Adeus, David Bowie

Adeus, David Bowie

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“Cheque a inguinação, e que o amor de Deus esteja com você”
Space Oddity, 1969

 

Pois é… O ano de 2016 não começa bem. No dia 10 de janeiro morreu ninguém menos que David Bowie, um dos maiores ícones da música, da moda e um representante eterno da geração sessentista e setentista, da transição do Flower Power ao pós-Flower Power.

 

O momento é o pior possível. Ele tinha acabado de lançar seu novo álbum Black Star na última sexta-feira, 8 de janeiro, dia do seu aniversário. Um disco aclamado por críticos, que mostrava a todos que sua capacidade criativa ainda era capaz de produzir muito.

 

David Bowie é bastante conhecido por escandalizar conservadores tacanhos por suas fantasias andróginas e sexualmente não definidas. Mas antes de se alegrar e dizer “ele é dos nossos”, meu caro amigo de esquerda, devemos lembrar que David Boiwe lançou suas sementes de dúvidas na esperança do Admirável Mundo Novo pregado por progressistas do seu meio. Não que ele não acreditava num “novo mundo possível”, mas questionava até que ponto esse mundo seria “melhor”.

 

Em sua entrevista a CQ Magazine em 2002 ele chega a questionar a superioridade do humanismo sobre a religião:

 

“The humanists’ replacement for religion: work really hard and somehow you’ll either save yourself or you’ll be immortal. Of course, that’s a total joke, and our progress is nothing. There may be progress in technology but there’s no ethical progress whatsoever.”

 

No entanto, isso não é uma opinião recente. A transição geracional da década de 60 para a década de 70 foi intensa e resumida em artistas como Alice Cooper, T-Rex e Black Sabbath. Mas Bowie capitou isso de uma forma totalmente nova, diferente e inventiva, como bem pontuou Christopher Sandford em seu livro Bowie: Loving the Alien. Sua crítica a geração hippie é exposta desde o início em músicas como Cygnet Committee, do primeiro disco (Space Oddity), uma música maravilhosa em tom narrativo distópico (como é do seu estilo), que fala de um homem arrependido por ter ajudado revolucionários a criar uma Nova Ordem, constatando que a utopia realizada do “novo mundo” não era o que ele esperava. Qualquer relação que você faça com revoluções pelo mundo não deve ser mera coincidência.

 

Entre conservador e progressista podemos considerar David Bowie um indivíduo, acima de tudo. Ou melhor, vários indivíduos. Aladdin Sane, Ziggy Stardust, White Duke… David Bowie era vários ao mesmo tempo. Talvez ele seja o equivalente no rock de Fernando Pessoa(s).

 

Quando se fala de David Bowie, falamos de vários artistas ao mesmo tempo. Sua morte não é no singular. O mais correto é dizer que morreram David Bowie. Descanse(m) em paz, meu(s) querido(s).

 

Obrigado!

Obrigado!

Gabriel Vince
Jornalista, publicitário e produtor cultural.

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