a nossa bandidagem e os nossos policiais, já está aclimatado.


A série tem um clima meio nebuloso que é interessante.

A série tem um clima meio nebuloso que é interessante.


Protagonizada por Murilo Benício, a série já teve três temporadas e marcou bons índices de audiência. Por ter estreado em 2009 e ainda hoje especularmos a vinda da quarta temporada, podemos até afirmar que é a série “legítima” de maior sucesso até então (A Grande Família não conta).


O formato policial rende tanto por aqui que mesmo antes de Força-Tarefa, da Globo, a Record fez ligeiro sucesso com A Lei e o Crime e agora busca isso novamente com uma nova série do gênero, estrelada por Milhem Cortaz, Fora de Controle.


Aline também é um sucesso antigo, sendo a primeira temporada exibida no fim de 2009. A série tem como base um relacionamento triplo atípico, porém mais aceito a cada dia. E o brasileiro gosta destas coisas, dois homens e uma mulher, uma mulher e dois homens, Jorge Amado que o diga.


Sobre o enredo, não posso dizer que é clichê, ainda que não seja um absurdo de original. Fica no meio termo. O mais interessante é que a produção tem as características de séries mesmo, com episódios dinâmicos e poucos personagens na trama. Apesar da segunda temporada ter sido interrompida prematuramente, a série teve o seu momento.


Pedro Neschling, Bernardo Marinho e Maria Flor, a trinca que protagoniza Aline.

Pedro Neschling, Bernardo Marinho e Maria Flor, a trinca que protagoniza Aline.


Um sitcom de qualidade


As séries parecem ser cada dia mais comum na TV aberta, ainda que não nos principais horários. Neste ano estreou o melhor sitcom em exibição em nossa TV no momento, Louco Por Elas. Com uma fórmula que abusa das relações familiares não naturais, e personagens “desgustáveis”, a série, que é um dos mais legítimos sitcoms já produzidos por aqui, parace agradar o público.


No elenco temos Du Moscovis, Glória Menezes (está hilária) e Deborah Secco; além das novatas Luisa Arraes e Laura Barreto. Bons nomes em um bom roteiro, com piadas leves e situações loucas.


Leonardo Henrique e Giovana, o estranho ex-casal da série.

Leonardo Henrique e Giovana, o estranho ex-casal da série.


Os atores absorveram a ideia de série, e estão atuando bem diferentes do que estamos acostumados a vê-los fazer em novelas. Sei que tudo é uma questão de roteiro, enredo, mas existe uma essência ali, um diferencial. As partes cômicas são cômicas, sem exageros. Você se diverte assistindo, não gargalha, mas se diverte com toda a situação. Aos que não estão acompanhando, fica a dica para conferirem o próximo capítulo (sempre as terças, na Globo).


Este universo das séries é muito abrangente, nos canais fechados muitas séries de qualidade já foram exibidas e outras que estão para estrear prometem. Preamar, por exemplo, irá estrear dia 1 de maio na HBO. É mais uma boa produção nacional bancada pelo canal, eles já sabem como fazer. Outra dica interessante é o hilário Os Buchas, com Gregório Duvivier. A série passa na MultiShow e está em sua terceira temporada (duas na internet e Canal OI, e agora a terceira na MultiShow).

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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  • Anderson

    Fernando, muito bom esse tema… realmente as series nacionais tem crescido muito e ganhou muito espaço na TV brasileira. Só fiquei triste por você não falar de Rei Davi rs. É uma série muito boa, se tiver oportunidade assista. a Série Rei Davi não é a primeira que a record faz nesse estilo e nem será a ultima rs, antes teve Ester que foi bom, mas nem se compara com Rei Davi, que possivelmente não se comparará com José, sim meu querido eles já estão gravando uma outra séria no mesmo formato.

    São séries difíceis de fazer pelo ambiente e figurino e roteiro que precisam reproduzir algo que não da nossa realidade. 

    Mais uma coisa, porque A grande família não foi citada? Na minha opinião é uma das melhores se não a melhor.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      O tema é muito bom mesmo, e como você pode ver, abrangente. Eu também estou assistindo Rei Davi, e estou até gostando, porém classificaria a produção no que chamamos por aqui de minissérie (pequena novela), assim como foi a A Muralha na Globo, por isso não citei. Não existe um planejamento da Record para ter várias temporadas, a história será contada até o fim e ponto. Acabou. Para mim está mais para uma novela sofisticada do que para uma série, entendeu?

      É uma questão de formatos, e foi que quis passar um pouco no texto, comentar as séries brasileiras que seguem os formatos tradicionais de séries.

      Por isso também não comentei sobre a A Grande Família, que poderia muito bem ser classificada como um sitcom genuinamente nacional, mas por ser um programa baseado no original bem antigo (de 1972) não entraria nesse momento atual de buscar produções puxando mais para as séries gringas mesmo.

      Por outro lado, se formos parar para pensar, A Grande Família seria a primeira série legítima da TV nacional. Abraços!

  • Ferreira

    tenho assistido ao longo destes anos inúmeras séries brasileiras e confesso que A Grande Família é um clássico da TV brasileira e genuinamente nacional.
    Quanto a série Rei David, tenho algumas reservas. A história é encantadora, mas acredito que por ser uma inovação da Record, o pessoal as vezes se perde. Exemplo: Teve uma cena em que um ator utiliza a seguinte frase: (um guarda diz para o outro) ” VÊ SE SE TOCA”. Acredito que nesta época o vocabulário era bem diferente, mas isso não tira o brilho da série. falta um pouco mais de Direção, roteiristas, enfim, profissionais mais identificados com a produção.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Ferreira, não é só em uma cena que isto acontece, acredito que eles tentam contextualizar um pouco (ou muito) o vocabulário da época, para aproximar o público da história.

      Pelas vezes que isso acontece, penso que é proposital, mas como você falou, a Record tem muito a melhorar sim.