A História do Diabo e a Mente Ocidental

A História do Diabo e a Mente Ocidental

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Vilém Flusser, tcheco radicado no Brasil, foi um grande autor. Suas obras ainda receberão a devida atenção dos estudiosos na atual “redescoberta da leitura” que varre o país (contando com o prestimoso trabalho de Gustavo Bernardo Krause), ainda que já tenham se passado 24 anos de sua morte e 43 de sua saída do Brasil. Às vezes, as coisas só precisam de tempo. Então, sem lamentações.

 

Em Ensaio Diabólico (aproximação muito peculiar ao grande Antagonista), nos é apresentado o diabo como o criador mundo. Não o criador essencial (pois, só Deus cria ex-nihilo), mas operador da matéria divina. O resultado é a reinterpretação das paixões humanas, o que elas realmente significam, como nos movem, o que nos proporcionam e a consequente tensão dialética em cada uma delas.

 

A História do Diabo

A História do Diabo

 

Na “peregrinação do intelecto humano em direção à sabedoria suprema”, se a paixão é levada às últimas consequências, teremos frustração e destruição. O sentido do vetor se inverte, levando-nos ao “inferno” – individual e coletivamente.

 

Na tentativa de apresentar o ensaio, transcreverei partes significativas do mesmo, demonstrando como Flusser aborda o assunto. Procurarei comentar, em meio às palavras do pensador, buscando esclarecer o que puder e cutucar a curiosidade em direção à leitura na íntegra de tão auspiciosa obra.

 

Sim!, este artigo é mais uma apologia do que verdadeiramente uma resenha ou análise. Entretanto, para que não seja apenas uma apresentação, tirarei, em digressão, algumas conclusões de determinada paixão levada às últimas consequências e de como ela está identificada com o homem do Ocidente mais que com os demais.

 

Ainda que o aqui apresentado não se encontre nos escritos de Flusser, acho improvável que o raciocínio não possa ter ocorrido ao filósofo, pois, segundo entendo, as consequências são inevitáveis.

 

O diabo

 

Vilém Flusser acredita no diabo? Não está claro na obra. Entretanto, é irrelevante. Essa é uma obra filosófica, não religiosa – ainda que a fé, ou a falta dela, tenha papel central, mesmo que antropologicamente.

 

A figura que dá nome ao livro é universalmente conhecida e a posição que ocupa na metafísica das religiões, idem. A utilização, ainda metafórica, do opositor de Deus busca realçar as características negativas e perigosas das motivações da ação do homem no mundo. O ato de vontade não é essencialmente mal, claro!, mas pode ser instrumentalizado pela chamada concupiscência que, no fundo, é a ação de colocar a si mesmo como medida das coisas e a sua vontade como geradora da realidade.

 

Estando concebido como ator da narrativa, o diabo é aquele que “toma” parte corruptora na ação da vida desde que esta exista.

 

Então, para o autor, a história começa com o diabo. Também assim o é para o homem ocidental: “O diabo é possivelmente imortal, mas certamente surgiu em dado momento. Ele nada na correnteza do tempo, quiçá a dirige, ele é histórico no sentido estrito do termo. É possível a afirmativa de que o tempo começou com o diabo, que o seu surgir ou sua queda representam o início do drama do tempo, e que ‘diabo’ e ‘história’ são dois aspectos do mesmo processo.”. A corrupção, portanto, estaria sempre presente.

 

Para observar o caso em sua totalidade, Flusser fica tentado a analisar o diabo através de dois pontos de vista. Porém, ambos serão insuficientes. O autor vai se recusar a tratar o diabo unicamente como “agente histórico” – uma metamorfose de aspectos diabólicos, um seguido do outro.

 

Também recusa a possibilidade de observar o diabo como “força motriz da maioria das nossas ações e dos nossos desejos”. Se assim fosse, estaríamos supondo (ainda que o autor não diga) que a nossa vontade partiria unicamente da ação diabólica. E assim não poderia ser.

 

Tentador e acusador, está em cada passo da história

Tentador e acusador, está em cada passo da história

 

Flusser precisa de uma síntese dessas duas “torres” de observação de onde pretende analisar o trabalho do diabo. Algo que abranja ambas e as transcenda.

 

Se o diabo age na história e trabalha na vontade, mesmo que não seja fonte da mesma, essa atividade precisa ser identificada nas suas particularidades e manifestações específicas. A maneira? Segundo o autor:

 

“Felizmente ela existe, e é a própria Igreja Católica que a oferece.”

 

Flusser, um auto-intitulado budista à época, recorrerá a uma velha sabedoria da Igreja como método de desenvolvimento do argumento:

 

“Essa sabedoria ensina que o diabo recorre aos chamados “sete pecados capitais” para seduzir e aniquilar nossas almas. É evidente que a Igreja, em sua propaganda antidiabólica, recorra a nomenclaturas um tanto tendenciosas ao denominar esses pecados. Chama-os de “soberba”, “avareza”, “luxúria”, “inveja”, “gula”, “ira”, e “tristeza ou preguiça” (acídia). No fundo são, no entanto, inócuos esses termos arcaicos e, facilmente substituíveis por termos neutros e modernos.”

 

Os pecados capitais, como o diabo, fazem parte do imaginário popular. A sedução, entretanto, é mais complexa do que os pecados nominalmente sugerem (a gula, por exemplo, não é simplesmente o ato de se empanturrar de comida). Os sete são a manifestação desordenada da mente humana em suas características específicas. Porém, antes de chegarmos a cada um deles como Flusser os concebe, precisamos tentar diferenciar o Bem do Mal.

 

A ação do diabo

 

Em artigo intitulado Do Diabo para o Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, em 1963, Flusser, dando mostras do que viria publicar em 1965, escreve:

 

“Quando a fé desaparece, desaparece o motivo vivencial da escolha, e é substituído por um pálido motivo racional (…). Existencialmente tornou-se impossível distinguir entre o Mal e o Bem. A confusão entre o Mal e o Bem representa, no entanto, a vitória do diabo.”

 

O Mal essencial é a corrupção do Bem. Insinua-se no Bem tal qual, por exemplo, o Jansenismo e a Teologia da Libertação se insinuam na doutrina católica. Um satanista, por outro lado, diz a que veio. É possível reconhecê-lo pelo que ele é e chamá-lo pelo nome. Só atrairá “os seus”. O Mal essencial, entretanto, corrompe a noção do Bem e, se não altera o lugar teológico (como nos exemplos), não alcança as três necessidades de se entender o Bem como Bem: nas intenções, nos meios e nos fins, como entendia São Tomás de Aquino (Summa Theologica).

 

Por que disso? Flusser credita ao diabo a força do progresso material da humanidade:

 

“Algo tentava a humanidade, desde os primordiais: quebrar os três limites impostos pela primeira frase da Bíblia, ou pelo menos dilatá-los” (“No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Na primeira frase da Bíblia, os limites são o início, o céu e a terra).

 

“Algo incitava os homens sempre a querer ver o além do início, a conquistar os céus com seus instrumentos, ou pelo menos com o seu espírito, e a libertar-se da terra no sentido literal, ou pelo menos figurativo. Essas tentativas serão o nosso tema ao tratarmos da ira. A nossa imaginação se recusa a nos desenhar a situação hipotética na qual os três limites estariam liquidados pelo esforço humano inspirado pelo diabo.”

 

A tentativa de romper os limites motivados pelas vontades sensuais (luxúria), vorazes (gula), rebeladas ao próprio limite (ira), etc. empurrariam o homem, segundo Flusser, em sentido ao progresso material, tendo este como “libertador”.

 

Ora, não é definir o progresso como algo negativo, mas as motivações e consequências envolvidas no processo. A tênue diferença do Mal com o Bem.

 

Nessa dificuldade em distinguir (dado o volume inabarcável dos fenômenos diários) a influência diabólica da divina (que forma o tema da nossa consciência), precisamos simplificar o problema.

 

Flusser assim resolve: “influência divina” tudo o que tende para a superação do tempo. E chama de “influênca diabólica” todo aquilo que tende para a preservação do mundo no tempo.

 

Ou seja, a ação voltada para dar vazão à nossa vontade desenfreada tomada, esta, como um bem em si, como libertadora, seria a preservação do mundo no tempo. Seria decretar que o paraíso é a realização e ele tem de ser feito aqui. E o quanto antes. Não apenas a manifestação da sede de conhecer, mas, da realização do “Ser” através do domínio, e fora do “fim último”: de não estar sujeito e limitado a algo externo.

 

Chegar à face de Deus para declarar (como teria dito Nietzsche, na sua paródia de Diógenes e a lanterna): “Deus está morto. Nós matamos Deus”.

 

Os sete pecados

 

A influência diabólica é a ação manifestada da desordem da mente humana, que atua para formação da segunda realidade, onde o homem pensa estar no lugar de Deus. A preservação do mundo no tempo é procurar ter o domínio absoluto sobre a matéria e realizar o paraíso terrestre, onde busca se sentir mais seguro contra uma realidade cheia de incertezas.

 

Flusser apresenta a ação dos pecados capitais como força motriz do domínio do mundo material

Flusser apresenta a ação dos pecados capitais como força motriz do domínio do mundo material

 

O diabo se apresenta como “fonte de liberdade autêntica”, mas, realmente, se torna um carcereiro da vontade do homem na falsa realidade. Isto posto, os sete pecados capitais precisam ser manifestações dessa concepção de ação do diabo:

 

Soberba é a consciência de si mesmo.

 

Avareza é economia.

 

Luxúria é instinto (ou afirmação da vida).

 

Gula é melhora do standard de vida.

 

Inveja é luta pela justiça social e liberdade política.

 

Ira é recusa a aceitar as limitações impostas à vontade humana.

 

Tristeza ou preguiça é o estágio alcançado pela meditação calma da filosofia.

 

Um exemplo

 

Reitero, pois, a importância de não tomarmos superficial ou metonimicamente cada pecado, tal qual eles se apresentam no imaginário popular. Sua complexidade pode ser bem ilustrada na luxúria confessada pelo autor (que pretendo transcrever quase na íntegra) e com a qual alguns de nós vamos nos identificar:

 

“A mente inspirada pela luxúria de ler nada numa correnteza praticamente infinita de livros. Os livros são os objetos do seu desejo libidinoso.(…)

 

É da própria essência do pecado afundar a mente numa torrente de desejos que aumentam à medida que estão sendo satisfeitos. Quanto mais bebe, tanto mais sedenta é a mente pecaminosa. Cada copo que traz aos lábios conta mais uma gota daquele veneno que lhe aumenta a sede. Atrás de toda amante que abraça Don Juan, estende-se a fileira infinita e sempre crescente das amantes a serem abraçadas. (…). Na situação que estou descrevendo foram os cálices e as amantes sublimados em livros. Isto torna a situação ainda mais terrível. A sede fisiológica e o amor fisiológico são pecados limitados pela sua própria camada de realidade. São limitados pelo cansaço fisiológico, que intervém para suavizar o sofrimento. Mas a leitura se desenvolve num nível de realidade, no qual o cansaço é muito menos misericordioso. A corrida da luxúria é portanto mais desenfreada no nível do intelecto.

 

O primeiro estágio é representado por uma vivência que é interpretada, pela própria mente, como superação da luxúria, como libertação, portanto. A mente “descobre” o tédio da vivência imediata. Viver no mundo dos sentidos não é mais venturoso. Afinal, todas essas experiências não passam de variações de temas muito pobres. O inundo dos sentidos é repetitivo. Os seus prazeres são reedições de prazeres já usufruídos. (…) A relação ontológica entre o mundo dos sentidos e o mundo do intelecto é um problema intelectual, e a grande parte da filosofia tradicional trata desse problema. Mas existencialmente esse problema não se põe para a mente da qual estou falando. Crê nessa sua total ilusão ter-se libertado da luxúria, ter-se tornado livre. Doravante pairará, desprendida, por sobre a massa fervente da vida como observadora olímpica e calma. Existirá a calma das bibliotecas.

 

A leitura é um veneno que age de mansinho. Em pequenas doses age apenas como estimulante. (…) O autor está agora dentro da mente do leitor, e continua revolvendo-se nela. Esse remexer-se de pensamentos alheios dentro da própria mente age como estimulante. O leitor não está satisfeito. (…) Na linguagem diária dizemos, para minimizar o aspecto diabólico desse fenômeno, que a curiosidade do leitor foi despertada. Existencialmente trata-se, entretanto, da luxúria do ler que foi incentivada pela primeira “satisfação” que obteve. Pega, portanto o leitor no segundo livro.

 

Admitamos a hipótese que esse segundo livro trate de um tema próximo ao tratado pelo primeiro livro. Assim funciona a “curiosidade”, esse sinônimo inócuo da luxuria da mente. Quanto mais sabe o intelecto a respeito de um assunto, tanto mais quer saber a respeito dele. Quanto mais sabe, tanto mais sabe que nada sabe. A insatisfação crescente criada pela satisfação parcial é justamente o caraterístico do pecado.(…)

 

Se meu primeiro autor tratava, por exemplo, de cristalografia, e se o meu segundo autor tratava do mesmo tema, tornou-se óbvio na minha mente que a luta entre ambos envolve temas aliados. Devo saber algo a respeito da geometria, da ótica, da química, da geologia, e assim ad infinitum. (…) A minha biblioteca imaginária, que inicialmente consistia de estantes bem separadas, transformou-se, pela minha luxúria crescente, em torrente de livros que sobre mim se precipitam. (…) Ante essa massa amorfa de solicitações impudicas a mente leitora procura desesperadamente um critério para orientar-se. Um livro “bom” será aquele que satisfaz a minha luxúria, isto é, provoca novos desejos.(…)

 

Preciso ler tudo que foi escrito, mas também que jamais será escrito. A minha mente se transforma em megera. (…) Da calma olímpica inicial não restou nada.”

 

Repetindo o que inferi antes da “confissão” de Flusser: o diabo que se apresenta como “fonte de liberdade autêntica”, na verdade, se tornará um carcereiro da vontade do homem na falsa realidade. Quero crer que a maneira interpenetrada com que os pecados, de modo pouco visível, mas bastante sentidos, movem o homem, tenha sido bem ilustrada nesse exemplo.

 

Assim o é com todos os demais.

 

Tentativa humana de criar uma outra realidade a partir de sua mente, baseada nos símbolos

Tentativa humana de criar uma outra realidade a partir de sua mente, baseada nos símbolos

 

Não há a aceitação, que tenderia para a superação do tempo, mas a vontade de domínio, que se rebela contra a ordem e a natureza. A sua própria natureza.

 

No decorrer do livro, nas palavras do autor, pode-se resumir da essência dos pecados tal qual eles se apresentam no mundo da sociedade:

 

A gula é a tentativa de devorar o mundo para realizá-lo, já que a realidade está no eu que devora. A inveja e a avareza procuram organizar e governar o mundo devorado.

 

A soberba e a preguiça procuram menosprezá-lo e ignorá-lo.

 

Todos esses pecados são possíveis apenas somente no clima no qual o mundo é “para mim”, diante da minha mão (vorhanden).

 

São pecados, portanto, que são consequência de uma perda de fé em toda realidade “em si”, salvo, talvez, da minha realidade.

 

Luxúria e ira são diferentes. Aceitam o mundo dos fenômenos como realidade. A luxúria criou, por intermédio das nossas mentes, um tecido de algo chamado “realidade fenomenal” e é nesse tecido que ela age. Agindo, aumenta essa realidade e a propaga. Tomada de raiva pelas limitações que o tecido do mundo fenomenal opõe à luxúria, põe-se a ira a reorganizar sistematicamente esse tecido.

 

Digressão: esse último aspecto tem, em sua manifestação mais extrema o governo totalitário. A intenção de que o caos seja resolvido por definitivo a partir da mente. Não por coincidência, essa solução sempre se quer científica.

 

(recordando o artigo de Flusser para o Estadão: “Quando a fé desaparece, desaparece o motivo vivencial da escolha, e é substituído por um pálido motivo racional”)

 

Nela deita a revolta máxima contra Deus. Nega o primado da criação, o homem e a natureza humana. A mente se coloca fora da realidade para analisá-la.

 

A mente se torna autorreferente, não condicionada e dominadora. O diabo anuncia, com efeito, ao prometer liberdade, que as leis conhecidas, isto é, formuladas linguisticamente pela mente, serão instrumentos da mente. Suas escravas.

 

E, simultaneamente, promete que, de uma forma misteriosa, a mente não estará sujeita a elas. A paralaxe cognitiva se apresenta, tal qual concebe Olavo de Carvalho.

 

Estabelece o diabo, com sua promessa de liberdade, uma divisão entre conhecedor e conhecido, entre sujeito e objeto, uma divisão cujos resultados apenas se esboça, na atualidade sob forma de uma loucura coletiva.

 

A mente revoga o primeiro mandamento e busca substituir Deus a partir de um ente criado por ela: o Estado Onisciente que tudo observa, policial, que nos vigia em todos os atos e que nós, à priori, somos suspeitos de podermos ir contra o Estado, a nova ordem; Onipresente, pois está manifestado em toda ação da sociedade. Intervém desde a educação e vida privada, valores, padrões, a até em como podemos executar nossa atividade profissional; e Onipotente, pois tudo pode para se preservar: não há um limite para sua atuação. Tem toda a força coercitiva e as regras sob sua jurisdição. Não há um direito fundamental (como à vida, à propriedade, à consciência individual) que este ente não poderia penetrar. E por isso não os permite.

 

Essa criação é nossa, ainda que tenha se manifestado no oriente, mas como contaminação. Fim da digressão.

 

Sem conclusão

 

Flusser não tem resposta objetiva a dar, como fica claro em sua conclusão. Muito menos advoga uma solução. O autor apresenta, de maneira mais clara, como se manifestam as paixões e as vontades a fim de que o leitor possa identificá-las no seu “eu” e no mundo. Ao final da exploração de cada pecado, o levará às últimas consequências, individualmente, demonstrando qual é o “salto” que a mente dá, do resultado da frustração.

 

Na tentativa da mente em substituir Deus, a queda e perdição

Na tentativa da mente em substituir Deus, a queda e perdição

 

Isso já será, por si, um grande ganho. Terminamos a jornada empreendida no livro um tanto mais modestos:

 

“No início deste livro tivemos a coragem de definir o diabo. No final desse livro essa coragem evaporou-se. No início deste livro tivemos o propósito mal disfarçado de aniquilar o diabo. No final deste livro conseguimos quase (mas somente quase) aniquilar-nos a nós mesmos. No início deste livro passeávamos com nossa mente nas regiões majestosas dos astros e das galáxias. No final deste livro procurávamos esconder-nos nos cantinhos trêmulos e nas dobras obscuras da nossa mente desinflada. Tornamo-nos (para falarmos eufemisticamente) um tanto modestos. E este é o único resultado digamos “positivo” de uma viagem tão grandiosamente iniciada, e acompanhada de tantas promessas altissonante.”

 

Entretanto, o resultado pode estar dado no título e no modo em que escolheu tocar a narrativa. Uma vez que estamos na semântica da Igreja: que função tem uma religião?

 

Se temos um fim último, um objetivo enquanto seres da criação, há ações que concorrem a favor e ações que concorrem contra esse fim último. A função da religião, católica ou budista, é tentar “codificar” essas ações.

 

Sim, começo alegando que a obra é filosófica e não religiosa. Porém, se o diabo foi usado, mormente como recurso alegórico e, por isso, a inexistência do rigor doutrinário para tratar do personagem, não há fronteira certa entre a teologia e a filosofia.

 

A aceitação, cuja ausência é sentida em toda a manifestação dos sete pecados, na teologia católica se chama “confiança”.

 

Para reflexão por comparação, o autor deixa o contraste do Oriente:

 

“considerem a terra milenar e santa da Ásia, berço da humanidade. Há milhares de anos desenvolve-se um processo nessas terras, um processo que tende a transformar a luxúria no seu oposto, na tristeza e na preguiça. Há milhares de anos meditam os “ioguin”, há centenas de anos retiram-se os monges budistas da correnteza da vida, para evitar a reencarnação e fundir-se com o nada. (Não dominar, fundir-se). A civilização asiática está toda ela marcada pena tentativa das suas elites de quebrar a cadeia da vida. Todos os pecados do Ocidente jovem e impetuoso, ira, gula, avareza e inveja, se diluem ante o olhar cansado dessa elite…”

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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