Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte III)

Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte III)

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Depois que sai da loja onde consegui meu primeiro trabalho, conheci o local onde seria meu próximo ganha pão. Em um dos últimos dias na loja em que trabalhava, após sua falência, estava indo embora e sai pela porta dos fundos. Um casal saía do estabelecimento ao lado, que há algum tempo estava fechado, pois ia receber uma nova loja.


Não me recordo ao certo o que conversamos, mas me lembro perfeitamente que a mulher, uma jovem baixa, de cabelo castanho claro e cumprido, dos olhos verdes, me perguntou se, por acaso, eu conhecia alguém que gostaria trabalhar ali naquela nova franquia de uma loja de sapatos do Rio de Janeiro. Claro que conhecia! Eu!


Vamos lá, rumo ao novo emprego

Vamos lá, rumo ao novo emprego.


Não só eu, como minhas outras três colegas que, com a falência da loja colorida, estavam desempregadas. A moça me passou os contatos e chegando em casa já liguei para saber como faria para participar da seleção. No outro dia avisei as meninas. Elas ficaram animadas com a nova oportunidade e, mais que depressa, também ligaram na empresa que escolheria as candidatas para se candidatar a uma das vagas.


Foi uma coisa muito louca. Providencial, diria. Em uma semana a loja em que eu trabalhava fechou. Na mesma semana lá estava eu em uma sala, sentada em uma carteira – estilo essas de escola – respondendo um questionário que faltou apenas perguntar a cor da minha calcinha. Respondi todos os tipo de pergunta: O que você gosta de fazer no seu tempo livre? Que tipo de pessoa você é? Como é o relacionamento com sua família? Como se vê daqui cinco anos? Pretende se casar? Quando? Enfim… Quiseram saber tudo de mim. Mas essa foi só a primeira fase.


Dentro de três dias me ligaram. Fui selecionada. Eu e minhas três colegas do antigo emprego. Participamos de dinâmicas, conversas e passamos por um teste psicológico. Isso durou uns dois dias. Ao final desta etapa, apenas eu e mais uma colega passamos para a próxima e última etapa.


Mais três dias e estávamos de frente com a gerente, com a supervisora e com a dona da loja. Foram claras sobre o que esperavam de nós. Todas concordamos. Mais três dias e estávamos em um outro prédio para o treinamento com uma das supervisoras da sede. Era uma carioca. Tudo que sabia nos ensinou sobre sapatos e sandálias. Foram três dias de treinamento intenso e aprendemos muito.


Me desculpem os cariocas, eu falo porrrrta, porrrteira e porrrtão, mas aquele “ixpôrrrro” me incomodava na alma. Não pela expressão, nem pelo sotaque – que deixemos claro, adooooro – mas pela pessoa mesmo. Irritante, arrogante, “superior”. Assim ela era e se achava. A sorte é que a equipe era legal e as expectativas eram as melhores. O que amenizava o clima.


Porém, nada era pior que a presença da dona da loja…


Já assistiu 101 dálmatas? Pois é. Ela era quase uma Cruella. Começando pela aparência. Alta, magra, branca, loura, e com um batom vermelho tomate sempre que a víamos. Cabelo curto (no ombro) e esvoaçante. A tira colo vinha o marido – tão insignificante que nem me lembro muitos detalhes sobre ele – e o filho – tão angelical que nem parecia ter saído daquele monstro.


Ia tudo bem, mas era a Cruella chegar que o dia acabava. É como se uma nuvem negra cobrisse nosso céu e levasse nossa esperança, nos deixando como crianças abandonadas, indefesas, incapazes. Era ela aparecer que todas nós nos tornávamos pessoas insignificantes, sem caráter e incompetentes. Ela tinha esse poder!


Foi uma semana de treinamento intenso. Ajeitamos cada detalhe de como seria o primeiro dia. Haveria um coquetel de estreia. No dia, fui para o salão, fiz unha, cabelo, maquiagem. Estava nervosa como se fosse meu casamento, afinal, nunca tinha participado de algo assim. Era novidade na minha vida. Há algumas horas de abrir a loja a Cruella chegou… A equipe ficou tensa e a gerente e a supervisora, que já a conheciam e sabiam lidar melhor com ela, tentaram acalmar a equipe. Tudo em vão…


“Essa equipe é muito fraca. Se não melhorarem não vamos muito longe com ela.”


Pronto. A cagada estava feita. Ela simplesmente derrubou com uma frase o que levamos uma semana inteira de trabalho pra construir. Mais que isso, ela colocou no chão nossa estima, expectativa, animo e força de vontade. Comecei a chorar, minhas colegas também. Eu precisava daquele trabalho, mesmo ganhando um mísero salário mínimo e uma comissão de merda. Olhando para trás, vejo o quanto fui submissa e paciente. A vontade, claro, era jogar tudo para o alto! Dar um “ixpôrrrooooo” nela e a mandar pro quinto dos infernos. Mas não fizemos isso. O coquetel foi um sucesso.


Com apenas uma frase ela conseguia estragar todo o nosso dia.

Com apenas uma frase ela conseguia estragar todo o nosso dia.


A partir daí começamos a trabalhar normalmente. Meu horário era das 16h às 22h. Era um cuidado imenso com aquela loja. Apesar dos pesares, vesti a camisa. Porém, cada dia que passava ficava pior trabalhar lá… O ponto máximo, que culminou em minha saída, foi uma reunião por conta de cota de vendas. Funcionava assim: Se eu tinha alcançado o topo da lista de vendas por ter vendido mais que minhas colegas, parabéns! “Não deixe seu desempenho cair.” Se eu caia de posição e ia para o segundo lugar: “Como assim? O que aconteceu? Tem que ter uma explicação! Você tem que retomar ao primeiro lugar!” Enquanto isso… Para quem tinha ido para a primeira posição: “Parabéns! Queremos que você faça o que for necessário para continuar no topo da lista!”


E para quem ficava em último lugar: “Esse rendimento é péssimo. Se continuar assim pelo segundo mês consecutivo você ‘deixa de ser interessante para a loja’ “.


Cara! Como assim? Isso foi a pior coisa pra mim… Essa conversa aconteceu no final do primeiro mês da loja. Eu era a segunda colocada nas vendas. Mas aquela situação era insuportável. Insustentável. Dia sim, dia não, era possível encontrar uma ou outra vendedora chorando no estoque, inclusive eu… Aguentei mais uns 15 dias e pedi para sair. No mesmo dia fizeram meu acerto. A partir daí, comecei a formar minha opinião sobre trabalho: em que locais gostaria de trabalhar e com que tipo de gente.


Claro, falando de trabalho não podemos ficar escolhendo assim, ainda mais no meu caso que não tinha experiência em quase nada. Mas meu, concorda comigo que não dá para trabalhar em um lugar onde você se sente um nada?


Agora, o jeito era começar tudo de novo….


Acharam que foi difícil na loja de sapatos? Vocês não viram nada… O primeiro maior monstro que assolou meu brio ainda estava por vir! Vocês vão conhecê-lo no próximo capítulo! Até lá!

Humberta Carvalho
Humberta Carvalho é jornalista, assessora de comunicação do IPOG, cursa MBA Executivo em Mídias Digitais.

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  • Aline de Castro

    vai demorar esse próximo capítulo?! rs Depois vc vai escrever um livro né?! *.* #adorei

    • http://www.facebook.com/people/Humberta-Carvalho/100001720647028 Humberta Carvalho

      Vai demorar não amiga! As piores coisas ainda estão por vir! kkk! beijos

  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Putz, fiquei imaginando essa Cruella aqui, altiva, cheia de si. Me deu uma baita vontade de mandar ela pra tudo que é lugar, rsrs. Não que teria a paciência que você teve, no fim você fez bem em sair.

    • http://www.facebook.com/people/Humberta-Carvalho/100001720647028 Humberta Carvalho

      Com certeza! Ave Maria ficar lá!

  • Talitta Di Martino

    Oi amorzão…
    Lembro de você trabalhando lá naquela lojinha bonitinha. Um dia até fui lá com aquele namorado feio que eu tinha. Lembra? Depois lembro de você tristinha por causa do emprego na loja de sapatos. Direto chegava à faculdade chateada! Foram momentos lindos e inesquecíveis ao seu lado! Parabéns estão ótimos e envolventes os textos! Aguardando próximo…

    • http://www.facebook.com/people/Humberta-Carvalho/100001720647028 Humberta Carvalho

      Obrigada deusa!!!! Bons tempos!