A Profecia de Bill Whittle: é a vez de Donald Trump?

A Profecia de Bill Whittle: é a vez de Donald Trump?

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Quando se fala em movimentos ou ideologia política, num primeiro momento nos vêm à cabeça os representantes que se apresentam como “elegíveis”: partidos e candidatos. Aquela gente pitoresca que pede o nosso voto, aperta a nossa mão e fala na língua das figuras de linguagem, qualidades, intenções e expectativas. Entretanto, esses, no mais constante, são a materialização de um sem fim de teóricos, militantes, blogueiros, escritores, professores, jornalistas, veículos de comunicação e patrocinadores que procuram influenciar a opinião pública. Todo um conjunto de postulados que parte de um determinado entendimento da realidade, transformado esta em propostas para a estrutura do Estado, participação na economia e ação política. Ou, pelo menos, quando se está mais para o que se entende ser “as direitas”, tentar demonstrar para o eleitor que não são os autoproclamados “humanistas tolerantes” que representam sua vontade – ou mesmo, defendem os valores fundantes da nação.

 

Na América, ao lado de Ben Shapiro e Dennis Prager, o nova-iorquino Bill Whittle se destaca como eficiente comunicador dos conservadores, capaz de transmitir, no debate público, o que o movimento entende, sempre através de símbolos de fácil assimilação para o público geral. Assim como Shapiro e Prager, Whittle aposta na comunicação direta de vídeos curtos onde traduz adequadamente um tema específico, aparentemente complexo. No Brasil contamos com o inestimável trabalho dos Tradutores de Direita para divulgação desses e outros tantos mais materiais, atingindo público mais amplo.

 

Entre esses vídeos está uma ótima palestra, onde Whittle faz considerações interessantes que serão objeto do presente artigo.

 

Diagnóstico e Profecia

 

A ocasião é a campanha presidencial de 2012, onde Barack Hussein Obama, buscando a reeleição, derrota o republicano Mitt Romney. Whittle está defendendo o candidato recém-derrotado em vez de pichá-lo como responsável unilateral pelo revés, enquanto analisa o quadro eleitoral constante na América. Transcreverei, a seguir, em itálico, as partes que desejo comentar. Mas recomendo que se assista na íntegra:

 

Link YouTube | A filosofia conservadora, por Bill Whittle

 

Creio que a lição fundamental que podemos aprender é: o problema que há tempos enfrentamos como conservadores e republicanos – e eu digo, por 10, 15, 20 anos… certamente desde Ronald Reagan – é que, como conservadores, não acreditamos na nossa própria filosofia. (…) a liderança republicana e todos os candidatos de nível nacional sofrem da Síndrome de Estocolmo. A cultura pop bateu tão forte neles que estão completamente sem vontade de defender publicamente aquilo que dizem crer. De certa forma, eles têm vergonha disso.

 

(…) de certo modo, Mitt Romney não acreditava na sua própria história de vida. Posso lhes dar um exemplo do quão sutil e inconsciente é isso de que Mitt Romney não cria na sua própria mensagem. Se ele não acreditava na sua própria história muito menos na do Partido Republicano. Você escutava a imprensa falar com Mitt Romney e eles perguntavam coisas do tipo: “Sr. Romney, você vale 200 milhões de dólares. Como é possível se identificar com o povo americano?”

 

Bem, um candidato que realmente acredita na filosofia do seu partido talvez respondesse a pergunta da seguinte forma: “Bom, primeiramente, Sra. Crowley, eu não valho 200 milhões de dólares, eu valho 250 milhões de dólares (…) cada centavo dos 250 milhões de dólares foi me dado livremente, sem numa coerção – não sou o governo, não tenho o poder para toma-los à força através de impostos (…) Eu paguei 60 milhões de dólares em impostos que financiaram direitos e programas sociais, previdência social e todas estas coisas. Os líderes comunitários não pagaram absolutamente nada. Eles distribuíram formulários, mas os formulários que as pessoas preenchem para conseguir benefícios são pagos por pessoas como eu (…) geramos 5 bilhões de dólares em riquezas para esta sociedade (…) Pessoas ao redor deste país, milhares, senão dezenas ou talvez centenas de milhares de pessoas receberam contracheques como resultado do trabalho que nós fazemos. Não demos “bolsas” a ninguém. Eu pago impostos para que outros recebam “bolsas”, mas nós pagamos salários que pagam os carros destas pessoas, a faculdade de seus filhos, suas hipotecas (…)

 

É assim que soa quando você acredita na civilização que diz representar. E, até encontrarmos um mensageiro que combine isso com a nossa mensagem, estaremos preocupados com coisas como estratégias para ganhar colégios eleitorais e previsões algorítmicas (…) ao contrário de muitos de nossos mensageiros, nossa mensagem é imbatível. Pense sobre isso: os democratas e os progressistas, com todo o apoio da mídia, com todas as estrelas do cinema, com todo o apoio da imprensa, com a mídia fingindo imparcialidade, as pesquisas com 30% de vantagem, com todas as coisas que eles estão fazendo direito e eles estão fazendo tudo certo. E você olha para as coisas que fazemos errado, ainda é um país dividido (50% x 50%). Quão pouco mais teremos de ser eficientes, para que nunca mais percamos outra eleição? Nunca. Nunca.

 

Alguém realmente acredita que estas duas mensagens são a mesma coisa? (…) vai dizer que estas visões são equivalentes? Claro que não são.

 

Farei uma previsão audaciosa agora. Prevejo que o próximo presidente dos EUA – estou convencido que será um conservador e estou convencido que será um Republicano, mas eu irei contra as expectativas aqui e direi que o próximo Presidente virá da cultura pop, da cultura geral.

 

Porque você não pode concorrer contra a sua própria cultura e vencer. Jamais. Enquanto eles dominarem a cultura, nunca venceremos (…). Então, o nosso Presidente que vier da cultura pop irá dizer às pessoas deste país: “Bem, a segunda emenda é o documento que me permite carregar esta pistola aqui. Tenho esta arma para matar homens maus. E, se você não acha que isso é importante, na próxima vez em que for ver um filme do James Bond, imagine ele indo para a missão armado apenas com uma carta da ONU”.

 

Bem… não poderia ter sido mais preciso, não é mesmo?

 

O candidato republicano oriundo da “cultura pop” segura um rifle enquanto defende o direito dos americanos a comprarem e portarem armas.

O candidato republicano oriundo da “cultura pop” segura um rifle enquanto defende o direito dos americanos a comprarem e portarem armas.

 

Donald Trump

 

Ainda que sua atividade profissional não seja a “cultura pop”, o pré-candidato republicano à presidência da América líder nas pesquisas, Donald Trump, é personagem constante na imprensa há 30 anos. Promotor vigoroso de sua atividade e empreendimentos, protagonista, por anos, do reality show sucesso de audiência O Aprendiz e uma figura tão conhecida do americano médio quanto Ronald Reagan quando este disputou prévias contra Nixon em 1968 ou quando venceu a presidência em 1980.

 

O modo com que Whittle se referiu à cultura pop traduz mais ou menos o conjunto de entendimentos do imaginário popular, orientado desde fora, da imprensa, televisão, com “lições de moral” produzidas em programas, séries, filmes etc.

 

Não são os valores tradicionais, fundantes ou religiosos, mas estes orientados a algo, somados a conceitos novos, ou instrumentalizados (como, por exemplo, fazer do humanismo e da caridade o confisco compulsório de renda para distribuição a partir da burocracia estatal, com arbítrio ideológico). Um candidato da “cultura pop” é um candidato com penetração e linguagem de acesso popular.

 

Aqueles que defendem a livre iniciativa, a mínima intromissão estatal na economia, na vida privada e o livre comércio, quando se veem confrontados com alguns dos resultados inequívocos e benéficos desta mesma filosofia política, mesmo assim se sentem constrangidos, são também vítimas inconscientes dessa propaganda.

 

Como no exemplo de Whittle, Romney ter gerado US$ 5 bilhões que pagaram salários, fornecedores, impostos etc. e ter retido 5% desse montante, os US$ 250 milhões que se viu “acusado” de possuir e sentir isso como um passivo eleitoral – não um ativo.

 

Ora, se você acredita na sua mensagem, sua história de vida é a comprovação dela, não algo a se relativizar em nome dos valores arbitrados pelos seus adversários: “se não puder se conectar com o povo simples, não serve ao cargo”. Serviço militar, carreira, sucesso profissional, desempenho como governador outrora valorizados (por óbvio) nas corridas na América, passaram a ser periféricos. O candidato na “arena” montada pelo discurso progressista do partido Democrata, antes de ser capaz de propor meios eficazes para melhorar a vida da população, só será capaz disso se “sentir” como o povo e tiver um determinado escopo de intenções dadas como basilares. Se seu adversário disser onde você vai lutar e quais armas pode usar, você já perdeu.

 

Trump acredita em sua própria história de vida. Não está constrangido, de forma alguma, em possuir o que possui, em ter construído o que construiu. Muito pelo contrário: têm orgulho de ser quem é, dos US$ 4.100.000.000,00 que arregimentou (segundo a Forbes, fazendo de Romney um trombadinha) e da área em que opera. Tem funcionado muito bem como uma defesa ao constrangimento que adversários e a grande imprensa tentam lhe imputar.

 

Trump é o próprio capitalismo clássico americano encarnado. Diferente de Wall Street, que a população não conhece adequadamente o funcionamento e toma o conceito midiático de “rentistas” por verdade; empresas de comunicação, que olham com desconfiança ou até as corporações de tecnologia, vulneráveis a novidades e de valoração transitória, os negócios de Trump em empreendimentos imobiliários e edifícios comerciais (real estate), hotéis, advindos do construir, administrar o que criou, empregar, promover, são atividades “visíveis” e palpáveis”. A lógica de correr riscos, tomar empréstimos e acreditar no empreendimento são absolutamente traduzíveis ao americano médio. Eventualmente, até relacionável à sua própria iniciativa privada de menor escala.

 

O público gosta de convicção, principalmente no seu Commander-in-Chief. É um enorme ativo político. Convicção não falta a Donald Trump. Aliás, como salientou Ben Shapiro, um dos pontos fortes na mitologia desta candidatura é a imagem de que ele jamais irá retroceder: he will never back down.

 

Se ele nunca irá retroceder (ou, pelo menos, assim sentirem seus apoiadores) não será por medo de pressão vinda da imprensa ou do establishment (e há um grande sentimento anti-establishment na eleição americana) que Trump deixará de fazer aquilo a que se propõe. Só não fará se estiver mentindo.

 

Entretanto, uma vez que é conhecido há 30 anos, há tempo mais que suficiente para os americanos acharem que conhecem Trump e, então, perdoar seus pecadilhos e contradições no decorrer da campanha. Uma personalidade tão popular está menos sujeita a ataques de adversários e da grande imprensa: se já o “conhecem” há 30 anos, já possuem uma imagem formada sobre. A disposição sobre o que entendem do sujeito não mudará por uma contrariedade aqui, outra ali.

 

Por isso, quero crer, sua profetizada queda a cada escorregada ou ataque feroz não ocorre. A despeito disso (ou justamente por isso, estimulando que o apreço pessoal se volte para o instinto protetor), os índices de Trump só têm aumentado.

 

“O Aprendiz” – reality show que fez do já conhecido e querido bilionário Donald Trump um protagonista da cultura pop na América

“O Aprendiz” – reality show que fez do já conhecido e querido bilionário Donald Trump um protagonista da cultura pop na América

 

A América tem uma média de 56% de votantes aptos comparecendo às urnas nas eleições presidenciais. Um candidato “da cultura pop” possui o potencial de buscar justamente o voto deste americano que, pela formação política dos EUA, onde as prefeituras e estados são menos dependentes do governo federal, demonstram pouco interesse em políticos anódinos e a discursos politicamente corretos.

 

Conservador ou Oportunista?

 

Se compararmos a um “ideal” de candidato conservador (e isso sempre é temeroso – Churchill, Thatcher e Reagan não vão levantar do túmulo para concorrerem na América ou no Brasil) ou ao mais leal aos princípios dessa corrente na disputa – o senador texano Ted Cruz, Donald Trump não é tão conservador e, ainda menos, liberal.

 

Defendeu boicote aos produtos da Oreo pelo fato da empresa ter fechado a produção na América e se mudado para o México, levando consigo inúmeros empregos. Ainda que queira fazer um afago aos trabalhadores de baixa renda (mesmo mote do fechamento da fronteira para latinos), trata a coisa pelo aspecto errado e deseduca o debate. Nos EUA, o açúcar é sobre-ultra-monstra taxado.

 

Os progressistas-humanistas-tolerantes, detentores de todas as boas intenções, tentando salvar os americanos deles mesmos, tiraram a liberdade de escolha promovendo essa lei autoritária. São esses os reais causadores da perda de empregos, não a empresa que busca um local onde pode produzir e continuar competitiva.

 

Na mesma linha, faz bravatas sobre a importância da Apple produzir iPhones “100% americanos”, gerando empregos no país. Fabricar na China a tecnologia desenvolvida na América não acontece por simples gosto da Apple, mas como resultado de custo x benefício.

 

Trump também é defensor de impostos progressivos, algo que afeta muito mais o alto assalariado do que o rico, alvo no imaginário popular desta medida – pois estes possuem ferramentas para driblar a tributação.

 

Como entendimento sofrível final, num tema onde a economia se mistura com a geopolítica, acredita que a Rússia pode ser um parceiro comercial e Putin um aliado confiável. Tudo isso é uma grande tolice e, caso eleito, espero que seus assessores consigam levá-lo a rever essa posição.

 

Por outro lado, não se deixou pautar pelo arreio verbal do politicamente correto. A seu modo e conhecimentos, não há nada mais conservador do que chamar as coisas pelo nome. E sem chamar as coisas pelo nome não há debate adequado em área alguma.

 

Cansados do patrulhamento verbal de histéricos, que tomam qualquer adjetivo ou frase fora do lugar como prova cabal do aparelho mental do interlocutor (e entendimento preconceituoso deste), a população americana não aguenta mais ser tratada como machista, fascista, racista.

 

Também não quer mais pagar mais impostos para que esses supostos males, tratados como a quintessência do problema da América, sejam recursos que democratas distribuam em forma de benesses (não à toa, Olavo de Carvalho e Alexandre Borges insistentemente repetem que a agenda política progressista é “importada” da esquerda americana, onde esses temas citados viraram a pauta número um dos grupos de pressão no Brasil – um pais rumando ao abismo econômico e de 60 mil assassinatos/ano).

 

Kim Kataguiri, num exemplo de como essas inferências devem ser tratadas, em entrevista para a TV Folha, responde à pergunta sobre seu suposto machismo por piada posta no Twitter dois anos atrás. Indagado se ainda pensa da mesma forma, respondeu: “Aquilo não é uma maneira de pensamento. Aquilo não é uma ideologia. Aquilo é uma piada. Então é difícil falar que eu continuo pensando de acordo com uma piada”. E esse é o ponto de Trump: não se deixar constranger, muito menos policiar, por chamar as coisas por seu nome, ou por dizer algo fora do catálogo arbitrário e ideológico de “expressões permitidas”.

 

A polêmica proposta do muro na fronteira EUA-México, tratado de modo espetaculoso na tentativa de fazer do pré-candidato um racista, lunático e xenófobo, pode ser resumida assim: imigração não é invasão.

 

Imigrante é o sujeito que “preenche um papel” e, por vias legais, procura fazer parte da comunidade dos Estados Unidos da América. O imigrante ilegal, que entra aos milhares sem controle de background, este tem de ser combatido. Sem controle, junto do indivíduo em busca de trabalho, entra o traficante, o oportunista da rede de benefícios sociais e o assaltante.

 

Não se amedrontar com a gritaria de militantes e imprensa que buscam pautar o debate público para longe dos assuntos que a população média e candidatos republicanos desejam, procurando rotular estes de racistas, machistas e toda a sorte de depreciativos, é o grande ativo político e lição de Donald Trump.

 

Se eu fosse eleitor na América, estaria entre os 77.000 voluntários de Ted Cruz, um candidato doutrinariamente conservador nos valores e liberal em economia. Aos 13 anos já participava do Free Market Education Foundation, estudando Milton Friedman e Fréderic Bastiat (autores com os quais fui travar contato só na idade adulta e nem quero comentar o que pensava e fazia aos 13 anos). Orador qualificado, debatedor brilhante (campeão nacional de debates em 1992, o equivalente ao All American no wrestling – os que acompanham UFC sabem quão prestigioso é um título assim), passagem por Harvard e Princeton e defensor de um flat tax de 10%.

 

Entretanto, o discurso direto e claro, oriundo da “cultura pop”, como previu Bill Whitle, tem mantido o empresário-show man muito à frente do jovem senador e cunhando uma lição política que espero apreendida em todo o Ocidente: não aceitar ser pautado e encurralado pela tutelagem progressista.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    Merlin, parabéns por este ótimo ensaio. Rico em conteúdo e assertivo em análise. Não é exagero dizer que é o melhor texto da Feedback em 2016. Novamente, parabéns!

    • Dagon

      Excelente. Merecia uma tradução a altura para circular na blogosfera americana.