Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte V)

Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte V)

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Eu não conseguia ficar muito tempo sem trabalhar. Uma vez que não tem que pedir dinheiro para seus pais para tudo que vai fazer, você não quer mais saber de ficar sem trabalho. Quem já viveu isso, sabe do que falo.


Depois de trabalhar em shopping, aprender a vender artigos infantis, sapatos, roupas de criança e me submeter a chefes que me embrulharam o estômago, o jeito agora era encarar qualquer negócio. Recepcionista, garçonete, secretária, telefonista. Qual seria a bola da vez?


Foi quando minha amiga Gabi – que conheci quando trabalhei pela primeira vez no shopping – me contou que ela estava saindo de seu emprego e precisava indicar alguém para seu lugar. Ela trabalhava em uma clínica em que os donos, e chefes dela, eram budistas. Lá o cliente podia fazer ioga, pilates, RPG, umas massagens e terapias com pedra – as quais não me lembro mais o nome – e meditação.


A remuneração era de um salário mínimo e eu teria que levar minha marmita para almoçar. O horário, das 11h às 18h. Daria certo com o meu horário da faculdade. Beleza, estava dentro!


Localizada em uma avenida movimentada, a clínica tinha um pequeno jardim no quintal. Era minha obrigação varrer aquela área e regar as plantas todos os dias. Também ficava a meu cargo varrer, passar pano no chão e manter a organização do ambiente. O local era composto por uma sala de recepção – nada sofisticada, era como a sala de uma casa –, um quarto onde acontecia as sessões de ioga, massagem e meditação, uma sala maior onde aconteciam as aulas de pilates e uma terceira sala para sessões de RPG (Reestruturação Postural Global). No fundo, uma área com os objetos de limpeza, uma mesa com cadeiras e mais um pouco de planta.


A decoração era toda ligada ao budismo. Imagens de Shiva e outros deuses. Estatuetas, incenso e quadros mostrando onde se concentra a energia no corpo humano. Vasinhos de planta para rodo lado. A sala de meditação, a mais peculiar a meu ver, era cheia de artigos budistas, até mais que na recepção. Tinha uma caminha baixa ao centro, cortinas, que passavam a maior parte do tempo fechadas para que o ambiente ficasse meia luz, um pouco mais de plantinhas nos cantos e um som pequeno, que passava a maior parte do tempo ligado tocando CDs com sons da natureza ou tantras.


Era Shiva e Ganesha por todo lado.

Era Shiva e Ganesha por todo lado.


O mais interessante, no entanto, era uma travessa, daquelas estilo Marinex, transparentes, usadas para levar tortas ou outros alimentos ao forno. Ela ficava cheia de pedrinhas das mais variadas cores e cheia de água. A água tinha que ser trocada todos os dias quando eu chegava. De todas as orientações que recebi, aquela para mim era a mais estranha.


Afinal, eu já estava acostumada a passar pano, varrer e manter a organização. Mas ter que lavar uma vasilha, as pedras, deixar secar no sol (diziam que era para captar energia) e colocar todas minuciosamente dentro da vasilha novamente e encher de água, aí era demais pra mim. Mas tudo bem… Eu fazia.


Olha a tal tigela aí. Um pouco de propaganda gratuita para a Marinex não vai fazer mal.

Olha a tal tigela aí. Um pouco de propaganda gratuita para a Marinex não vai fazer mal.


Os chefes eram um caso à parte. Uma mulher mais velha, quase uma senhora, e um homem adulto, mas jovem, muito bonito e simpático. A mulher era a dominadora da situação e ele, o capacho. Mas a tratava como uma rainha. Coisa rara de se ver. Eles eram muito pacientes e explicavam tudo com muita calma. Estilo de vida completamente diferente do meu: agitado e sempre correndo de lá para cá.


Eu passava a maior parte do tempo sozinha. Às vezes a chefe deixava um notebook, mas não havia internet e o objetivo dela era apenas que eu transcrevesse alguns capítulos de livros relacionados ao budismo, com tantras e outras coisas. A filha dela, fisioterapeuta, que uma ou duas vezes na semana aparecia por lá para dar uma consulta de RPG, também era professora e por várias vezes deixava provas para eu corrigir. Ela já elaborava as provas todas objetivas para facilitar o meu “trabalho”.


Quando não tinha que transcrever livros ou corrigir provas, eu passava a maior parte do tempo sem fazer nada. Quando tinha trabalhos da faculdade ou prova, até era bom, porque tinha tempo, mas para fazer os trabalhos era meio complicado porque não tinha computador e o notebook não ficava o tempo todo lá. Algumas vezes, o jeito era colocar a cabeça na mesa e… cochilar.


Aí você se pergunta: mas então, o quê ela fazia? Fora a arrumação que citei acima, também atendia telefone e marcava e desmarcava consultas. Pela manhã era raro ter algum atendimento, por isso, era de tarde que se concentrava maior parte do trabalho.


Outro detalhe que não citei, era que tinha que trabalhar de havaianas brancas. Isso mesmo. Assim que chegava da rua já tirava meus sapatos, os colocava em uma estante apropriada e trabalhava o tempo todo assim. As outras pessoas que chegavam também tinham que tirar seus sapatos.


Nessa época uma coisa que me incomodava bastante era em relação ao meu almoço. Como comentei, tinha que levar minha marmita todos os dias. Lá não tinha fogão ou microondas. A avenida, embora movimentada, não tinha bares e restaurantes. Minha salvação era um senhorzinho que tinha uma sorveteria bem ao lado e lá tinha um microondas. Porém, não era todos os dias que ele abria. Quando isso ocorria, o jeito era esquentar a comida no sol. Sim, sim. No sol. Deixava a vasilha fechada (claro) na janela, sob o sol. Eu a colocava ali uma meia hora antes de comer. Funcionava.


Por várias outras vezes, um anjo chamado Helena, mãe da minha amiga Gabi, levava almoço para mim e me privava de tal situação.


Uma dica para quem estiver na mesma situação: use um desses.

Uma dica para quem estiver na mesma situação: use um desses.


Se tem algo que sou na relação funcionário-chefe é bem mandada. Sempre acatei as ordens e os pedidos de maneira singular. Eles me explicavam uma, no máximo duas vezes, e eu já sabia o que tinha que ser feito. Se estava errado, eles corrigiam e eu melhorava. Mas algo naquele dia fugiu de tudo o que tinha ouvido, aprendido e sido orientada…


Eu trabalhava de segunda a sexta-feira. Aos sábados a clínica abria, mas era apenas para uma aula de pilates, salvo engano. Em uma segunda-feira cheguei lá e as coisas estavam fora do lugar. Tinha tapete para cima, estatuetas fora do lugar, sofá também. A caminha do quarto onde acontecia a yoga estava na sala, junto ao colchão. As cadeiras estavam para cima e as almofadas sobre a mesa. Também na mesa estava a agenda na qual eu marcava as consultas. Ela estava aberta no sábado e alguém a havia rabiscado bastante naquele dia, como se estivesse com raiva. Fiquei sem entender.
Aproveitando a deixa, varri e passei pano em tudo e comecei a voltar as coisas para seu devido lugar. Enquanto fazia isso, os chefes chegaram. A mulher, com toda a sua pose, perguntou:


- Você notou que estava tudo diferente aqui hoje não é?


- Notei sim.


- Pois é, aproveitamos que você esqueceu de confirmar a aula de sábado e aproveitamos a vinda perdida para cá para dar uma faxina.


Fiquei sem entender. Naquela altura já iam completar três meses que trabalhava lá e tentei buscar em minha memória alguma vez que tive que confirmar ou “desconfirmar” as aulas de sábado. Não encontrei nada.


- Mas, eu tinha que ter confirmado?


- Claro, viemos aqui à toa. Desmarquei várias coisas que ia fazer só para dar essa aula e olha o que aconteceu.


- Mas eu não sabia que tinha que confirmar, a senhora nunca me pediu para confirmar as aulas do sábado?


A zen começou a perder a calma:


- Claro que você tem que confirmar. Sempre teve!


Eu não estava louca e sabia disso. Algo estava errado, mas por um motivo que até hoje desconheço, não discuti, não rebati e deixei as coisas correrem sem mais abrir a boca.


No mesmo dia de tarde, ou no outro, não me lembro ao certo, a mulher me disse que em função daquela situação não daria mais para continuar trabalhando lá. Meu “esquecimento” tinha sido fatal. Ela pediu que eu ficasse até o final da semana.


Aquele dia passei anestesiada, com um nó na garganta. Tinha sido a primeira vez que me mandavam embora. Engoli o choro e quando sai do trabalho não fui para a aula. Fui para a casa da minha amiga Gabi, que trabalhava ali antes de mim, e contei a situação. Todos ficaram, assim como eu, sem entender o ocorrido. Foi quando Gabriela cantou a pedra.
A menina que trabalhava na clínica antes dela também tinha saído pouco antes de completar três meses de casa e ter o direito de ter a carteira de trabalho assinada. Coincidência ou não, ela “durou” o mesmo tempo que eu. Chegamos à conclusão de que a jogada dos meus chefes era manter uma pessoa por três meses, tempo de experiência, sem carteira assinada, e dispensar ao final desse período para não ter mais gastos. Afinal, manter funcionário com carteira assinada, para quem não sabe, sai caro.


Naquele dia dormi na casa da minha amiga e só no outro dia fui para casa e contei o ocorrido. No mesmo dia já disse no trabalho que não poderia continuar até o fim da semana porque já estava engatilhada em outro serviço. Era mentira, mas não dava para continuar ali por mais longos quatro dias. Já era meados do segundo semestre de 2009, quase fim de ano. E agora?


No próximo capítulo conto como conheci um lugar que tinha muito trabalho, mas foi onde me descobri e amadureci. Neste trabalho antecedeu a minha pior experiência de trabalho até hoje. Confiram.

Humberta Carvalho
Humberta Carvalho é jornalista, assessora de comunicação do IPOG, cursa MBA Executivo em Mídias Digitais.

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Muito sacana esses seus patrões Humberta, você não dava sorte hein, rsrs. Bem que poderíamos divulgar o nome da Clínica e fazer campanha contra ela na internet, hahaha.

  • http://www.facebook.com/people/Humberta-Carvalho/100001720647028 Humberta Carvalho

    Não sou tão ruim quanto eles… rsss

  • Jéssica Mendes

    Esquentar a marmita no sol é tenso hein?! hahahaha adorei essa coluna!!! Ainda vou ler todos os capítulos!!!