A política em “Batman – The Dark Knight Rises”

A política em “Batman – The Dark Knight Rises”

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Muita especulação sobre a política neste filme, mas o caráter conservador e antirrevolucionário do roteiro é inquestionável, a quantidade de referências que reforçam a ideia não dão margem a dúvidas: Bruce Wayne é um conservador e Christopher Nolan mais ainda. Um resumo do que é a política em “Batman – The Dark Night Rises”:

 

  • A figura central é o herói, um bilionário, que não tem superpoderes. Seu dinheiro, sua inteligência, seu caráter incorruptível e seus valores morais são suas armas contra o mal. E o mal existe.
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  • Os problemas começam com as empresas do herói não dando lucro, o que tem consequências inesperadas e danosas para os necessitados. Crianças em orfanatos ajudados pela Wayne Enterprises enfrentam dificuldades e isso faz com que jovens sejam mandados às ruas (e esgotos). É o lucro privado de Wayne que ajuda essas crianças, não o Estado. Sem lucro, sem filantropia, mais crianças abandonadas nas ruas.
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  • O vilão Bane vem de um ambiente quase idêntico a uma visão ocidental (ou eurocêntrica, para usar um termo que a esquerda adora) de lugares inóspitos como o Afeganistão, com suas cavernas e desertos, seus ditadores que ordenam castigos cruéis e torturas até para os próprios familiares.
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  • A vilã principal usa como plano para destruir o ocidente um discurso pseudo-ambientalista, contra energia fóssil e a favor de fontes de energia sustentáveis, uma ótima máscara, politicamente correta, para alguém com dinheiro e péssimas intenções.
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  • Bane é um terrorista que quer espalhar o caos com bombas, mas enquanto o Coringa do filme anterior é um agente do caos isolado, Bane é ideológico, tem ideias, e é um “mobilizador” de massas, quase um populista. Bane cria uma espécie de revolução jacobina misturada com Occupy Wall Street, “99% contra 1%”, que é de um didatismo sem igual sobre como nascem e o que são essas revoluções na verdade.
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  • Bane começa sua revolução abrindo as portas da “Bastilha”, cujos presos são chamados de oprimidos e convidados a se vingar dos “opressores”, na verdade pessoas comuns usadas como bodes expiatórios.
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  • Os revolucionários invadem ambientes luxuosos como faziam os jacobinos, criam tribunais de exceção como os jacobinos e dão sentenças sumárias como eles. E o primeiro a morrer é o rico que ajudou Bane. Ele pede a ajuda de Bane no momento do julgamento, achando que por ter dado dinheiro a ele antes da revolução isso salvaria seu pescoço, como todo rico de miolo mole pensa ao dar dinheiro para revolucionários. Churchill dizia que é como alimentar o crocodilo achando que será devorado por último.
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  • Os ocupantes da bolsa de valores são jovens barbudos com roupas de universitários, quase copiados do Occupy; é o Occupy Gottham City.
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    Toda semelhança não é mera coincidência.

    Toda semelhança não é mera coincidência.

     

  • Todo discurso de Bane é baseado em guerra de classes e ódio contra os ricos. Ele se coloca como um libertador contra os opressores para que o “povo” tome conta da cidade. Ele finge que o povo terá o controle para dominá-los.
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  • Gottham estava em paz pela “Dent Act”, uma lei de exceção eficiente, feita pelos bons, bem intencionada, mas baseada numa mentira. O comissário Gordon pensa em contar a verdade sobre quem era Harvey Dent, mas fica em conflito porque sabe que a mentira funcionou para unir a cidade no combate ao crime: “metade dos criminosos de Gottham estão na cadeia por causa dessa lei e a morte de Harvey não foi em vão”. É quase um toque de Nolan para seus amigos conservadores: “vocês estavam certos, mas da próxima vez não usem de justificativas falaciosas, vidas foram salvas por conta do combate firme e sem tons de cinza contra o mal, era o que se tinha que fazer, mas mentindo vocês vão macular sua autoridade moral, em algum momento isso será usado contra vocês.”
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  • Os inocentes úteis revolucionários, a serviço dos vilões, quebram a bolsa de valores, batem e matam os ricos, saqueiam suas casas, e o resultado é uma sociedade caótica e que está a caminho da destruição. Quem continua ajudando a população, mesmo que ela não saiba, é o rico altruísta retratado por Bruce Wayne. Depois do movimento revolucionário, Gottham vira uma ilha que ninguém pode entrar ou sair, aterrorizada, sem liberdade e dominada por um pervertido ideológico e assassino, como Cuba.
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  • A verdade sobre Harvey Dent cai nas mãos dos vilões e é usada para causar a desunião, dúvidas e divisões do lado dos heróis. Gordon leva um puxão de orelha do jovem policial idealista, reforçando as críticas de Nolan.
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  • A cena do estádio é o 11 de setembro. Uma criança cantando o hino americano num momento de pura inocência é tocante, inspirador, é o “american way of life” retratado em todas as cores e sons, algo que toca até Bane. Mas logo embaixo da “superfície”, do que o povo sabe ou vê, está o perigo. O preço da ignorância sobre o mal é a própria morte.
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  • Bane manda as pessoas voltarem às suas casas e depois “assumir o controle da cidade”. Ele planeja destruir a cidade, mas antes quer dar uma sensação ao povo de que aquilo era um ato libertador.
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  • Bane declara publicamente que dá o detonador da bomba a um cidadão comum, mas é mentira, revolucionários não fazem isso, são sempre eles, os vilões, que estão no controle.
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  • O lado “do bem” é representado, além do bilionário moral, pela a polícia e pelas forças armadas do país, as forças da ordem, e não pelo prefeito e pelo presidente, políticos que fazem concessões demais ao populismo. O vilão é o estrangeiro anti-americano criado no deserto que quer fazer atentados terroristas e espalhar morte e terror nos EUA.
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  • Os “cavaleiros das sombras” querem “reequilibrar o mundo” destruindo o ocidente como todo esquerdista anti-americano. O grupo não é assaltante, é ideológico. Alfred diz sobre Bane: “ele não é um bandido comum, vejo crença nele”.
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  • Bane diz ao cientista russo que, pelo bem dos filhos dele, seu plano tem que dar certo. Seu plano terrorista para destruir os EUA beneficiaria a próxima geração de russos.
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  • O presidente não negocia com terroristas, mas também não os confronta diretamente, ele acaba aceitando os termos dos terroristas mesmo sem reconhecer isso publicamente, uma crítica mitigada ao poder constituído que não combate o terror.
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  • Batman é finalmente convencido de que ele precisa fazer uma guerra para vencer o mal, ele usa essa palavra literalmente. O Batman que não mata e não usa armas morreu, nasce o Batman que mata e faz guerras para combater terroristas e o mal.
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  • A Mulher-Gato tem sentimentos e dúvidas morais que acabam com sua ideia inicial sobre ser “Robin Hood” e ela se redime, inclusive casando com Batman no final. Ela é a americana revolucionária que, ao perceber no que dá se envolver com isso, cai na real e volta atrás, se juntado aos que defendem seu país.
Alexandre Borges
Alexandre Borges é carioca, flamenguista, pai de uma princesa, mas sem títulos nobiliárquicos. Publicitário, diretor da B Direct Comunicação e do Instituto Liberal.

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  • Thiago Grossi

    Exatamente por isso que eu acho que Man of Steel é “liberal-conservative”.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Não vi ainda, mas pelos comentários, Man of Steel apresenta um superman não reaça, menos coxinha. Isso não vai de encontro a ser liberal-conservative?

      • Thiago Grossi

        Na minha visão, o elemento “liberal” (aqui no sentido original) do filme não é o Superman, mas o Jor-El, que se coloca contra o planejamento central e defende que as pessoas devem escolher como se portar. O filme chega até a abandonar a visão (homogênica em Hollywood) ambientalista: Jor-El diz que um dos motivos da extinção de Krypton foi que eles não exploraram outros planetas como poderiam.
        Não esqueçamos que Man of Steel também é um filme do Nolan.

        • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

          Verdade, existe esse lado. Vamos registrar aqui nosso pedido para que o Alexandre analise politicamente o filme futuramente, nesta coluna.

  • Jonathan

    Ótimo comentário. Sempre achei que envolver a política nesta
    franquia nunca foi à intenção do Christopher Nolan, mas nunca dava para não notar que ela estava ali. Eu não diria que “O Batman que não mata e não usa armas morreu, nasce o Batman que mata e faz guerras para combater terroristas e o mal.” Mas sim que nasceu um novo Batman, um mais humano que admite ter medo e principalmente ter medo de morrer, um que percebe que não pode fazer tudo sozinho porque “não matar” é a única regra que ele segue e nunca vai quebra-la.

    Também colocaria a Tália Al’ghul como sendo a verdadeira
    mente revolucionaria por trás de tudo, pois o Bane seria nada mais que um “fantoche
    populista” poderia até dizer que ele seria um “Lula” e ela seria a mão que
    trabalha nas sombras.

    Segue um link com uma análise politica também bem interessante:
    http://caixadegibis.blogspot.com.br/2012/08/uma-resenha-de-tdkr-batman-o-contra.html

    • Alexandre Borges

      Sim, a Talia é a mente por trás, mas sem Bane, o populista revolucionário, o braço armado da revolução, nada acontece. Uma revolução pode nascer na mente de intelectuais, mas só acontece quando revolucionários pegam em armas ou disputam eleições para a efetiva tomada do poder. É uma relação simbiótica.
      Obrigado pelo comentário! Abs

  • Iuri

    Sua análise sobre o viés conservador do filme é bastante interessante. Já suas analogias maniqueístas ao extremo e pró-conservadoras a nível infantil beiram o ridículo.

    Qualquer cena do filme virou o que você quis enxergar. Você seria um ótimo leitor de Nostradamus ou pastor evangélico.

    • Daniel Duarte

      Nossa Iuri palavras rebuscadas hein!!! pena que vc não passa uma análise do filme já que vc é um protótipo de gênio…
      Esse tipo de gente como Iuri tem nada ou bem pouco a dizer, então como ele não tem conteúdo algum, seu recurso único é colocar palavras difíceis que nem ele mesmo sabe o que significam pra paracer intelectual. Não sabe contradizer nada, não tem argumentos, só sabe ofender e ridicularizar. Essa é a regra básica de todo comunista idiota, ridicularizar. Cresce intelectuau com U!!!

  • Bruno Gomes

    Pode ser ingenuidade minha, mas acho que é coincidência. Lembro que na trilogia, o sistema de classes é criticado do tipo “enquanto tem algumas pessoas no luxo desnecessario, tem muita gente passando necessidade nas ruas”. E Quem dera se todo reaça fosse como o Batman, quem dera.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Mas Bruno, mesmo que tenha sido sem querer, o produto final foi isso apontando pelo Alexandre.

  • Nando
    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Mas que bosta, não?! Logo um dos maiores ativistas políticos não conservadores de Hollywood, parece até que foi sacanagem.

  • Del Monee

    Interessante seria incluir na análise a história em quadrinhos original que resultou na adaptação. É a minissérie O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, publicada no Brasil em 1987. Outras tramas dos gibis foram mixadas no conjunto cinematográfico, como a bem posterior envolvendo Bane. Mas o Cavaleiro das Trevas já trazia um teor político como raramente visto antes em quadrinhos de heróis do mainstream.

  • Anderson Castanho Gatti

    Quando assisti ao filme, senti um ar de “socialismo selvagem” nas ações de Bane e Tália

  • Natalia Larroyed

    Começou interessante… Mas..depois viajou geral..
    no caso, crianças abandonadas não é obrigação de empresas…. Wayne ajudava… mas por causa da omissão total do estado e da corrupção… aqui no país o governo tem as “bolsas-voto” que dão grana por mês para “Mais necessitados” e em troca lá na frente querendo ou não ganharão votos com isso…hehehehe
    “Os inocentes úteis revolucionários” nahh.. os que fizeram as atrocidades, foram centenas de criminosos que Bane libertou da cadeia… e nesse topico eu acho que comparar gotham com cuba, foi meio tenso…
    Daqui por diante acho que tu meio que se perdeu…
    Bane propõe ilusão de anarquia…tipo tomem o poder, mas o povo mesmo n sabe o que fazer com ele…
    “O vilão é o estrangeiro anti-americano criado no deserto que quer fazer atentados terroristas e espalhar morte e terror nos EUA.” nahh.. a Liga das Sombras, a qual ele foi expulso, n foi criada pra atacar diretamente os EUA…eles (segundo a trilogia) atacaram Roma, etc etc etc…. Gotham é o simbolo da decadencia por causa da corrupção e nhenhenhe, o crime “das ruas” estava controlado, mas n o do colarinho branco, a cidade poderia ser qualquer uma da europa..
    “Seu plano terrorista para destruir os EUA beneficiaria a próxima geração de russos.” eu vou até rever o filme pq não lembro dele dizendo que beneficiaria russos…
    “O Batman que não mata e não usa armas morreu” nahhhhh.. o que eu senti com a trilogia do Nolan foi justamente o contrario, inclusive no primeiro ele não mata, mas também não salva… Mostra um batman mais humano e mais “malvadão” também….
    A mulher Gato n tinha sentimento de Robin Hood, inclusive ela mesmo admite isso quando está dançando com Bruce.. Ela rouba para ter em troca coisas para beneficio proprio.. “Ficha limpa” não era para “dar aos pobres” era pra limpar a cara dela… E o ap dela tu ja viu o quanto de tralha que tem lá?

    Tu enxergou o que quis, e na minha humilde opinião, tu distorceu horrores e é a típica visão do “homem das cavernas” de Platão…. Não digo que a esquerda é a luz da humanidade, mas a tua ideia de extrema direita, menos ainda.

    • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

      Extrema-direita?

      • Lenilton Morato

        Pois é fernando… Qualquer coisa que se diga que seja não esquerdista é automaticamente classificada como extrema direita no país do Imbecil Coletivo.

  • Eduardo

    Ótima análise Alexandre. Só não entendi a parte que você coloca que o Batman usaria armas e mataria. Eu não vi isso no filme, e no final das contas, pelo que conheço da história do Batman, além do filme, isso nunca aconteceria. Essa é a única regra moral do Batman e ele não a quebraria

  • Daniel Duarte

    Cara show de bola esse site!!! parabéns Alexandre por esse trabalho.
    Ainda não tive tempo de explorar bem o site, mas tem dois ou três filmes ótimos que gostaria que vc comentasse, um deles é documentário do Netflix, se trata de jovem de 14 anos acho em Hong Kong contra o comunismo da China, história verdadeira de arrepiar que não é muito divulgada. Outro é filme dirigido pela Angelina Jolie ” First They Killed my Father…” baseado em fatos reais também sobre os comunas. Terceiro eu fico devendo o nome mas também está no Netflix., show de bola sobre a crueldade do exército russo contra ele mesmo. Valeu Um abraço!

  • Daniel Duarte

    O nome do terceiro Filme : Círculo de fogo com Jude Law, também no Netflix.
    Em um trecho do filme a elite do exército vermelho é enviada na retaguarda dos soldados comuns que iam na frente com pouquíssima munição e mal armados, para que os soldados da linha de frente não recuassem os soldados russos de elite iam atrás deles atirando pra matar e forçando-os a lutar, era morte certa, genocídio praticado contra o próprio exército!! comunista é tudo de bom não é mesmo? e no fim do filme tem um diálogo muito revelador sobre a motivação comunista dos revolucionários: ” Todo comunista é brutalmente invejoso…” Eu Recomendo!