A riqueza na base da pirâmide e o Bolsa Família

A riqueza na base da pirâmide e o Bolsa Família

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Em 2005, um professor (já falecido) de Harvard, chamado CK Prahalad, lançou um livro chamado “A Riqueza na Base da Pirâmide”. A teoria dele basicamente diz que quanto mais a população pobre de determinado país (que são sempre a maioria da população) têm acesso ao mercado de consumo, mais isto gera riquezas para todos os extratos da sociedade e para a nação como um todo. Baseado nesta tese, ele diz que as empresas podem ajudar as pessoas em benefício próprio futuro. Um grande exemplo brasileiro, estudado por Prahalad, é o senhor Samuel Klein e suas Casas Bahia, que tem como público alvo as classes mais baixas.

 

Apesar de não citar explicitamente, a teoria dele faz contraponto à Mais-Valia descrita por Marx, já que, se as classes que controlam os meios de produção aumentarem a sua margem ao ponto de remover seus empregados do mercado de consumo, simplesmente irá extinguir este mercado de consumo.

 

Em 2009 estávamos discutindo as teorias de Prahalad em uma aula da minha pós-graduação e resolvi fazer a relação entre estas teorias e o principal programa social do governo Lula/Dilma, o Bolsa Família.

 

Assim como o PT demonizou as privatizações (E agora recorrem à ela!), a direita (a linha hoje é tão tênue que fica complicado utilizar conceito de direita e esquerda no Brasil) também tenta demonizar o principal programa do Lula.

 

O Bolsa Família é uma junção de várias bolsas (escola, gás, entre outras) que nasceram primeiramente no Distrito Federal, através do seu então governador Cristovam Buarque, em meados da década de 90. Depois foi levado ao âmbito nacional durante o primeiro governo de Fernando Henrique, através de uma proposta do senador Eduardo Suplicy.

 

Hoje senador, Cristovam Buarque é um crítico do programa atual, que segundo ele fracassa na superação da pobreza. "O Bolsa Família terá fracassado se ainda existir em 20 anos"

Hoje senador, Cristovam Buarque é um crítico do programa atual, que segundo ele fracassa na superação da pobreza. “O Bolsa Família terá fracassado se ainda existir em 20 anos”.

 

Quando Lula se elegeu, ele unificou as bolsas em uma só e aumentou bastante a abrangência do programa.

 

O Bolsa Família tem três funções primordiais:

 

1 – Melhorar a distribuição de renda, diminuindo as diferenças;
2 – Combater a fome;
3 – Evitar o trabalho infantil e a evasão escolar.

 

O valor da bolsa é pensado de uma forma que supra as necessidades básicas de uma família, mas ao mesmo tempo não permita acomodação ou luxos. Ao contrário do que dizem, o valor não é “por cabeça” e existe a contrapartida das crianças estarem na escola (aí caímos no outro problema da educação básica, mas é assunto para outro texto).

 

O valor é em dinheiro, centralizado, através de um cartão benefício, por alguns motivos:

  • Problemas de logística: imaginem centralizar cestas básicas e ter que distribuir isto por um país com extensão continental igual ao Brasil;
  • Uso das “cestas” em troca de voto;
  • Desvio durante o processo;
  • E o principal: incentivo à economia local e consequentemente nacional.

 

Este último ponto é muito importante, pois a inserção dos beneficiários no mercado consumidor gira toda uma roda da economia que tem beneficiado até os tais “classe média” chorões.

 

Uma explicaçãozinha básica de como a “roda da economia” gira: uma certa região começa a receber o benefício do Bolsa Família. As pessoas do local passam a consumir mais. O “Seo Zé”, dono da vendinha, começa a vender mais, logo, terá que contratar mais funcionários, que por consequência, assim como o “Seo Zé”, também vão consumir. Gera renda e trabalho para o caminhoneiro, que terá mais produtos até a tal região. Gera renda nos postos de gasolina ao longo do caminho, nos restaurantes, etc.

 

Bem, este pessoal está consumindo todo tipo de produto, como alimentos, produtos de higiene e até alguns “supérfluos”, como computador, televisão, refrigerador, etc., incentiva a agricultura, incentiva as fábricas. A empresa em que eu trabalho, que faz bens de consumo (higiene pessoal, medicamentos…), também tem sua produção aumentada, portanto, terá que contratar mais funcionários, ou seja, mais pessoas dentro da economia de consumo.

 

Estes funcionários, os tais “classe média” que reclamam do “Bolsa Esmola”, ao invés de estarem desempregados, estão recebendo um bom salário porque o “vagabundo do beneficiário” está consumindo mais produtos.

 

Estes mesmos “classe média”, com emprego gerado pelo aumento do consumo, estão comprando TVs de LCD, carros, viajando pra Miami, gerando empregos em indústria automotiva, turismo, etc., que por consequência, gera emprego em atividades extrativistas (petróleo, minerais).

 

No final de tudo isto, o acionista da empresa onde eu trabalho, lá nos EUA, tá rindo de orelha a orelha, pois nos últimos anos viu sua operação no Brasil (e em outros mercados emergentes) crescer à taxa de 25% ao ano, enquanto as operações nos países de primeiro mundo, devido à uma crise mundial, encolheram. No final suas ações se valorizaram e ele recebeu seu quinhão de lucro.

 

P.S.: Sou capitalista até o último fio do cabelo, e como “capitalista” entendo que só existe lucro se existe mercado consumidor.

 

P.S. 2: Classe média, hoje em dia, mais do que uma classe social, é um “estado de espírito”. Existem “classe média” ricos, pobres e “classe média”, na acepção real do termo. Mas basicamente é aquele sujeito que acha que o mundo gira em torno dele, que só olha para o próprio rabo, que reclama que carrega o mundo nas costas, que critica ferozmente os atos de corrupção de políticos enquanto dá uma “cervejinha” para o guarda fazer vistas grossas à uma multa de trânsito.

Wellington Moura da Cunha
Paulistano de nascimento e cidadão do mundo por vocação. Trabalha atualmente com TI, porém se interessa, literalmente, por todo tipo de assunto, o que faz dele um "palpiteiro" de marca maior. Consegue ser cético e ter ao mesmo tempo o otimismo de Cândido, achando que no final tudo dará certo. Entre suas paixões estão a música, a literatura e as conversas com amigos numa mesa de bar, regado a uma boa cerveja. É autor do blog Botecoterapia.

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  • Eduardo Barsan

    Parabéns Wellington, texto muito bem escrito…Concordo com você em número, gênero e grau, mas é uma pena que muitos vejam o Bolsa Família apenas como exploração, de quem dá ou de quem recebe.

  • Leandro Moraes

    Esse é meu grande amigo Wellington, texto espetacular e bem escrito, como é bom tomar uma cerveja com amigos como você e sempre agregar algo no meio muitas criticas construtivas, discussões e principalmente muitas risadas, parabéns meu amigo .

  • Zakk Nimitz Le Passage

    muito bom ser amigo de um cara como voce! parabens Wellington!!!

  • André Vitor

    Texto ótimo, claro e direto !!! A ideia central do bolsa família é ótima, mas ao longo do tempo foi distorcida.

  • Gardenal Gustavo
  • Caixa de Ferramenta

    Grande texto! É exatamente isso que eu penso.
    Muito nego fala mal do programa mas não mexe uma palha pra ajudar os mais pobre. São um bando de hipócritas. É muito fácil desejar felz natal ou feliz ano novo quando o próximo não tem quase nada e se vive confortavelmente na cidade. Parabéns!