A racista gremista

A racista gremista

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Você pode xingar a todos, do que quiser, mandar tomar no cu (até a presidente), dizer que a mãe do juiz é puta… Mas não vá você dizer que um negro é macaco. Hum… As redes sociais cairão na sua cabeça!

 

O que fizeram com Tinga, no Peru, foi escroto, principalmente, porque foi um ato de matilha, de corriola. A ação de um bando organizado contra um ser que apenas trabalhava. Foi covardia. Como quando vários batem em um só. “Juntaram” o Tinga, só que de forma verbal. Já o caso da menina gremista, ao que parece, mesmo que igualmente escroto no quesito termos utilizados, é apenas mais um caso de gente que vai ao estádio, se desequilibra emocionalmente (idiotice) e xinga indiscriminadamente. Sim, parece, novamente, que mais integrantes da torcida também xingavam o goleiro ou faziam sons que indicam algum tipo de desmerecimento em função de sua cor. Mas não foi, ao que parece, mais uma vez, pra ficar claro, uma ação organizada como o são os coros que entoam as torcidas organizadas para impulsionar seus times. Pensando nisso como uma ação isolada de um indivíduo – imbecil, que se diga -, comento buscando desmitifica-la um pouco.

 

A torcedora usou o termo que lhe estava a mão, digamos assim. Não significa que necessariamente ela seja uma pessoa que acha realmente que negros são cidadãos de segunda classe, que a escravidão não deveria ter acabado, que são eles, negros, os mais próximos de macacos ancestrais da humanidade e, portanto, menos evoluídos – até porque esse papo evolucionista é pura balela. Pode significar apenas – e, veja, não estou dizendo que é isso, mas que poderia ser – uma outra idiotice corriqueira. Pergunto-me, agora, porque vale chamar a mãe de um trabalhador de puta, ou mesmo mandar qualquer outro cidadão em campo introduzir algo em seu órgão excretor, e chamar um sujeito negro de “macaco” ou coisa pior seria menos horrível?

 

Eu sei, o que ela fez pode e deve ser um ato enquadrado como injúria racial, mas a reflexão que sugiro vai além da esfera legal, que pode sempre ser mudada. Falo de ética, e principalmente da nossa ação como terceiros nesse caso. Se ela fosse garçonete e se recusasse a servir o goleiro, eu a chamaria de racista, mas por xinga-lo de macaco num estádio não consigo concluir isso. Concluo, sim, que ela queria desestabilizar o goleiro adversário, e fez isso da forma mais vil.

 

Pessoas xingam pessoas de tudo que é jeito, usando o repertório vasto que a língua portuguesa oferece para tal, metodicamente, a cada quarta-feira e domingo. E tudo segue bem e feliz. “É a cultura popular!”, bradam alguns. Mas basta esbarrar numa questão racial que a gritaria começa. E se eu fosse a um estádio, num jogo do Japão, e xingasse todos os olhinhos puxados de “Amarelos”? Não terá o mesmo peso, obviamente, do que chamar um negro de… Negro! (Sim, a entonação pode detonar um desprezo e caracterizar um xingamento.) Ou de outros xingamentos do repertório racista constantemente elencado na imprensa. A história dos dois povos dá a diferença, sabemos, mas, porra!, quando vamos romper com isso? Quando vamos parar de falar nisso, como sugeriu Morgan Freeman, ao ser perguntando sobre a melhor forma de acabar com racismo? Quando mulatos, pardos e negros deixarão de se importar de serem chamados daquilo que não são? Porque, olha só, a mãe do juiz não é puta só porque disseram que é, nem os jogadores vão tomar no cu depois do jogo só porque os mandaram fazer (eu sei, eu sei, alguns vão). Mulheres de toda sorte já não ligam, nesse caso infelizmente, de serem chamadas de outro animal: cachorras. Que não liguem os negros também, como não ligo como pardo (se é que isso existe), de serem ofendidos por insultos baseados na cor de sua pele. Quer dizer, não liguem mais do que ligariam se os chamassem de ladrão ou filho da puta. Racismo está mais para segregação do que para palavrório ofensivo. Ou seja: importa mais, e legalmente deveria ser assim, se acontece a discriminação. Xingamento por xingamento, que xinguem de volta.

 

Tinga e Aranha não poderiam fazer isso, eu sei, esse é um problema. Mas também não o podem fazer juízes e jogadores xingados de outras coisas.

 

Enfim, o que farão com a torcedora gremista na internet provavelmente será pior do que o que ela fez com o goleiro Aranha, do Santos. Assim como o caso Zuñiga-Neymar. Demitida ela já foi.

Fernando Henriques
Idealizador e editor desta revista, Fernando Henriques é um consumista informacional. Formado bacharel em Ciências da Computação, encontra na Comunicação um elo natural. Viciado em séries, filmes, rock, MMA, política e desafios.

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