Anorexia e Bulimia

Anorexia e Bulimia

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A incidência de transtornos alimentares praticamente dobrou nos últimos 20 anos. Embora ainda não seja emblemático, devido à ausência de comprovação científica, acredita-se que o motivo principal para tal fato sejam os padrões de beleza da sociedade, que por serem tão extremos e restritivos acabam afetando as pessoas de diversas maneiras.


Se existe um transtorno alimentar que merece atenção em virtude de um crescimento exponencial nos últimos anos, este é a Anorexia Nervosa. Dados epidemiológicos têm mostrado que a incidência média anual da anorexia nervosa na população em geral é de 18,5 por 100.000 entre as mulheres e 2,25 por 100.000 entre os homens (Hay, 2002, p.14).


Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, a anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado pela recusa do indivíduo em manter um peso adequado para sua estatura, medo intenso de ganhar peso e uma distorção da imagem corporal, além de negação da própria condição patológica. Embora esse conceito seja unanimidade entre os estudiosos da área, a razão bioquímica pela qual a pessoa não consegue se enxergar como de fato é, e sim como o cérebro a projeta, ainda está longe de ser descoberta.


Pesquisadores holandeses conseguiram levantar a hipótese de que o nosso cérebro é capaz de criar imagens das pessoas a nossa volta, sobretudo das pessoas que amamos (vendo-as melhores do que são de fato). Talvez haja aí uma ligação, e bem mais do que isso, uma evidência das inúmeras realidades que o cérebro é capaz de criar. Quem duvida que o amor, assim como a anorexia, é um distúrbio cerebral, uma condição fora do normal?


Fato é que os sintomas da anorexia não são facilmente percebidos, pois a pessoa doente não acredita na própria condição patológica e defende com unhas e dentes seu ideal, a busca pela beleza. Isso propicia uma mudança nos hábitos alimentares, inicialmente cortando os alimentos tidos como mais calóricos – chegando até absurdas 200 Kcal por dia – e em estágios mais avançados realizando exercícios físicos em demasia.


Bom apetite!

Bom apetite!


Os sintomas associados mais fáceis de perceber são: depressão, síndrome do pânico, comportamento obsessivo-compulsivo e recusa a participar de refeições familiares, alegando já ter se alimentado (o mais comum dentre esses).


A anorexia afeta, sobretudo, mulheres na adolescência. Nessa fase ocorrem mudanças no corpo feminino que resultam em ganho natural de gordura. Insatisfeitas com as mudanças repentinas em seu corpo, tais meninas desenvolvem a doença.


É válido ressaltar que a anorexia nervosa não consiste em perda de apetite, apesar de seu nome no original grego ter esse significado. Na anorexia o paciente tem consciência que deve parar de comer para perder peso e sente fome como todo indivíduo em jejum prolongado. Até por isso, o tratamento usual para anorexia é acompanhamento psicológico, e caso necessário, administração de antidepressivos. Apesar de tudo, os tratamentos existentes ainda não passam de paliativos.


A corrente de pensamento mais atual para entender a anorexia se baseia na elevação do hormônio Serotonina, vulgarmente conhecido como hormônio do prazer, após um determinado período de inanição. Imagine, quando ficamos cerca de três a cinco horas sem comer, nos sentimos mal, com fraqueza e desanimado. Entretanto, se o jejum for por maior tempo, nos sentimos bem novamente como se estivéssemos com tanta fome a ponto de perdemos a própria. Isso se deve a elevação da serotonina gerando uma sensação de bem-estar.


É justamente pelo explicitado acima que o anoréxico se sente tão bem ou até melhor do que um indivíduo que se alimenta normalmente. Entretanto, quando comemos, o desanimo e a fraqueza se intensificam, não é? Isso ocorre porque a Serotonina tem um rápido momento de descida até que se estabiliza novamente. Para os anoréxicos, este é um momento crítico, pois após se alimentar eles voltam a ter os sintomas evidenciados e se afogam na depressão. Por isso, é extremamente recomendável que uma vez identificado o quadro de anorexia, não seja imposto de imediato um aumento da alimentação do indivíduo. Esse processo de reconstrução de hábitos alimentares deve ser feito, de preferência, por uma equipe médica multidisciplinar.


Existe ainda outro tipo de anorexia, a anorexia alcoólica. Nesse quadro o paciente substitui a alimentação por álcool. Esse distúrbio, um misto de anorexia nervosa e alcoolismo, é pouco conhecido, mas acredita-se em dois fatores o induzem: o fato do álcool inibir o apetite, o que ajudaria a emagrecer, e a sensação de liberdade, independência e prazer que ele é capaz de produzir.


O maior sintoma desse tipo de anorexia pode ser observado pelos amigos do doente em festas, por exemplo, quando as meninas, principalmente, se recusam a comer – por medo de engordar – uma vez que já estão bebendo. Por mais simples que pareça, este ato pode ser um indício e até um princípio de anorexia alcoólica. A doença, apesar de mais rara, é potencialmente mais letal do que a Anorexia Nervosa, pois além do quadro de jejum absurdo, o álcool ainda é mais um dano ao organismo. Acredita-se que a cantora Amy Winehouse, a nova mártir do momento, sofria desse distúrbio.


Amy não estava sozinha, outras artistas sofrem de tal mal. Para elas, a busca pela beleza teve resultado inverso.

Amy não estava sozinha, outras artistas sofrem de tal mal. Para elas, a busca pela beleza teve resultado inverso.


Já no caso da Bulimia, não é a magreza excessiva que chama atenção. Muitas mulheres com corpos esculturais sofrem do problema. A Bulimia consiste na falta de controle na alimentação e, por consequência de alta ingesta calórica, indução de vômitos ou uso de diuréticos e laxantes em excesso, visando perder o que foi ingerido “a mais”.


Em geral, este paciente vive buscando organizar um calendário novo de dietas, mas nunca consegue aplicar um autocontrole necessário, recorrendo aos meios já citados para manter a beleza externa. No que tange o caráter psicológico, esses pacientes são inseguros, têm baixa autoestima e complexo de inferioridade, o que constitui um quadro depressivo grave. Apesar disso, assim como na Anorexia Nervosa o uso de antidepressivos se mostra um paliativo e é comum recorrer ao acompanhamento psicológico.


Não há motivos para ignorar essas doenças, visto que cerca de 20% dos casos de anorexia, por exemplo, resultam em óbito. É de vital importância um acompanhamento maior dos pais na rotina íntima dos adolescentes e uma preocupação das instituições de ensino em formar indivíduos mais instruídos acerca do conceito falso e perigoso de beleza que nos é imposto a cada dia.


A mudança no pensamento da sociedade também é importante, pois caminhamos para conceitos que nos destroem aos poucos. Vive-se uma vida por demais egoísta, baseada em dinheiro e beleza. Em meio à cegueira de nosso tempo não percebemos que ambos são passageiros, portanto, ter uma vida pautada nesses objetivos é futilidade, além de nos trazer inúmeros males como os tratados neste artigo.


Apesar de não ter exposto antes, todos estes distúrbios afetam demais o nosso organismo no âmbito fisiológico e bioquímico. É possível até afirmar que os danos psicológicos não são a maior preocupação para estes pacientes. Em suma, não acredito, apesar de futuro farmacêutico, numa cura científica eficaz para este tipo de doença, pois ela envolve o nosso maior amigo e vilão, o pensamento, até hoje objeto de estudo vicioso de alguns dos mais brilhantes cientistas.

Pedro Henrique Franco
Pedro Henrique da Rocha Franco, nascido em 1991. Cristão, amante da leitura e apaixonado por futebol.

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  • Fernando Henriques

    Grande estreia Pedro, com um tema bastante complexo. Este artigo com certeza será útil a muitas pessoas e apesar de já ter lido um pouco sobre estas doenças antes, ainda não tinha visto uma explicação tão condizente como esta da Serotonina. Parabéns!

  • Diego de Lacerda

    Esse é um tema que deve ser sempre abordado pelas mídias.

    São doenças que precisam de um cuidado todo especial da mídia, dos familiares e amigos.

    Muito bom Pedrão, excelente texto!

  • André Vieira

    Muito bom o texto, Pedro! Explicações técnicas como essa podem elucidar os questionamentos de muitos que ainda sofrem de tais distúrbios que parecem nocivos, em princípio, mas tornam-se avassaladores com o passar do tempo!

  • Gabriela Lira

    Às vezes busca-se tanto a perfeição imposta pela mídia, que acabamos nos perdendo dentro de nós mesmos e de uma imagem que construímos em nossa mente. Essa doença precisa sim de uma maior notoriedade para que meninas cada vez mais novas não se tornem escravas dela.
    Belo texto.

  • http://www.vulgoph.wordpress.com Pedro Henrique

    Obrigado, gente! Que o texto, de fato, sirva pra despertar nossa atenção.

    Abraços.