“A Direita”, Essa Abstração

“A Direita”, Essa Abstração

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Nesse início de 2016, como alguns devem saber, estourou uma “pancadaria” entre adeptos do que entendemos por “direita” no país. O membro mais visível do Movimento Brasil Livre (MBL), portanto o mais visado, Kim Kataguiri, em uma das inúmeras entrevistas, participações, palestras, reuniões desde que os movimentos anti-PT e pró-impeachment estouraram, expôs o que entende do deputado federal Jair Bolsonaro:
 

Link Youtube | Conheça o verdadeiro Lula, digo, Kim Kataguiri – Bônus, Jair Mito Bolsonaro!

 

O jovem militante deu umas tropeçadas e tratou o parlamentar mais pelo que é noticiado sobre sua figura do que realmente ele diz – suas aparições na grande imprensa são sempre espetaculosas. Quando não se apresenta de acordo com a imagem que querem colar nele, não frequenta os noticiários de modo algum.

 

Kim se referiu a um Bolsonaro “de palha”, definido por seus detratores ou por posicionamentos passados do deputado. Posicionamentos que hoje aparenta ter revisitado – tal qual privatizações, economia de mercado, que são a quintessência do pensamento liberal, do qual o MBL é defensor e propagador.

 

Nesse bolo (e a situação não é fácil), existe também a preocupação constante do movimento que Kim comanda com outros jovens de se manter afastado da narrativa que quer colá-los à defesa da intervenção. Devida à tamanha avidez que existe em fazer do MBL “extrema direita”, defensor de uma ideologia radical que, por alguma leitura política, seria associada a gestão pela força e ódio aos pobres, Kim tentou manter as fronteiras bem delineadas entre o MBL e o que ele considera ser, num mesmo saco, Bolsonaro e os militaristas. Errou? Bom, errou. No mínimo, serviu à desinformação. Mas não houve má fé. Até aqui, nada de mais.

 

Só que Kim é hoje uma figura pública de reconhecimento inegável. Com a publicidade, vem a cobrança. Os apoiadores do deputado (ou os que já tinham algum tipo de pé atrás com o MBL, por algum motivo), iniciaram um movimento como só a internet pode prover, de exigências, pedido de desculpas e até pichação injusta. Tá, e daí? E daí nada. E daí que se esperava o que? Uma pessoa pública que se manifesta sobre outra, ainda mais na política, provoca reações. As correntes se identificam e se cobram mutuamente, ainda que tenham objetivos em comum. Até aí, repito, nada de mais. Eles que são capitalistas opressores, que se entendam. A temperatura só se elevou, para além do mérito dessa escaramuça menor, na entrada dos nomes de peso.

 

Porém, antes disso, mas em seguida ao alvoroço dos simpatizantes de Bolsonaro, viu-se a manifestação dos fiscais de qualificação para opinião, onde podíamos ler diversas variantes de: “quem são vocês para falar alguma coisa?! O que estavam fazendo quando o MBL fez isso ou aquilo?! Quem não fez nada não pode criticar quem está fazendo alguma coisa”. Xi! Tal postura não é muito legal. Talvez mereça uma olhada, mais pelo que simboliza do que por algum efeito concreto que possa ter produzido (desta vez).

 

Os Sem-Voz

 

O raciocínio em questão me lembra dos tempos de DCE na PUCPR – todo mundo sabe, um ambiente coalhado de esquerdistas. Destacando uma situação em específico, com alta dosagem dessa mentalidade, recordo o congresso para eleição do presidente da UNE, em Goiânia, lááá nos idos de 2001. Evento este que elegeu Felipe Maia, substituindo a estrela em ascensão da militância comunista da época, Wadson Ribeiro (hoje, deputado federal por Minas Gerais, consta que já andou se incomodando um tanto, numa triste coincidência com esse pessoal da base aliada). Nem é preciso dizer que ambos eram do PCdoB.

 

Mas divirjo. O congresso, formado por grupos de discussão e assembleísmo sem fim, para que se chegue “por consenso e debate” às mesmas propostas que todo mundo sabia que seriam votadas na assembleia final, leva às reuniões a opinião de outros presidentes de DCEs. A legitimidade moral da minha representação era frequentemente questionada pelos presidentes de esquerda: “você vem aqui, critica nossas propostas, mas quem está nas ruas somos nós! Estamos mudando o Brasil. Quem não se mexe não tem moral para criticar”. E, assim, eu não seria um presidente ideal porque não participava da agenda… deles.

 

Nesse entendimento, ou se está pavimentando via militância o caminho político e se é, portanto, um “com-voz”, ou, se não, é um “sem-voz”. Alguém que não merece ser ouvido porque “não luta” daquela maneira.

 

Um tanto desse sentimento assisti na internet, entre aqueles que se queriam preocupados em acabar com uma celeuma dentro “da direita”, mas atuando de modo qualitativo – você só é um “com voz” uma vez que tenha feito um trabalho visível de oposição. Todas aquelas pessoas que estudam, que trabalham, que estudam e trabalham, estariam, sob esse raciocínio, proibidas de criticar os protagonistas dos movimentos porque… eles seriam os protagonistas do movimento. Bastaria aos demais apoiar (isso não foi dito por qualquer membro do MBL, que se destaque). Claro que possuem todo o direito de argumentar em defesa dos mesmos, inclusive para dizer que concordam com as críticas ao Bolsonaro. Só não gosto dessa tutelagem, em prol “da causa”.

 

Dissensões do mesmo espectro descambam em acusar as ações do outro como benéficas ao “inimigo” comum

Dissensões do mesmo espectro descambam em acusar as ações do outro como benéficas ao “inimigo” comum

 

A Direita

 

Outro sentimento muito disseminado, também pela “causa”, é botar panos quentes em prol da não divisão “da direita” – principalmente depois de personalidades como Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho e Rodrigo Constantino entrarem na dança. Só que não existe esse negócio “a direita”. Isso é uma abstração. Não existe um bloco monolítico, rígido, homogêneo a que se possa chamar “a direita”. Existe o PT, o DEM, o MST, o MBL: entes concretos, com responsáveis, porta vozes, pensamentos mais ou menos discerníveis e “catalogáveis” (pelo menos por um período). Atuam, se posicionam, tomam decisões.

 

Agora “a direita”? Existem “as direitas”, se assim quisermos: um sem fim de correntes com entendimentos próprios da realidade. Esses entendimentos são traduzidos em planos de ação e programas de governo: propostas para Estado, tomada de poder, economia, organização social ou até a derrubada dessa mesma organização social – quando se acredita que a ordem em si é nefasta, tal qual entende a esquerda revolucionária. Não se pode manter um ente proteiforme desses “unido” artificialmente.

 

Quando a oposição aos valores de esquerda ainda não tem uma forma muito definida, nem líderes visíveis, apoio popular, movimento editorial, um número adequado de representantes na imprensa e academia, as correntes permanecem mais ou menos unificadas contra o estatismo, a roubalheira e a incompetência. Logo que saltam do terreno da ação negativa (oposição pura e simples) e passam a tomar os ares de organização, projeto de ocupação de espaço e poder, definições doutrinárias precisam vir à tona. Nesse momento, as diferenças e atritos aparecem. E tem de aparecer.

 

Não obstante, o conceito de “a direita” ainda subsiste no imaginário. E toda refrega, supostamente interna, escandaliza por isso: por parecer briga de família. Provoca o sentimento difuso de desqualificar os descontentes e buscar união à custa do debate real (como se uns atritos eventuais não fossem fazer só bem), tentando gerar uma síntese forçada. A meu juízo, parte desse pensar a política de maneira homogênea e maniqueísta, decorre de um modo disso ser apresentado. Acredito que todo mundo já viu aquele eixo do espectro político, que vai da extrema esquerda, passando pela centro esquerda, centro direita, até a extrema direita. Existe toda a sorte de apresentações deste eixo. Algumas bem-intencionadas, outras mais propagandistas, mas, a meu ver, todas insuficientes.

 

O Eixo Esquerda – Direita

 

Por essa visão, em eixo único, a direita mais para a periferia, acaba sendo uma direita intensificada. Acaba subentendido (e todo conceito traz no seu bojo um número de implicações) que a direita mais externa abrange a interna. Tudo aquilo que a direita mais moderada quer, a mais à direita quer com mais intensidade.

 

É assim que muitos “entendem” (não que pensem objetivamente sobre isso, é mais um cacoete) o espectro político. O direitista mais ao centro, seria, por exemplo, pró-mercado, mas aceitaria algumas barreiras e protecionismos. E o mais na periferia, nenhuma barreira e nenhum protecionismo. Uma visão de intensidade e não valorativa ou qualitativa.

 

Uma divertida esquematização do espectro político, com teor de propaganda, mas ineficaz para apresentar adequadamente o que se propõe

Uma divertida esquematização do espectro político, com teor de propaganda, mas ineficaz para apresentar adequadamente o que se propõe

 

A visão unidimensional encaixota todas as contradições internas numa coisa só, gerando no “senso comum” a ideia de que só haveria diálogo, mesmo, entre os centro-esquerda e os centro-direita. Bastaria identificar quem são esses moderados e equilibrados no mundo político para existir a contribuição dos dois lados combinados e dispostos a concessões. Os extremos, querendo um exagero dos postulados de cada doutrina, só existiriam para influenciar, mas não para negociar, muito menos para governar.

 

Visão que favorece o discurso anódino, quase universal até fora do Brasil, da virtude do “meio”. Basta chegarmos a um consenso, a um acordo, fazermos uma renúncia aqui e ali e tudo será aceitável. Moderação vira um tipo de virtude, associada a “equilíbrio”, em vez de identificar valores constitutivos.

 

Muitas vezes, de modo metonímico, atribuem o espectro político do sujeito de acordo com seu comportamento e decoro. O sujeito fala baixo, com vernáculo cuidadosamente estudado, se abre em sorrisos na imprensa: “ah, esse é um moderado”. José Genoíno, por exemplo, defensor professo da implantação do socialismo, ex-guerrilheiro e operador do Mensalão, foi um dos caudatários dessa “avaliação”. Tem como ser mais extrema do que isso? E no sentido contrário do vetor, a mesma coisa. O sujeito é espalhafatoso, se utiliza de vocabulário grosseiro em público: “é radical!”. Mas o que pensam essas pessoas? O que querem? Uma facada deixa de doer só porque foi dada com um sorriso?

 

Rindo, bem vestido, cordial. Só pode ser um moderado. Jamais um extremista ou radical

Rindo, bem vestido, cordial. Só pode ser um moderado. Jamais um extremista ou radical

 

Você só pode ser radical ou moderado sobre pontos específicos e concretos e sobre os quais você já tem uma opinião formada. Aí, sim, é uma questão de intensidade: tarifas de protecionismo, para ficar no mesmo exemplo, o sujeito é contra, mas pode aceitar alguma medida das mesmas para esse ou aquele segmento – moderado. O radical, nesse item, não aceitaria medida alguma. Aqui, a intensidade e a definição qualitativa cabem. Mas, em espectro político, o que realmente existe são diferentes concepções de organização social, regime de governo, modelo econômico e, finalmente, mas não menos importante, de táticas a se utilizar.

 

Isso não pode, de modo algum, ser um eixo único horizontal. Se assim fosse, existiria realmente uma direita, apenas dividida entre a intensidade de aplicação de uma doutrina homogênea clara, com todos os objetivos definidos e discurso unificado – aqueles que aceitam mais concessões, os que aceitam menos concessões.

 

Se uma corrente entende a liberdade individual acima do tecido social, que pode considerar apenas uma bobagem abstrativa, ele será provavelmente a favor da liberação das drogas. E não aceitará protecionismo de mercado. Isso não é simplesmente um “gosto”, é um entendimento. Outra pode achar que certos produtos devem ser restritos, tais quais essas mesmas drogas ou medicamentos. E é capaz de aceitar alguma intromissão do Estado na economia. Qual dos dois é o radical, o extrema? Qual está mais à periferia e longe do centro?

 

Para uma ilustração simples, só para facilitar o raciocínio, proponho partir de pelo menos dois eixos, não condicionais um ao outro, com os quais possamos avaliar uma corrente política. Vamos chamar, para simplificar, de “eixo econômico” e “eixo dos valores”.

 

Digressão – poderíamos, ainda, colocar nesse conjunto o “eixo dos meios de ação”. Um eixo mais tático que programático, voltado à conquista e manutenção política, influência na opinião pública etc. Há aqueles que se utilizam de confronto com a ordem estabelecida para atrair simpatizantes (black blocs) e vender a propaganda de Estado opressor. Há a ocupação de espaço em sindicatos, associações, ONGs. Há aqueles que defendem intervenções, guerrilhas e tomadas do Estado pela força. Então, são aqueles que podem concordar com os mesmos postulados econômicos e sociais, entretanto, diferem dos meios a empregar para difusão de valores (greves, piquetes, livros, palestras, confronto), a orientação do imaginário (academia, sindicatos, jornais, congressos), os meios de financiamento, a tomada de poder (golpes de fora, golpes por dentro mudando legislações, a ordem eleitoral transitória) e a gerência desse poder (separação dos poderes, ditadura, totalitarismo). Aqui, as expressões “moderado” e “extremo” poderiam ter sentido mais substancial, por tratar de meios. Mas fica para outro momento.

 

No eixo econômico, o debate se estende pelo tamanho e presença do Estado na economia. É uma disputa entre estatistas e liberais. A redistribuição é uma medida economicamente sustentável? Aceitamos reservas fracionárias? Qual o limite de endividamento do Tesouro? O Estado deve gerar crédito subsidiado por impostos? O governo pode ser dono de empresas? Vamos sustentar uma rede de benefícios à custa de aumento de alíquotas? Teremos liberdade alfandegária?

 

Nos que chamei de “valores”, o embate sobre os temas que formam o tecido social se dá entre conservadores e progressistas. Aborto, casamento gay, liberação das drogas, cotas, direitos das mulheres, multiculturalismo, Estado laico, cronograma educacional, tipo de punição a criminosos, porte de armas, educação sexual, células-tronco etc. Cada item aqui, perceba, demanda, invariavelmente, a atuação e regulação estatal. É o eixo onde a atuação política se manifesta como geradora de condicionantes de comportamentos. Esses eixos não são condicionantes um ao outro. Podem atuar em correntes distintas, em sentidos invertidos e combinados. Exemplifico:

 

Os militares do regime de 64, homens de direita, estavam realmente nesse lado no aqui nominado “eixo dos valores”: pancada nos bandidos, proibição de drogas, direito a compra e porte de armas etc. Entretanto, eram economicamente protecionistas, elevaram o Estado a um novo patamar, criando mais de 80 estatais. Fizeram do governo a locomotiva da economia, com iniciativas de infraestrutura em usinas, estradas, pontes, endividamento público etc. Atuação bem ao que se entende ser o gosto das esquerdas. Um PAC que realmente saiu do papel e sem propaganda.

 

Na situação diametralmente inversa, para contrapor outro Estado e regime, em vez de corrente: o Canadá, detentor de uma economia de mercado mais sólida e sofisticada (ainda que com arroubos de welfare state) que o Brasil. Tem na Bolsa de Toronto a “Meca” dos investimentos de riscos, principalmente em mineração. Pode ser observado, por exemplo, no livro Tudo ou Nada de Malu Gaspar, que nos anos 80, quando a TVX de Eike Batista foi listada na Bay Street, já existia um mercado mobiliário capaz de financiar e alavancar, em bilhões, empresas nascentes. Economia de mercado para ser “capitalista” a esse ponto precisa ter um respeito devocional aos contratos, clareza, previsibilidade e sacralidade com propriedade privada. Economistas liberais quase deixam escorrer uma lágrima quando leem tais palavras.

 

Por outro lado, é um paraíso progressista nos valores sociais. Não há país nesse lado do Atlântico onde as políticas de gênero, transgênero, da mulher, tenham avançado tanto quanto no Canadá. Ao ponto de iniciar um processo (inevitável) autofágico, onde os “direitos” desses grupos de interesse entram em conflito que não pode ser arbitrado pela lógica.

 

Governo militar: um regime de direita, mas que cria estatais e o Estado é o carro chefe da economia

Governo militar: um regime de direita, mas que cria estatais e o Estado é o carro chefe da economia

 

Qual dos modelos antagônicos poderia ser catalogado como representativo do objetivo da “direita”? Os dois? Um? Nenhum? Um tanto em cada. E é assim que é. Isto posto, como pode existir A direita? Esse ente que abarca todos as nossas intenções e será caudatária de nossos esforços? Um bloco dogmático no qual estamos totalmente dentro ou estamos jogando contra?

 

Pelo fato de nos atermos à premissa de que as avaliações da realidade só podem ser feitas a partir eventos passados e concretos, sendo esses os nortes de julgamento e decisão (e não a partir de futuros hipotéticos), basta para nos colocar sobre o mesmo guarda-chuva? Isso não se traduz. Protestantes, uniatas, ortodoxos, católicos e espiritas são cristãos e tem um tipo de unidade, mas não são um todo coerente e hierarquizados.

 

Confronto e Divisão

 

Outro sentimento influente é aquele que entende a divisão como enfraquecimento de todo o conjunto que enfrenta o petismo e assemelhados. Quero crer que na política não é bem assim. Primeiro porque não existe um fim, uma causa objetiva que acaba na deposição de Dilma. A causa é sempre adiável: depois, é a vitória nas eleições de 2018, depois a estabilidade governamental, depois, o mundo do amanhã. E não há como correntes tão dispares calar em prol de uma abstração do bem comum, de uma síntese ou dos líderes visíveis da hora. Não! Ou é um terreno de consciências ou não é nada. O que gostamos, dizemos sim. O que não gostamos, dizemos não. Se algo nos incomodou, não se pode evitar o dissenso em prol de um motivo alegadamente nobre. Tal comportamento não vai nos levar a um norte moral melhor que o do PT. Hoje calamos sobre desinformados ou mal informados, amanhã justificaremos um “petrolão” (ok, exagerei, mas fica pelo apelo ao drama).

 

A proteção aos líderes, orientadores intelectuais e símbolos aglutinadores das correntes promove uma comoção e virulência maiores (tal como vimos no embate citado), eventualmente pela necessidade de proteção à identidade. Há o receio do efeito, mais ou menos, daquilo que Zygmunt Bauman definiu como estratégia para genocídio (que, intelectualmente, podemos tratar da eliminação, desqualificação de determinada corrente). Parafraseando:

 

O efeito mais essencial do genocídio é a “decapitação” do inimigo. Espera-se que o grupo marcado, uma vez privado de liderança e centros de autoridade, perca sua coesão e capacidade de sustentar a própria identidade e, consequentemente, seu potencial defensivo. A estrutura interior do grupo sofrerá um colapso, reduzindo o grupo a uma coleção de indivíduos que podem ser então pinçados um a um e incorporados à nova estrutura. As elites da comunidade alvo constituem, portanto, o alvo primário, na medida em que este vise a destruição do grupo como entidade autônoma e coesa.

 

A proteção mais virulenta em torno dos líderes ocorre não apenas em medida da concordância e simpatia, mas também como elemento de defesa de identidade. Entendimentos concorrentes, entretanto, vão entrar em choque. Isso, além de inevitável, apesar de criar essas situações de desagrado e competição, a meu ver, na política, também traz vantagens.

 

A Ocupação de Espaços

 

Sendo a oposição ideológica ao petismo e às esquerdas ainda muito incipiente, nos encontramos na fase de difundir valores e procurar identificação com um vasto público não politizado, mas que se acostumou a ter o imaginário instrumentalizado com o discurso de esquerda. Dissensões ampliam o espectro de atuação. Por exemplo: os movimentos religiosos católicos e evangélicos não serão atraídos com o discurso puramente liberal. Sua oposição à descriminalização das drogas e casamento gay (que, se não estou errado, se estiver, desculpe, é uma agenda que o MBL defende) é mais profunda e não pode ser dissuadida com discursos que façam loas à liberdade individual e autodeterminação. Tais correntes “conversam” melhor com Bolsonaros e movimentos mais conversadores na política – não ficando alienados do debate público, onde correriam risco de serem atraídos ao embuste do migalhismo, travestido de humanismo, do PT populista.

 

De mesmo modo, como ainda estamos juntando os pedaços do que a esquerda fez da imagem de seus adversários, qualquer norte conservador pode parecer reacionário aos ouvidos dos que estão contra o PT, mas não têm uma ideia do que seja conservadorismo. Liberais, como o MBL, atuam para absorver esse pessoal. Podem evitar que um número de defensores de liberação de drogas e casamento gay se vejam arrebanhados para a agenda das esquerdas, defendendo no dia seguinte toda uma série de medidas de interferência do Estado que seriam necessárias para alcançar os objetivos nominalmente alegados. E é assim que se amplia o espectro político das correntes que se opõe às esquerdas. O debate e confronto desgastam, mas esclarecem, ocupam espaços e aprimoram o movimento.

 

A história da esquerda no Brasil ilustra isso de modo perfeito. Esquerdistas também se “acusam” de direitistas desde reuniões de centro acadêmico a congressos de partidos.

 

O PCdoB surge numa dissensão do PCB, aderindo à revolução campesina maoísta, enquanto o partido mais antigo era acusado de “moderação” por cumprir a estratégia cultural traçada pelo Kremlin. Assim como a guerrilha opôs Marighella e Prestes. A síntese hoje visível no poder, das esquerdas, não ocorreu nas salas de debate, mas na atuação das inúmeras correntes. O processo vai instruindo e moldando o imaginário popular pela soma dessas milhares de ações, comuns em uns pontos, concorrentes em outros.

 

Tal volume de aparente cacofonia, ainda que não esclareça nada doutrinariamente, amplia o espectro político. Quando algum grupo é acusado de não ser “esquerdista o suficiente”, reforça a falácia de que ser de esquerda é ser do bem. Se não é do bem, se não é queridão, não está sendo esquerda o suficiente. O erro é uma “direitisse”, um desvio do outro.

 

Os alinhados com a direita, segundo o PCO. Ainda que de discurso absurdo, as dissenções aumentam o espectro de atuação e reforçam a imagem positiva da abstração “a esquerda pura”. Se não serve essa esquerda pra você, aquela pode servir, que é esquerda mesmo

Os alinhados com a direita, segundo o PCO. Ainda que de discurso absurdo, as dissenções aumentam o espectro de atuação e reforçam a imagem positiva da abstração “a esquerda pura”. Se não serve essa esquerda pra você, aquela pode servir, que é esquerda mesmo

 

A influência das correntes determinará sua materialização em veículos de comunicação, movimento editorial, militância, financiamento e, enfim, representantes no poder. A síntese política, repetindo, acontece então NA sociedade, advinda da pluralidade de visões, gostos e propensões que as correntes tentam influenciar. Não é construída por consenso de intelectuais. Ela é representada na materialização desse sem fim de visões e entendimentos, somados em ações e instituições concretas e reais.

 

A síntese não tem de ser intramovimento, doutrinária, encaixotando num discurso único, rebanhista, onde os líderes da hora precisam, então, serem preservados, pois representantes da “doutrina final”. Líder político não é sacerdote. E assim é a representação legítima da pluralidade manifestada materialmente. Isso só será conseguido na independência de correntes concorrentes, não na submissão de várias a uma.

 

(ATENÇÃO: Não estou falando sobre a busca da verdade. Isso realmente ocorre com e através dos intelectuais. A “conversa” com o conhecimento de todas as épocas contra o conhecimento singular de cada uma delas. Tratei apenas da manifestação política enquanto elemento visível e de ação. Um parlamento, por exemplo, com um número “x” deputados tendendo mais a conservadores e “2x” mais para liberais é a materialização, numa proporção auferível, do quanto as correntes influenciaram. Idem para movimento editorial, think tanks, publicações regulares de mídia, ONGs etc.)

 

Tirar o PT é uma questão do cidadão respeitador da lei, de bem, que não quer ser espoliado. Não é uma questão doutrinária. Difere da questão política subjacente e da briga por ocupação de espaços, que é o motivo real (e oblíquo) dessas contendas.

 

Pingos nos Is

 

Embora eu tenha escrito a favor do dissenso, como o evento em questão “causou”, vale colocar “os pingos nos is”, com o perdão do trocadilho, para não ficar em cima do muro.

 

Sabe aquele amigo (todos temos) que, ao avistar um dos envolvidos na confusão, não espera para entender exatamente o que está acontecendo, se há culpas e causas justas envolvidas e já chega na voadora?

 

Foi mais ou menos isso que aconteceu com o Reinaldo Azevedo no episódio. Ainda que seja o melhor tipo de pessoa para se ter ao lado nas contendas, a meu juízo, foi feita uma grosseria desinformada e desmotivada para com Jair Bolsonaro. Enquanto estava na troca de ataques entre grupos alinhados, a coisa mal saiu das redes sociais (vale destacar que em todo o processo, tanto Bolsonaro quanto Kim se comportaram perfeitamente, sem justificar ataques, ou aumentar a temperatura). Destaco trecho do primeiro texto do jornalista que não faz justiça ao acusado:

 

O Brasil precisa de uma agenda, não de ódio, recalque, boçalidade e rancor oportunistas — e, em alguns casos, bem remunerado. (…) No dia em que o PT não estiver mais no poder, qual será a agenda de Bolsonaro e seus amestrados? Enfrentar os gays no braço, para que Wyllys, em busca de mais votos, se ofereça para salvá-los?

 

Pô, Reinaldão! Logo você? Ainda que você não conheça a agenda de quem ataca, isso não faz dela inexistente. E o que fez com o deputado, tratando ele por sua versão visível na imprensa, é exatamente o que fazem com Reinaldo Azevedo há 10, 15 anos. “Ele é só ódio!”, “Que ideias ele tem pro Brasil?”, “Ele só escreve para criticar o PT, nunca criticou o PSDB”. Nossa resposta sempre foi: você já leu ele? Ninguém deve ser tomado pelo que dizem seus detratores.

 

Reinaldo Azevedo entra no debate

Reinaldo Azevedo entra no debate

 

A comparação com Wyllys iguala os desiguais e equivale ao que se tenta a fazer a Reinaldo Azevedo na Folha: contrapor seu espaço, supostamente de extrema (se apoiando na desinformação que tratei no artigo), com o de outro extremista, o líder do MTST, Guilherme Boulos. Tratando esses dois como equivalentes de cada espectro, a Folha posa de imparcial e faz todo o resto do seu colunismo de moderados e representantes adequados para o senso comum.

 

Devo até salientar que, se formos buscar as votações do deputado, seu entendimento da vida pública, está num espectro mais próximo ao que Reinaldo Azevedo entende, do que Reinaldo Azevedo está próximo ao MBL.

 

O bom trabalho que faz a rapaziada do MBL, assim como o do deputado enquanto resistência legislativa, podem ser apreciados nas suas contradições. Mais do que qualquer outra coisa, são suas diferenças que fortalecerão o combate.

 

Ainda que subsista um medo de enfraquecimento da pressão sobre o PT por essas divisões, ninguém atacou as manifestações – que, vamos ser sinceros, não terão fracasso ou sucesso dependente de meia dúzia que molhou as calcinhas de raiva essa semana. Haverá comparecimento maciço às ruas se o sentimento popular entender que alguma coisa “andou” e o protesto funcionará como outro passo. Se estiver descrente da efetividade da pressão, não será tão cheio. Nesse ínterim, uma vez que tratamos de impeachment, um evento constitucional, a eleição para a presidência do PMDB, logo mais, entre governistas e antigovernistas, tem impacto no comparecimento.

 

Também vale salientar que votaremos todos no candidato menos esquerdista quando a hora se apresentar, mesmo que de nariz tampado, independente se ao lado dele estiver alguns desafetos ou de correntes concorrentes. Ou não votamos, depois de passar o ano metendo o pau no PSDB, até com entusiasmo, em Aécio?!

 

P.S.: Ah, sim: Internet sem treta não é a internet. Nessas horas, fica a dica: Barraco na Câmara? Hora de Ler os Clássicos.

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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