Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte II)

Antes de ser uma jornalista eu fui… (Parte II)

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Na última publicação me apresentei aos leitores e comecei a contar minha saga na vida de “assalariada”. Hoje vocês vão saber como foi enfrentar o primeiro emprego depois de tanto tempo se dedicando apenas aos estudos e como foi entrar no mercado de trabalho. Uma aventura simples, mas pela qual todo mundo passa e é sempre uma emoção!


Delicie-se!


A primeira vez ninguém esquece


Para preservar as pessoas, os lugares e, principalmente, a mim, não vou citar os verdadeiros nomes na maioria das vezes. Logo que terminei o ensino médio apressei-me em montar meu currículo. Mal havia terminado o ano e eu já estava o distribuindo por aí. Minha opção era o shopping, afinal, nunca havia trabalhado e minha experiência era zero em qualquer área. Coloquei algumas cópias em uma pasta de plástico, me arrumei da maneira mais discreta o possível – o que para mim era algo meio complicado -, e parti. Distribui o currículo em praticamente metade das lojas do Shopping Flamboyant. Lá era a melhor opção, visto que era ao lado da minha casa – o que não adiantava muito, pois não tinha ônibus direto. Eu tinha que tomar uma condução até o Centro, e de lá outra até o shopping. Tudo bem, afinal, eu precisava trabalhar…


Claro que existe shopping em Goiás!

Claro que existe shopping em Goiás!


Além de não ter muitas opções, aquela era uma época boa para tentar uma vaga no shopping. Fim de ano, Natal, free. Em meados de dezembro fui chamada para uma entrevista. Eu já estava surtando porque achava que “ninguém nunca ia me ligar”, como se eu estivesse desempregada há anos, devendo rios de dinheiro e com três filhos para criar. Foi quando o telefone tocou. Do outro lado, uma voz simpática perguntou se eu já estava trabalhando. Como não estava, marcamos um horário e eu fui.


Era uma loja muito colorida. Rosa para todo o lado. Meninas e mulheres entravam todo momento e ficavam loucas, deslumbradas, boquiabertas… Eu mesma, que já tinha entrado lá em outras ocasiões, fiquei alucinada nas cores, nos produtos diferentes, com os cheiros e formatos que encantavam qualquer um. Quem não gostava muito de lá eram os pais e os namorados, que se encostavam à grade do lado de fora e esperavam enquanto filhas, namoradas, noivas, mães e tias se deliciavam naqueles poucos metros quadrados que tanto fascinavam.


A mulher que me atendeu – no telefone e quando cheguei à loja – era uma senhora com seus 50 anos, muito arrumada e elegante, mas simples. Usava uma calça social rosa salmão, uma blusa de tecido sem manga e estampada com umas rosinhas pequenas. Era loira e tinha o cabelo curto – acima do ombro. Sua voz era tranquila e ela conversava como uma mãe. Até o jeito dela falar era calmo, tranquilo e, talvez por isso, não fiquei nervosa. Foi com aquela mulher que aprendi as primeiras técnicas de venda. Ela me apresentou a loja, os produtos e as funcionárias. Dia 2 de janeiro de 2007 eu começaria.


O primeiro dia foi tenso. Eu sentia vergonha de abordar os clientes, dar aquele sorriso e dizer: “Oi, tudo bem? Meu nome é Humberta, posso ajudar?”. Com o tempo isso mudou… Fui me soltando e dentro de poucos dias já sabia a descrição de todos os produtos e já não tinha mais problemas em abordar os clientes. Eu saía de casa às 15h, entrava na loja às 16h e ficava até às 22h. O intervalo era de 15 minutos.


Acho que as clientes ficavam satisfeitas com o meu atendimento.

Acho que as clientes ficavam satisfeitas com o meu atendimento.


Com o tempo fui descobrindo os dissabores de trabalhar em shopping… Ficar em pé muito tempo era um deles. Quando a gerente – aquela da ligação – não estava era melhor porque aí eu podia sentar dentro do vestiário ou no fundo, perto da porta que dava acesso ao fundo macabro do shopping. Quando ela estava, o “recomendável” era ficar de pé – podia até encostar na parede quando não tivesse cliente na loja, mas de pé.


Ia tudo bem, mas era cansativo. O primeiro ano de faculdade foi em uma universidade que ficava literalmente do outro lado da cidade. Eu ia com meu pai de carona até o Centro – onde ele trabalha -, do Centro pegava um ônibus e, depois de 40 minutos, chegava à faculdade. Na volta, grande parte das vezes eu pegava carona com um colega para ir ao Centro, e de lá encontrar meu pai para voltar para casa. Outras vezes, quando meu colega não ia, eu tinha que pegar um ônibus até o Centro, onde meu pai me aguardava. Nesses dias enrolava mais e chegávamos em casa super tarde. Algumas vezes era o tempo de almoçar e correr para o trabalho.


Aprendi muita coisa e passei a vender bem. O pior momento nesse trabalho foi quando uma ex-namorada do meu ex-namorado entrou na loja e tive que atendê-la. Ela não era uma ex qualquer, era uma menina com quem eu tinha uma rivalidade particular: Eu não gostava dela e ela não gostava de mim. Mas naquele dia eu tive que fingir que não existia nenhum peroblema, afinal, ela era uma cliente. Quando ela entrou na loja eu até mudei o semblante. Fiz a introdução de sempre: “Boa tarde, fique à vontade, se precisar de alguma coisa pode me chamar”. Ela, que também se assustou ao me ver, ficou sem graça e respondeu com um simples “tá”. Passados alguns minutos ela perguntou o preço de uma pasta e, para minha surpresa, me chamou pelo nome.


“Humberta, quanto é essa pasta? Ela é linda!”


Muito profissional, respondi e terminei o diálogo forçado. Ela me agradeceu e saiu. Confesso que naquele dia me senti a mosca do cocô do cavalo do bandido. Me senti humilhada pela primeira vez. Claro, coisa de adolescente, de jovem, de ego… Mas foi o que senti. Fiquei com vergonha de estar ali servindo uma pessoa que em qualquer outra ocasião eu viraria as costas. Cada peça que a vida nos prega…


O começo do fim


Com quatro meses de casa a loja entrou em crise. Um dos sócios deu um golpe no outro e as consequências dessa situação repercutiram logo. Os produtos pararam de chegar e os que ainda restavam nas prateleiras começaram a acabar. Os clientes perceberam e o movimento caiu. Nos dois últimos meses não consegui tirar nem R$ 1 de comissão. No final dos seis meses fomos avisados que a loja ia fechar. Eu seria demitida. E agora?


Outro ponto desse emprego que vale relatar é sobre as colegas de trabalho. Éramos quatro. Duas vendedoras e duas caixas. Uma vendedora e uma caixa pela manhã e à tarde, e as outras duas durante a tarde e a noite. As meninas da manhã eram uma comédia. Engraçadas demais e super tranquilas. A caixa do meu horário era meio “da pá virada” – como dizemos aqui “no” Goiás. Super na dela, cometia alguns pecados, mas eu não dedava e algumas vezes ia até na onda. Alguns desses pecados era sair antes do horário e me deixar sozinha na loja, sair para passear no shopping e me deixar sozinha na loja e entrar na internet – o que era permanentemente proibido salvo quando existia um motivo maior. Eu até me policiava para não cometer os mesmos erros que ela, mas era irresistível não fazer coisas do tipo ir para a loja ao lado – de maquiagem – e ficar conversando com as vendedoras e servindo de cobaia. Aliás, uma dessas vendedoras tornou-se uma amiga-irmã.


Nossa amizade começou por causa de um pote de batatinha Elma Chips. Um dia ela entrou na loja que eu trabalhava – ao lado da dela – comendo aquela batata e eu, viciada em caixas e potes, disse que compraria uma batata cara daquela só se fosse para guardar o potinho. Ela disse que ia me dar o pote quando a batata acabasse. Assim foi feito. Quase no fim do dia ela chegou com o pote para mim. Foi ali que tudo começou… O nome dela é Gabi, esse não tem problema de contar. Foi a época mais divertida de se trabalhar no shopping. Foi quando o Buger King chegou à Goiânia. Aquele refri “open bar” era um sucesso. Comprávamos um refri e ficávamos a semana inteira buscando coca-cola com o mesmo copo. Foi divertido até o dia em que o gerente parou a Gabi na porta e pediu a nota fiscal… Graças a Deus ninguém foi preso.


Eu e Gabi, Gabi e eu. Foram só alguns 'refris' gente...

Eu e Gabi, Gabi e eu. Foram só alguns 'refris' gente...


Outra vítima nossa era o Top Sunday do McDonalds. Comprávamos um em um quiosque e dávamos um jeito do atendente não rasgar o recibo – modo como eles fazem para saber se o produto já foi entregue – para buscarmos outro Top Sunday em outro quiosque. Deus foi bom demais e também não fomos presas. Fora as vezes em que comprávamos aquele sanduíche maior do Burger, coca-cola e sentávamos no fundo feio do shopping para comer e disputar quem arrotava mais alto. Num dia desses fomos flagradas pelo vendedor gatinho da Crawford. Fora as inúmeras vezes em que comemos batatinha frita com Top Sunday. Nunca experimentou? Tenta uma hora para ver o quanto é bom!!! Carambola! Eu viajo lembrando dessas coisas. Tão inúteis, tão ridículas, tão particulares, tão minhas.


Seis meses se passaram e a gerente nos avisou que a loja ia fechar. Faliu. Não houve choro nem tristeza. Apenas um aperto no coração e uma insegurança tremenda. Afinal, o que seria de mim e daquelas outras quatro pessoas? Não houve tristeza, vírgula. No último dia o sentimento era de luto. Como eu ia pagar a faculdade agora? Para onde eu iria? Minha experiência ainda era pouca! Seis meses não dava para aprender muita coisa, só o básico.


Uns dias antes da loja fechar, eu estava indo embora pelos fundos da loja quando encontrei um pessoal responsável pela loja que ia abrir ao lado da que eu trabalhava. Há um mês o espaço estava sendo reformado, mas nós ainda não sabíamos qual loja seria aberta ali. Foi quando começou o pontapé para o meu segundo emprego…


O que vem por aí…


No próximo capítulo vocês vão saber como foi ter a chefe que está no ranking das piores e mais cruéis da minha lista. Não demorou muito para começar a trabalhar novamente, mas o pão que o diabo amassou ainda estava por vir…

Humberta Carvalho
Humberta Carvalho é jornalista, assessora de comunicação do IPOG, cursa MBA Executivo em Mídias Digitais.

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  • Fernando Henriques

    Não acredito, meninas arrotam?! Hehehe. Mais um belo texto Humberta, parabéns.

    • http://humbertacarvalho.blogspot.com/ Humberta Carvalho

      Arrotam!!! Pode acreditar!!! kkkk

  • NAYARA CRISTINA

    Betinaaaaaa!!!!!!!!! Sabia que essa malandragem toda não era de hj!!!! kkkkkk….
    Muito bom e engraçado o texto….. Parabénsss…

    Bjokkasss….

    • http://humbertacarvalho.blogspot.com/ Humberta Carvalho

      kkkkkk! Para vc ver! Trabalho nisso há um bom tempo! rssss! Beijos e obrigada!

  • Karla Cristina

    Adorei!!!!

    • Humberta

      Obrigada Karlinha!

  • Josiane

    amore…ótimo texto!
    mas a mosca do cocô do cavalo do bandido foi mara…rsrsrs!
    Parabéns!!!
    bjos*

    • Humberta

      obrigada perva!!!!!!

  • Gabi

    Noooossa veeei! Como q vc me queima desse jeito? Hahaha. Brincadeira!! Com certeza foi a melhor epoca do shopping!! Amo vc, amiga irma!

    • Humberta

      Te queimo nada! sei que vc tb adorava!!! kkk! beijos!

  • Sérgio

    Eu quero ver é o dia que você vai escrever um dia para contar o dia que me conheceu.
    kkkkkkkkkkk.
    Isso sim é uma data importante.
    Parabéns pelo texto e pelo blog.

    • Humberta Carvalho

      Vixe… esse dia foi inesquecível!!!! Que dia foi mesmo?! rsss! Valeu Serginooo! beijos!

  • Aline de Castro

    ô sua maaaaala!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk =*~

    • http://humbertacarvalho.blogspot.com/ Humberta Carvalho

      Nada!!!! Isso se chama aproveitar a vida! kkk

  • Elizabeth

    Que vexame pra nossa família…….mas não podemos negar que você sempre foi muito batalhadora…..só esqueceu das massagens nas costas que eram feitas pela sua madrasta, após chantagem emocional.
    Beth

    • http://humbertacarvalho.blogspot.com/ Humberta Carvalho

      Gente!!! Olha só isso! Que visita ilustre! Essa parte aí é outra história… kkkk! beijos!