A ternura de Máximo Gorki

A ternura de Máximo Gorki

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Fosse perguntado aos leitores do russo Máximo Gorki qual palavra escolheriam para definir o seu estilo, é bastante provável que a maior parte deles usasse “ternura”. E este parece ser realmente o termo mais adequado para definir a sua escrita sensível e recheada de personagens das mais baixas camadas sociais da Rússia – operários, vagabundos, prostitutas. Era este submundo que interessava a Gorki porque foi precisamente dentro dele que esteve durante toda a sua juventude. Disso nasceria uma literatura de forte cunho autobiográfico.

 

Mesmo quando faz deliberadamente ficção é de se imaginar que suas narrativas tenham sido bastante influenciadas pelas experiências que passou. Um dos poucos livros de Gorki publicados no Brasil – ele ainda está longe de ter a fama de outros russos – é a coletânea “Certo dia de outono e outros contos”. Já a partir do conto inicial, que dá nome ao livro, as páginas são carregadas desse sentimento de ternura e de tensão social. A narrativa, em primeira pessoa, é a de um jovem andarilho que se encontra por acaso com uma prostituta que tentava invadir um casebre em busca de comida. Os dois compartilham seus desesperos, mas é ela quem o consola.

 

É de se imaginar que em “Konoválov”, conto mais longo e também em primeira pessoa, Gorki tenha se servido de experiências que teve enquanto trabalhava como auxiliar de padeiro, assim como o narrador da história. É neste ambiente que conhece o personagem-título do conto, um sujeito que bebia muito porque tinha crises de nostalgia e a quem o narrador lia histórias de aventuras que ele acreditava firmemente terem acontecido de verdade. É uma história bonita mas não tão tocante quando “O aleijado”, em que o narrador encontra uma mulher embriagada fazendo escândalo na rua, ajuda-a a ir para casa e lá encontra o seu filho, um moleque aleijado. Conversa um pouco com o menino, descobre a sua coleção de insetos, fica sabendo da história dos dois, se comove e decide voltar no dia seguinte trazendo comida e insetos para a coleção. A mãe, em agradecimento, oferece o próprio corpo em pagamento pela alegria trazida ao filho.

 

"Certo Dia de Outono e Outros Contos", em edição de bolso. | Créditos: skoob.com.br.Mas em termos de estrutura, construção dos personagens e fluência narrativa, o conto mais elaborado do livro é “O sapateiro”, ainda que não seja um conto da maturidade do escritor. Nele um casal de sapateiros vive de forma medíocre e sem grandes ambições, sofrendo pela ausência de filhos e pela violência do homem contra a mulher, além do seu alcoolismo (como escreveu Gorki, os pobres homens russos são sempre engolidos pela enorme bocarra de uma taberna). A vida deles muda quando se oferecem para trabalhar num hospital que atendia vítimas do cólera. Essa mudança, no entanto, não apaga o ciúme do marido nem o seu sentimento de inutilidade diante do mundo. Na mulher há uma transformação maior e pela primeira vez ela ousa enfrentar o marido que ama perdidamente. Toda a trama se passa de maneira envolvente – e terna.

 

Em “O sapateiro” também não há excessos nas descrições espaciais e geográficas, coisa a que Gorki de vez em quando cedia e que foi motivo de queixa do próprio Tchékhov em correspondência com o autor. O melhor exemplo disso são os parágrafos iniciais de “O pomo da discórdia”, um dos contos mais longos do livro. A despeito das descrições bucólicas, a história do conto em si também é bem elaborada e envolve uma briga de pai e filho pela mesma mulher. Como em todo o livro, há neste conto muitos dramas pessoais, muitas dúvidas e inquietações. Até a violência neste conto, retratada por Gorki, é bonita.

 

“Certo dia de outono e outros contos” conta ainda com “Caim e Artem”, criativo conto sobre um pacto entre um judeu franzino e humilhado e o vilão da aldeia que botava medo em todos, e “O avô e o netinho”, retratando dois mendigos que chegam em uma aldeia nova para pedir suas esmolas. Também neles há personagens bem reais e que insinuam questionamentos existenciais. Também eles possuem a mesma carga emotiva e afetuosa que caracteriza a produção de Gorki.

Henrique Fendrich
Henrique Fendrich nasceu no sul, mora em Brasília/DF, é jornalista e escritor, mantém a Rubem, revista digital sobre crônica, publicou uma coletânea com textos seus chamada "Brasília quando perto", e gosta de ler tanto quanto de falar sobre o que leu.

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