A mãe, o pai e o Popeye

A mãe, o pai e o Popeye

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Antes de me apaixonar pela escrita e pelo cinema, tive um caso com a política. Podem rir, mas encontrei na figura de Enéas Carneiro e sua força explosiva de expressão um certo alívio. Imagina a cena. Uma criança com seus 3-4 anos na frente da TV esperando o horário político pra ver aquele ser barbudo abrir a boca e falar aquele famoso bordão “Meu nome é Enéeeeeeas, 56″. E tinha todo um ritual de imitação e trejeitos. Eu fiz até a minha mãe me levar no lançamento do livro dele. Mas, bom, isso é história pra outro dia.

 

Quando as fitas gravadas do horário eleitoral gastaram e mais umas primaveras passaram, meus pais procuraram outra diversão, agora mais saudável, para minhas noites. Ganhei do meu pai o VHS do Popeye, com Robin Williams. Talvez os dois tivessem com medo de que eu virasse um fabricante de bombas atômicas num futuro não muito distante por ver muito o programa do Enéas. Então resolveram me apresentar um herói de verdade. E não qualquer herói, mas um que come salada.

 

Segundo as contas da minha mãe, assisti esse filme umas 53637365338 vezes seguidas. Acho que, por isso, assim como o Popeye, me tornei um rabugento de bom coração. E bom coração também teve meu pai que, num quartinho frio, com uma TV pequena e vídeo cassete empoeirado, assistia sempre o mesmo filme comigo.

 

Lembro que ele queria sair e me levar pra correr, brincar. Fazer tudo o que uma criança daquele tamanho deveria estar fazendo, mas eu insistia pra ver mais uma vez. O Popeye, superando aqueles desafios, me fazia imaginar que eu também poderia ter aquela força toda. E, claro, comecei a comer espinafre, o que deixou minha mãe radiante.

 

Hoje, 12 de agosto de 2014, um dia após a morte do Robin Williams, voltei no tempo e percebi que aquele filme, naquele momento, fez muito mais por mim do que pensava. Demora um pouco pra cair a ficha. Mas foi o meu primeiro construtor de caráter vindo de fora de casa.

 

Anos depois, ainda criança, aprendi a dar mais valor à família vendo “Uma Babá Quase Perfeita” na Sessão da Tarde. E, não muito longe dali, aprendi que aqueles rabiscos e sentimentos escarrados nos meus cadernos se chamavam “poesia”. Foi quando um professor que, notando um certo talento meu para as canetas, me fez assistir “Sociedade dos Poetas Mortos”. Aquela frase, “Carpe Diem. Façam das suas vidas algo extraordinário”, está tatuada em mim pra sempre e é um dos motores do meu ânimo.

 

Robin Williams é mais um que se vai. Sinto que a cada ídolo que perco, deixo de ser um pouco criança. Não pelo lado infantil, mas por aquela pureza única, do brilho intenso dos olhos, de não ter medo de ser quem você realmente é.

 

Obrigado, my captan, por me ensinar a conhecer pessoas pelo sorriso. Mas, não tem jeito, é com uma chuva torrencial nos olhos que me despeço de você. Obrigado por tudo. Principalmente por tirar a política e as bombas atômicas da minha vida.

Léo Castelo Branco
A mistura simétrica de poesia com anarquia. Essas poucas palavras definem Léo Castelo Branco, redator, roteirista e frasista. Suas crônicas viscerais e imagéticas fazem uma reflexo nu e cru dos sentimentos humanos. Escreveu o curta Fui Comprar Cigarros, finalista em diversos festivais na Europa e Ásia, e recentemente entrou para o time do Desiludindo S/A.

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