A Paz a Qualquer Preço – Da Coreia à Síria

A Paz a Qualquer Preço – Da Coreia à Síria

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“It is our cause to dispel the foggy thinking which avoids hard decisions in the delusional that a world of conflict will somehow mysteriously resolve itself into a world of harmony, if we just don´t rock the boat or irritate the forces of agression – and this is hogwash.”
B. Goldwater

 

No dia 4 de abril de 1949, em Washington, DC, foi assinado o tratado do Atlântico Norte pelos Estados Unidos da América, Reino Unido, França, Canadá, Itália, Portugal, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Islândia, Luxemburgo e Noruega. A OTAN nasce do Artigo 5º, no qual se declarava que “Um ataque armado contra um ou mais países membros será considerado uma agressão contra todos.” Sob muitos aspectos, a Guerra Fria estava ganha ali.

 

Quando olhamos para trás e vislumbramos a Guerra Fria no molde original em que foi concebida (ela não chegou realmente a acabar, não é verdade? Não houve um fim concreto da União Soviética, pois, os mesmos que formavam o Politburo organizaram a transição. Os russos são, até hoje, muito conscientes da força e consequências desse tratado. Não obstante a tentativa de empregar uma narrativa distorcida às correlações de forças geopolíticas, impossível não enxergar sua frustração, ainda hoje, com o que a OTAN significa. Teóricos ideólogos reinterpretam o passado da correlação de forças geopolíticas de trás pra frente, à luz da Otan, que seria a materialização institucional moderna de uma tendência desde “sempre”) pensamos apenas na América contra a União Soviética. Mas envolvia, mesmo que de modo indireto, todos os signatários.

 

O modo de produção do Ocidente, baseado na economia de mercado, livre iniciativa e propriedade privada, produziu uma riqueza extraordinária, proporcionando uma recuperação material pós Segunda Guerra inalcançável do outro lado da Cortina de Ferro. Esse fato, somado ao poderio da América, fazia do embate direto uma impossibilidade – por mais que a propaganda soviética trombeteasse o contrário. Ainda que o risco de guerra nuclear preocupasse o mundo desenvolvido, a vitória, caso a “mãe Rússia” optasse pelo confronto, mesmo atacando antes, mesmo gerando pesadas perdas, não viria. Um aliado em potencial, a China, só trilharia o caminho da prosperidade material a partir de 1975, com Deng Xiaoping assumindo o controle do Estado (essa história merece ser contada adequadamente, e pretendo fazê-lo no futuro). Produziria resistência, mas não vitória.

 

Sem possibilidade de derrotar ou superar seus adversários na corrida civilizacional, os comunistas focaram forças na infiltração, subversão, guerra ideológica instrumentalizada e, paralelamente (até porque uma coisa está intimamente ligada à outra), financiar tomadas de poder pelo método insurrecional. Algo que conheciam bem e pode ser rastreado desde que Marx procurava fazer o mesmo.

 

Até aqui, história velha, todos conhecemos. Serve apenas como produto introdutório.

 

Um evento no decorrer desse processo, porém, se mostra fundamental. A partir da crônica dele, podemos fazer um paralelo entre hoje e o modo com que a América lidava, ontem, com problemas internacionais, ajuda a aliados e defesa a valores: a Guerra da Coreia.

 

As Consequências de Yalta e Potsdam

 

Entre 17 de julho e 02 de agosto de 1945, na cidade de Potsdam, Alemanha, os vencedores da Segunda Guerra Mundial acertavam detalhes da “arena” em que se travaria a Guerra Fria e, também, o destino da Coreia. Temos de consentir que Stalin abocanhou mais do que deveria e do que “merecia”. A esteira de seu sucesso negocial vem desde 1943, quando o presidente Roosevelt começou a chama-lo de “uncle Joe”, levando o ditador soviético a dizer: “conquistei o aleijado”.

 

Gary Kern, em excelente ensaio, traduz que a entrega de grande naco da Europa na mão dos comunistas deriva da enorme confiança de Roosevelt em seus poderes de persuasão, profunda ignorância da ditadura bolchevique, projeção de suas motivações humanitárias em sua contraparte soviética, resistência determinada às evidências e avisos contrários e seu “wishful thinking” quanto ao redesenho geopolítico.

 

Em Potdsdam, a América já era representada pelo sucessor de Roosevelt, Harry Truman. O local foi escolhido por Stalin e, antes que os americanos chegassem, tal qual conta David McCullough na detalhada biografia deste presidente, os soldados soviéticos já tinham ocupado as propriedades, expulsado os que lá viviam, batido nos donos, removido e confiscado seus pertences (incluindo livros raros e manuscritos), substituindo-os por um grande piano e móveis lúgubres. Tudo isso foi simplesmente “aceito”.

 

A Coreia, como é sabido, foi anexada pelo Império do Japão em 1910. A influência, entretanto, remonta da Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1896), que gerou ocupação militar; e da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), evento onde o império do Sol Nascente derrota o czar e faz dos coreanos um protetorado (chegando a proibir uso da língua e literatura locais). A derrota do Japão na Segunda Guerra (que chegou a ter 300 mil soldados em ativos neste país em 1945) faz da península coreana matéria de tratados dos aliados. Entre as concessões equivocadas a Stalin está a ocupação de parte desse país pelos russos. Estes que sequer estiveram em novembro de 1943, na conferência realizada no Egito, onde a China, Reino Unido e os Estados Unidos decidiram que “a Coreia se tornaria uma nação independente após a guerra“. Na Conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, a Coreia entra na zona de influência soviética. Na conferência de Potsdam, são oficialmente divididas as áreas de influência a partir do paralelo 38.

 

O Paralelo 38 e a divisão entre as Coreias

O Paralelo 38 e a divisão entre as Coreias

 

A presença soviética faz da Coreia área de tensão tal qual a divisão alemã. Esse expediente alonga o período de transição, em que o general americano John Hodge gere um governo militar no sul da península.

 

Como todos os países uma vez inoculados da ciência e técnica da ação revolucionária conhecem, a partir de 1946 a Coreia passa por greves, protestos, levantes populares, mobilização estudantil, e, finalmente, tentativas insurrecionais, como a Insurreição de Jeju de 3 de abril de 1948 – contida militarmente.

 

A Rússia não permite a participação e supervisão das Nações Unidas numa eleição de uma Coreia unida. Não poderia. As regras precisariam obedecer às normas então consagradas no Ocidente, do sufrágio democrático. Por isso, em 10 de maio de 1948, a Coreia do Sul convoca sua própria e primeira eleição nacional – sob protestos dos soviéticos. Em contrapartida, é organizada em 25 de agosto, eleições gerais na Coréia do Norte. O método escolhido para essa, tão ao gosto do comissariado político apparatchik, só permitia UM candidato por distrito eleitoral, justificando o porquê da recusa pela supervisão da ONU.

 

As eleições na Coreia do Sul, como não poderia ser diferente, tendo grupos revoltosos instrumentalizados pelo Kremlin e Coreia do Norte, produziu muita violência. Syngman Rhee, o presidente eleito, ciente das impossibilidades de conviver com adeptos de um regime que jamais aceitariam pacificamente a alternância transitória das urnas, impõe uma linha anticomunista em seu regime. O conflito com sua contraparte se mostraria inevitável.

 

As tropas nominalmente soviéticas se retiraram da península em fins de 1948, conforme tratado firmado com os países ocidentais. Os americanos os seguiram em 1949. A diferença estava na disposição da América em deixar a Coreia definitivamente, em sua autodeterminação, e dos russos em financiar a unificação por tomada militar. O “presidente” norte-coreano, Kim Il-Sung (avô do atual ditador caricato, fazendo da definição “República Democrática Popular” da Coreia do Norte, uma piada macabra desta proto-monarquia totalitária), contando com farto armamento russo, 50 mil soldados do Exército da Libertação Popular (outra nome-piada lúgubre) chineses de etnia coreana como reforço, cruza a fronteira da Coreia do Sul em 25 de junho 1950, sob proteção de artilharia pesada. Alegando que os sul-coreanos cruzaram a fronteira primeiro, caminham ao sul com a intenção expressa de executar Syngman Rhee. A pouca estrutura militar, fez do avanço comunista algo relativamente fácil com, inclusive, a evacuação de Seul pelos sul-coreanos.

 

Sul-coreanos fogem das áreas de combate

Sul-coreanos fogem das áreas de combate

 

Da ocupação de Seul decorrem massacres de lado a lado, como a execução de mais de mil pessoas em um hospital universitário sul-coreano, pelos norte-coreanos.

 

O Maldito Imperialismo Ianque

 

Os pedidos de ajuda dos sul-coreanos levaram às Resoluções 82 e 83 do Conselho de Segurança da ONU, autorizando a intervenção militar no conflito. Sob o comando do General Douglas MacArthur, veterano comandante da Segunda Guerra, a América manda, a partir de junho de 1950, mais de 300 mil de seus homens ao continente longínquo para proteger um aliado. 36.574 não retornariam vivos para casa e mais de uma centena de milhar voltaria ferida e mutilada.

 

Após empurrar os norte-coreanos para o norte, a expressa vontade de MacArthur de levar a guerra à China (que considerava um perigo perene à região, que já se materializava com 50 mil soldados participantes no início do conflito) fez com que Mao (após, claro, este se reportar ao Politburo, em um tempo que os chineses não gostavam, mas sentiam a liderança da Rússia) entrasse no conflito após as forças da ONU, liderada pelos americanos (que compunham quase a totalidade do financiamento material e de tropas não sul-coreanas) cruzarem o paralelo 38.

 

Mais de um milhão de chineses participariam do conflito engrossando as tropas norte-coreanas. A China carecia de equipamento equivalente ao ocidental (carência mitigada pelo Kremlin) e de suprimentos (aqui, não podiam ser ajudados), mas tinham uma vastidão de homens a jogar no inferno da guerra, tal qual os russos na retomada de Stalingrado – onde metade dos soldados entrava com arma, mas sem munição e a outra metade com munição, mas sem arma. Para lutar tinha de pegar o que lhe faltava de um combatente morto.

 

A ameaça de MacArthur de destruir a China caso esta não se rendesse, somada aos desentendimentos sobre quem deveria possuir a decisão de uso ou não das armas nucleares, ele ou o Presidente (apenas os americanos possuíam domínio completo de armas nucleares à época. Os russos fariam seu primeiro teste nuclear em agosto de 1949 e só teriam uma arma adequada em 1953), levaram Harry Truman a substituí-lo pelo general Ridgway. Uma longa negociação de armistício se inicia com a guerra em andamento, até o reconhecimento mútuo da existência de ambas as Coreias e a interrupção da guerra em 27 de julho de 1953.

 

A resposta à agressão dos norte-coreanos ao seu aliado, não apenas com dinheiro e armamentos, mas com tropas e comando, compreende o entendimento de então: que a defesa de conceitos e valores, da ideia mesmo da liberdade e apoio a aliados, tinha um modo certo de ser feito. A guerra é algo terrível e não pode ser desejada, mas a manutenção da liberdade só pode ser feita à força contra invasores e saqueadores. Os Estados Unidos se retiram, a Coreia do Sul, à época da Guerra contando com uma economia menor que do Haiti, hoje é um “player” internacional, de tecnologia vanguardista e, para os americanos, um rival comercial em determinados mercados, inclusive “dentro de casa”. O lamento fica pelos coreanos do norte, que não concebem o conceito de liberdade e autodeterminação, tendo saído de décadas de domínio pelo Império do Japão, para virar uma ditadura totalitária comunista. Os valores e a liberdade são mais importantes que a paz, pois esta advém daqueles.

 

O contraste entre as duas Coreias e o resultado do sacrifício

O contraste entre as duas Coreias e o resultado do sacrifício

 

O Triunfo Desamparado

 

Ainda a América entendia o preço da liberdade pela eterna vigilância, como dissera Thomas Jefferson, imortalizando o princípio. Em 1950, atendem aos pedidos de ajuda da França em suprimentos, estratégia e treinamento de soldados vietnamitas em sua guerra na Indochina. Quatro anos depois, a América já tinha fornecido 300 mil armas e o governo Eisenhower bancava cerca de 80% do custo da guerra francesa no Vietnã. O Viet Minh (movimento revolucionário instrumentalizado por chineses e soviéticos, criado nominalmente por Ho Chi Minh, em 1941, na China, visando a independência do Vietnã da França) recebia, como não poderia ser diferente, suporte de soviéticos e chineses. Equipamentos entravam pela fronteira dos dois países.

 

Derrotada na batalha de Dien Bien Phu, a França se retira da guerra que já vinha desde 1946. Em Genebra, Laos e Camboja também caudatários dessa derrota francesa, rompem os laços. Todos os três estão, a esse ponto, instrumentalizados de aparelhos visando a insurreição alinhada às potencias comunistas.

 

O Vietnã também é dividido em dois – no paralelo 17. A intenção de eleições que unificassem o país, com os vietnamitas escolhendo um representante fora das áreas de influência, como na Coreia, não aconteceu, por negativa dos comunistas. A história se repete como comédia, farsa e tragédia.

 

Ho Chi Minh estabelece o Estado Socialista no norte e começa um grande programa de reforma agrária (ansioso por repetir o famoso “sucesso” dos programas similares implantados por Stalin e Mao Zedong, que deixaram um rastro de milhões de mortos famintos). Um milhão de habitantes do norte, a maioria católica, foge para o sul não comunista. Isso não poderia ser simplesmente permitido e o Viet Minh aciona as células que criara no sul (entre 5 a 10 mil) com objetivo de insurreição. Como que “xerocado” da crise coreana, onde não vemos coincidências, mas um método, são acionados mais uma vez os americanos, em recursos, armas e vidas, no resgate aos aliados carentes de auxílio.

 

Em 1956, Le Duan, o principal líder comunista do sul, sob comando do Viet Minh retorna a Hanói para coordenar as sublevações das células em busca da insurreição que permitisse o pretexto de invasão do norte e unificasse o Vietnã sob um único governo comunista. As eleições previamente concebidas para unificação do país, que deveriam ter acontecido nesse ano, foram canceladas. Ho Chi Minh não abandonaria o poder e não permitiria a autodeterminação do sul. Sequestros e atentados constantes foram parte da “propaganda armada” – que é o nome dado por Lênin ao terrorismo. Cerca de 400 funcionários do governo do Vietnã do Sul foram assassinados apenas em 1957; 20% dos prefeitos do interior ou líderes rurais tiveram o mesmo fim. A violência crescia como tática de subversão da ordem. Funciona, jogando o país em estado de anomia. Quanto disso não vemos repetido hoje em dia, sob uma abordagem diferente? A destruição do tecido social e da ordem, o incentivo da violência e bandidagem (tudo fartamente documentado, de como modo de levar o Estado a um momento anômico, em que se veria “obrigado” a cair nos braços de um endurecimento do regime). Finalmente, em 1960, vemos a criação da Frente Nacional da Libertação – uma teatralidade, um nome, que queria dar caráter popular e legítimo a uma tática cuidadosamente desenhada.

 

O avanço da invasão de Ho Chi Minh, do livro Triumph Forsaken

O avanço da invasão de Ho Chi Minh, do livro Triumph Forsaken

 

Em artigo passado, escrevi que a confiança e moral das tropas eram elementos fundamentais da guerra. Se os soldados sentirem que têm apoio, não cederão terreno. Valia para a antiguidade, valeu para a Guerra do Vietnã.

 

À diferença da Guerra da Coreia, a América que lutava também era combatida pela América que militava. Erros e excessos (que ocorreram!), em vez de colocado na conta dos indivíduos que as perpetraram (uma vez que foram condenados, quando ocorridos, pelo país nas formas de seu presidente e parlamento), foram atribuídas à essência do modo americano de ser.

 

Adorno, Marcuse, Horkheimer e muitos outros, recebidos no seio da sociedade americana, agraciados com cátedras nas universidades, faziam sucesso e ganhavam notoriedade criticando aquele que os abrigara. Suas teses sobre a “Mentalidade Autoritária”, sobre o mundo lúdico do futuro, causaram não a reflexão necessária para aprimoramento de meios e reconhecimento de falhas, mas a revogação de um conjunto de valores que fazia da América a América, o Ocidente o Ocidente, e tratavam de manter o equilíbrio e segurança geopolíticos do planeta.

 

A guerra de propaganda estava sendo vencida pela militância orquestrada. Noam Chomsky, Andrew Kopkind, Allen Ginsberg, Alex Cockburn, Harry Edwards, Marlexe Dixon, Edward Sorel, Cora Weiss, Jonathan Kozol, Tom Hayde, dentre outros, os pesos-pesados da esquerda americana da época, principalmente através da revista Ramparts, de David Horowitz (ver o livro O Filho Radical) difundiram a ideia de que pessoas morriam porque a América era um sistema ruim e opressivo. A ajuda a países que se viam em apuros com invasões de suas contrapartes comunistas, como Coréia e Vietnã do Sul se tornou “imperialismo”, uma agressão inaceitável.

 

Ramparts Magazine e a capa de novembro de 1972 que implode com o que restava de apoio à guerra

Ramparts Magazine e a capa de novembro de 1972 que implode com o que restava de apoio à guerra

 

A América perdeu a Guerra do Vietnã? Rá! Para quem? Perdeu para si mesma. Não para o exército vietnamita. Nunca mais o Ocidente se sentiria à vontade para participar de contendas militares do mesmo modo. Mark Moyar, em seu livro Triumph Forsaken, relata que o Presidente Lyndon Johnson corretamente previu, em 1965, as muitas outras “peças de dominó” que iriam cair se os comunistas tivessem sucesso. Assim foi. Entretanto (ainda segundo Mark Moyar), ainda que tenha “identificado a doença do paciente, a prescrição do remédio não foi correta”. Sua recusa em tomar determinadas medidas no Laos e no Vietnã do Norte resultou em insegurança da população civil e a oportunidade de grandes avanços estratégicos dos comunistas que guerreavam por entre a população. Foi um desastre. O presidente seguinte, Richard Nixon toma atitudes dramáticas para forçar Ho Chi Minh a aceitar uma paz estabilizadora. Depois de mais de duas décadas de “quarentena”, Nixon reconhece, em nome da América, o regime comunista da China; em 1972, faz visitas a Pequim e Moscou (sempre acompanhado de seu principal conselheiro Henry Kissinger). Buscava estivar a mão para um acordo. Hanói respondeu por meio de uma estratégia própria, lançando ofensivas ao Vietnã do Sul. Ao mesmo tempo, a “Nova Esquerda”, dentro dos Estados Unidos, fora tarefada, segundo Horowitz, de intensificar as divergências internas, atrás das linhas inimigas.

 

Entre as consequências previstas por Johnson estava a implantação do Khmer Vermelho no Camboja. De liderança política originária quase que exclusivamente vietnamita, o partido que gerou o regime de Pol Pot, conhecido de 1975 a 1979 como Kampuchea Democrática, está marcado na história pela infâmia. Suas políticas de engenharia social produziram o genocídio de 3 milhões de seus próprios cidadãos em poucos anos. Que “apelo à paz”, que “crítica ao imperialismo” aplaca a consciência em assistir inerte ao massacre indefeso de cidadãos fragilizados?

 

O programa de reforma agrária produziu nada mais que fome generalizada (tal qual na União Soviética, na China e no Vietnã). A insistência na autossuficiência do Estado, como promotor de todos os serviços, levou a outras tantas milhares de mortes por malária e demais doenças tratáveis. Tortura, execuções brutais, arbitrariedade da polícia política caçando supostos inimigos do sistema (inimigos do povo) produzindo expurgos até em suas próprias fileiras.

 

A Primavera Árabe e a Síria

 

Quem pode dizer que ama o bem se não odiar o mal e não trabalhar para mitigá-lo? Amar o bem passa por protegê-lo e não conceder a discursos ou ameaças em nome da não-guerra.

 

Esse primado só atiça os inimigos do mundo civilizado. Um inaceitável wishful thinking, produto secundário dos ataques diretos aos valores que fundamentam o Ocidente e garantem a ordem e liberdade (sem os quais a paz não pode existir), atua como se determinados problemas concretos pudessem ser resolvidos por pressão, por discursos e passeatas.

 

No bojo do sentimento que a América era, em essência, “A” responsável pelos conflitos, em virtude de ser uma nação de húbris imperialista e agressiva, está a tola imaginação de que se fossem deixadas à sua própria sorte, as nações (aliadas ou não, na zona de influência ou não) encontrariam um equilíbrio sem que as arrogantes Repúblicas ocidentais viessem lhes ditar o modo de se organizarem. As multidões que clamam por ajuda e sofrem na mão de facínoras e saqueadores, ignoradas, não entram na narrativa.

 

A ideia de que quando as coisas saem do controle, a culpa é do Ocidente, mostra a tendência de coisificar o que é diferente de nós. Não os tratar como humanos iguais. Abandoná-los ao assédio de monstros não nos fará mais “humanistas”. Adianta que abramos mão de confrontar as forças do obscurantismo enquanto elas não fizerem o mesmo, não renunciarem ao terror e adotarem o sufrágio popular como meio de chegada ao poder e a diplomacia como convivência geopolítica?

 

O mundo se rendeu em loas a uma narrativa inconcebível de que os processos insurrecionais violentos, promovidos em quase sua totalidade por jihadistas da então chamada “Primavera Árabe”, seria o grito por democracia. Ora, assim seria se assim fosse. Sem o “direito” de se envolver, de mediar, de atuar, cassado moralmente das potências ocidentais, o poder que poderia ser moderador virou apenas financiador. E do lado errado. O patrocínio de armas e equipamentos acabou nas mãos de jihadistas que hoje cerram fileiras com o Estado Islâmico. Indiretamente, ao se furtar a moderar, o Ocidente patrocinou o terror. Seria cômico se não fosse trágico. Obama, Sarkozy e Cameron trataram do problema apenas no campo da linguagem e esqueceram de sua estrutura real.

 

Quando o terror, reforçado dos recursos do Ocidente, estourou na Síria, houve a recusa peremptória da invasão por terra (Obama se recusa ainda hoje). Centenas de milhares foram “empurrados” para a busca de refúgio. Quando optaram por não invadir o país, mas, sim, criar um cinturão de segurança ainda em terras sírias onde pudessem atender os refugiados em seu próprio país, se viram atônitos com a “invasão” de uma imigração em massa, a partir de regiões, ora vejam, controlada pelos mesmos jihadistas que seriam a causa de sua fuga.

 

Ao mesmo tempo, países de mesma cultura, etnia semelhante, mesma língua e com possibilidades de recursos, se recusavam a receber esses mesmos necessitados. Nada disso pareceu estranho.

 

O Ocidente precisa ter consciência de que esteve no passado, está no momento e estará sempre assediado em seu modo de vida e valores. As forças do obscurantismo não se atreverão a enfrentar o Ocidente em guerra aberta, mas atuarão para que os princípios que os sustentam, por definição, sejam abalados na cacofonia de explicações e mea culpa das crises, buscando respostas nas Cruzadas, no século XIX, até no falacioso aquecimento global.

 

Esse modo moderno de entender o choque civilizacional não terminará com “todos ficando amigos no final” caso nos eximamos de atuar de forma adequada.

 

Perceba que não há invectivas morais sobre a atuação da América contra os nazistas. Também era um outro continente, também era uma disputa local. Por que a guerra contra Hitler foi moral e a contenção de comunistas ou jihadistas é imoral? Não estavam os americanos defendendo o mesmo conjunto essencial de valores e visão de mundo na Segunda Guerra, que foi a campo nas demais contendas? Qual a diferença? O problema se torna uma questão de intensidade do perigo e não de essência? É o tamanho da ameaça apenas ou nosso modo de vida o norte a seguir? Por que algumas intervenções são necessárias e outras agressões inaceitáveis?

 

Tomar a intervenção civilizatória em si como o mal supremo, eximindo de avaliar as consequências do não-conflito, não está contribuindo para “o mundo melhor”. Principalmente após o turning point do Vietnã, cuja crônica, contrastada com a da Coreia, ilustra o resultado local quando a civilização vence, como nessa; e quando o terror avança, como naquela.

 

A meu juízo, as teses militantes produziram um tipo de consciência moderna no Ocidente, de onde parte-se de um princípio que o terrorismo é “normal”, ele “acontece”, é uma “coisa da vida” naquelas pradarias, assim como a sharia. Está nisso subentendido uma visão dos outros povos “coisificada”. Como se um grupo de ursos, como se uma força da natureza – tais essências nos bastaria, apenas, aceitar: “não mexa com o urso. Se você entrar em seu ambiente, ele vai te atacar e a culpa é SUA”. Pois, ele não teria consciência e moral, só instinto. É assim, como animais ou coisas, que esse raciocínio trata as outras culturas que sequer se preocupa em tentar compreender. Buscam apenas enquadrá-las numa narrativa criada a priori (seja de opressão, colonialismo, luta de classes, etc.) que sirva à sua agenda.

 

“Não os levam a sério” é quase um “salve as baleias”. Faz parte desse multiculturalismo. Pois, eles sequer concebem viver sob a lei islâmica. “Isso é lá para aquelas mulheres-coisas, como se ursas, que nasceram no Islã. Elas não são como a gente. Assim como a ursa tem de caçar peixes crus, elas apanham e é assim”.

 

Não reconhecem a humanidade dos coitados, por isso não os levam a sério. Não conseguem se colocar no lugar deles e delas. Então nunca vão lutar pelos seus direitos – “ora, animais tem que ficar no seu habitat natural… comendo uns aos outros e você só observa, não interfere. Como se zebras e hienas. E qualquer intervenção é inaceitável”.

 

Estão lhes cassando a humanidade. Não concebem que possa haver escolha, não só para nós, mas também para eles. Eles estariam condicionados a serem o que são. Um determinismo. Bastaria a nós sermos tolerantes com essa “força da natureza”. Eles entendem, inconscientemente, os outros como animais e coisas e, por isso, um animal não pode ser intolerante… ele simplesmente “é”. Porque tolerância é uma transcendência ante os preconceitos iniciais. É um aprendizado. Tolerante ou intolerante, só pode ser um ser humano, não esse ser coisificado.

 

Coisificado, o urso não tem preconceito como o humano, só reage. A responsabilidade de fazer a ponte, ceder, proteger e cuidar para não ser morto por essa força, então, irracional, seria só nossa. Num nível inconsciente, a intromissão, para quem “sente” assim, é quase como intervir entre leões e hienas. O povo concreto, real, que morre e sofre – na África nas mãos do Boko Haram, na Síria nas mãos do Estado Islâmico, no Irã, onde as mulheres são apedrejadas… estes, que se danem. É um escárnio!

 

Os exemplos da Coreia do Sul e das tragédias pós-guerra do Vietnã mostram que o custo de interferência para a vida dos envolvidos, para a nossa consciência e preservação de um mundo com norte moral, eventualmente, precisa ser pago. Já o custo da acomodação pusilânime, como no Camboja e, eventualmente, no milhão de refugiados na Europa, pode ser muitíssimo maior.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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  • Alexandre A. Alves

    Em La Cabanã funcionava um banco de sangue, que extraia boa parte do sangue das vítimas antes de serem fuziladas no paredão. Todo o sangue era enviado diretamente ao Vietnã do Norte. Como os comunistas são solidários…