A Babá das Manifestações e o Tribunal de Nuremberg

A Babá das Manifestações e o Tribunal de Nuremberg

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O assunto da babá nas passeatas rendeu bastante. A foto gerou polêmica. Nonsense! Isso é polemica? Isso rendeu? Ainda rende? Tal desqualificação das relações de trabalho, ainda que do trabalho humilde, mas honesto, nos diminui. Os que atacam tal natureza mantem o país se arrastando atrás do crescimento do resto do mundo. A crítica sob o ângulo do opressor e oprimido, onde o trabalhador está sendo explorado, troca sua dignidade pelo dinheiro em uma condição humilhante, entretanto, não aparece quando a relação de troca é voto por dinheiro. Aquele que recebe, salvo momento de vulnerabilidade transitória, se sujeita. A própria babá se manifestou para desqualificar a narrativa rasteira de opressão, como se não fosse o trabalho uma escolha (assim como o crime, o viver de assistencialismo, e não condicionamentos dos quais não podemos fugir – “salvo pela via da Revolução”, eles diriam).

 

Mas, como disse, esse angulo já foi adequadamente rebatido. Pretendo, então, tratar do modo com que a esquerda instrumentaliza a atuação de seus adversários. Começo pela “linha de corte”, pela qual, segundo sua narrativa e entendimento da realidade, determinaria aqueles que possuem direito a se manifestar e aqueles cuja manifestação é inaceitável. A fantasiosa premissa de uma manifestação dos afortunados traduz uma divisão na população de cortes ético e estético. Nos mediram, nos pesaram e, no seu tribunal moral, nos condenaram.

 

O “coxinha” não deveria ter o direito à reivindicação, já que é um materialmente favorecido. Sua função social não é participar no debate público, apenas produzir para que recursos, na forma de impostos, sejam transferidos ao Estado. Esse “coxinha” é um “sem-voz”. Na ética da esquerda, a ação política se legitima apenas enquanto corretor de desigualdades. A justiça só existe quando, à força, diminui a diferença material entre as pessoas (porque a igualdade plena, de talento, virtudes, valor, disciplina, esforço, nem o totalitarismo dos totalitarismos conseguirá produzir – mesmo que só deixe 1.000 pessoas sobre a Terra). A ética permite a manifestação de um afortunado, se encabrestado por esta mesma ideologia que, no terreno das intenções e expectativas, fala pelos oprimidos (e não por todos), buscando a correção da desigualdade através da justiça social – que justiça não é.

 

No campo estético, o mesmo “coxinha” também está deslegitimado e desqualificado em sua causa e manifestação caso o faça com óculos de marca, carregando cachorrinho, sem confronto, batendo foto com a polícia, levantando cartazes bem-humorados, marcando agendamento com as forças de segurança ou mesmo usando camisa da Seleção Brasileira.

 

Ainda que se procure criar um recorte onde todos os manifestantes sejam encaixados em uma narrativa, a pluralidade é a tônica de manifestações maciças. Incrível que tal obviedade precise ser reiterada.

Ainda que se procure criar um recorte onde todos os manifestantes sejam encaixados em uma narrativa, a pluralidade é a tônica de manifestações maciças. Incrível que tal obviedade precise ser reiterada.

 

Esses comportamentos não fazem parte da estética da resistência, emprestada da mística da Revolução Francesa. Esta precisa contar com punhos fechados ao alto, cenhos cerrados e palavras de ordem contra “O” sistema (essa abstração), e não contra governantes reais, pessoas concretas, com nome e CPF – as pessoas mesmas que estão hoje no comando desse suposto sistema. A estética da manifestação é de confronto, de queda da Bastilha, com intento de revogação da ordem e substituição da mesma. Pacíficos que estejam cantando, rindo, levando cachorrinhos, tomando espumante, aplaudindo homens de farda (essa ferramenta da abstração sistema) não possuem a estética da manifestação. “Não é um protesto”, dizem eles. “Protesto válido deve atentar ao mundo do futuro, não ao mundo do presente conformista ou do passado reacionário. Se assim for, é um protesto de “alienados”, e alienados não podem se manifestar, pois mostram através de seu comportamento não-engajado que não possuem consciência crítica e social. Alienados não sabem que “o calo lhe dói” (ainda que o desemprego, roubalheira, desmandos e aparelhamento das instituições não precise ser traduzido por nenhum cientista a político – é um calo que dói e sabemos que dói). Quando fizeram a convenção internacional do modo de fazer protestos, não fomos chamados, pelo jeito.

 

Esses recortes falam mais do aspecto autoritário da esquerda, que não aceita o contraditório, mas não ainda do seu aspecto totalitário. Os entendimentos listados atuam mais em determinar a conduta da militância, gerando cacoetes mentais em seu imaginário (cacoetes que se manifestam automaticamente com o tempo, através da “experiência da revolução) do que realmente do modo que enxergam seus adversários, que tomam como inimigos.

 

Sim, inimigos, porque são caudatários da teoria dos interesses de classe cunhada pelo velho Marx, na qual está dito que são esses interesses, desse coletivo, que determinarão o modo de pensar das pessoas a ele pertencentes. Nisso enxergamos seu aspecto totalitário, comum a todas as ideologias totalizantes: negar a natureza do homem e sua individualidade.

 

“Interesses de classe, conformismo e reacionarismo no apoio dos coxinhas às ferramentas da ordem que mantém o opressor e o oprimido estanques. ” Um discurso velho que sempre se renova.

“Interesses de classe, conformismo e reacionarismo no apoio dos coxinhas às ferramentas da ordem que mantém o opressor e o oprimido estanques. ” Um discurso velho que sempre se renova.

 

Diluindo a personalidade

 

Partindo dessa mentalidade de interesses de classe, basta identificar um exemplar do grupo, da classe, do coletivo a se deslegitimar, que se encaixe na narrativa para estar comprovado (e condenado) que o protesto “é, sim, vejam só! Vejam aquilo! ”, de coxinhas afortunados. E só de coxinhas afortunados. Sendo assim, os que protestam caem na linha de corte acima, e seu direito a protestar é desqualificado. Claro que é uma jogada malandra – tomam a parte pelo todo ou vice-versa. Mas eles realmente entendem assim – é a característica mesma do pensamento metonímico.

 

Mas para ilustrar, vamos supor que tivesse sido flagrado alguém cujo comportamento realmente careça de censura, senão mais. Supomos que encontrássemos um racista professo, bem daquele jeito que a esquerda gosta de nos imaginar: falando contra direitos iguais, defendendo em pureza racial, eugenia e tutti quanti. Alguém realmente desprezível, não uma caricatura da narrativa boboca da militância histérica.

 

Ainda que esse ser tivesse existido no protesto de 13 de março e fosse flagrantemente reportado, o que isso diria sobre o movimento? Sobre os outros 3 milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove que lá estiveram? O que atestariam sobre suas reivindicações?

 

Nada, ora. Absolutamente nada.

 

É uma tara achar que todos éramos, por uma amostra, massa homogênea – portanto, iguais, com as mesmas ideias. Aqui está a essência do pensamento da esquerda (sua alma totalitária): combater um ente abstrato, pois este seria um dos elementos centrais da personalidade do grupo combatido – elemento comum a todos os seus membros. Uma vez que entendem que o pensamento é definido pelos interesses e ideologia de classe, todos temos que ser iguais. Basta achar um que ilustre claramente, e estaremos todos condenados por essa amostragem.

 

Não podem conceber que na manifestação existem pessoas de todas as faixas de renda (renda, que é algo transitório, não classe, que seria algo estanque), formação, crença, times de futebol, interesses pessoais, pesos, etnias, e, também, preconceitos. Acredite, um bom número de professos socialistas participou dos protestos contra o PT e estarão, em outubro de 2018, votando no PSB, na Rede, no PDT, no PPS, no PSDB.

 

O eventual racista do exemplo hipotético teria que ser combatido enquanto indivíduo. Você combate o racista, não o racismo. Racismo é uma abstração, tal qual o machismo. O combate a esses entes abstratos partem dessa mentalidade totalizante da esquerda que só entende o pensamento “em bloco” – pensamos por condicionamento. Nos negam a individualidade. Nisso, mais do que em qualquer outro aspecto, reside o totalitarismo: na negação do indivíduo enquanto indivíduo e preso a um “destino” do qual não pode fugir ou transcender.

 

E é por isso que suas revoluções libertadoras humanistas igualitárias e fraternais acabam com genocídios… em bloco. Não são indivíduos, resultantes de suas escolhas pessoais, os inimigos, mas sua classe, seu grupo, seu coletivo. Os judeus, os cossacos, os kulaks, os ucranianos, os burgueses etc. Inimigos do povo.

 

Nuremberg

 

Apelar a eventos correlatos ao nazismo é sempre golpe-baixo. Esse anátema da política só deveria ser evocado em situações concretas para que não perca significado na boca de quem utiliza como um xingamento – e não como descritivo da realidade. Mas pretendo apelar ao contra-nazismo. Àqueles que os venceram e os julgaram – e principalmente o modo com que o fizeram, onde podemos enxergar símbolos da civilização.

 

Em agosto de 1945, o Ocidente (América, França e Grã-Bretanha) assina o acordo sobre o Tribunal Militar 08, que determinou direitos e obrigações de todos os que haviam de tomar parte no proceder com os criminosos de guerra. O Tribunal de Nuremberg decretou 12 condenações à morte, três prisões perpétuas, duas condenações a 20 anos de prisão, uma a 15 e outra a 10 anos. Hans Fritzsche, Franz von Papen e Hjalmar Schacht foram absolvidos. Este último será meu exemplo.

 

(Para constar: após estes julgamentos listados, foram ainda realizados os Processos de Guerra de Nuremberg, que indiciaram médicos, juristas, personalidades do governo entre outros. Ocorreram perante o Tribunal Militar Americano, onde foram analisadas 117 acusações que também resultaram em condenados a morte, prisões absolvições)

 

Destaco Hjalmar Schacht por que? Porque ele foi este homem:

 

O Ministro da Economia e Presidente do Reichsbank Hjalmar Schacht e Adolf Hitler – do livro Setenta e Seis Anos de Minha Vida

O Ministro da Economia e Presidente do Reichsbank Hjalmar Schacht e Adolf Hitler – do livro Setenta e Seis Anos de Minha Vida

 

Hjalmar Schacht era economista pela Universidade de Kiel e foi diretor do Dresdner Bank, do National Bank e do Comissariado Monetário da Alemanha, até primeira passagem no Reichsbank (Banco Central Alemão) em 1924 – pelo qual atuou nas duas grandes crises econômicas do período entre Guerras. O êxito contra a primeira crise da terrível inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial ocorreu através da criação de nova moeda, baseada em garantia hipotecaria, denominada Rentenmark. Acabou com o processo inflacionário através da aplicação de uma reforma monetária indexatória. O êxito contra a depressão econômica nos anos 30 também não foi de menor importância.

 

Sua proficiência econômica o catapulta à posição central no governo que se tornaria o III Reich. Schacht é reconduzido ao Reichsbank com a eleição de Hitler em 1933. Trabalha na elaboração do primeiro programa contra o desemprego (através da emissão de letras “Mefo”, para financiar obras públicas que, por causa do desemprego, não tiveram efeito inflacionário imediato) e pela adoção da Lei de 23 de março de 1933, que outorgou maiores poderes ao Executivo, propiciando rapidamente a ditadura nazista.

 

Não tratamos de um personagem menor no governo. Ainda que tenha perdido a batalha com Göring pela supremacia na área econômica em 1937 (fato que resultou em demissão do Reichsbank no ano de 1939, transformando-o em “ministro sem pasta”), só foi apeado do gabinete em 1943. Entretanto, em Nuremberg, foi absolvido.

 

Para ilustrar o papel central de um comandante econômico (pois a economia, como tudo o mais, não acontece no vácuo, no frio do escritório separado dos casos concretos), transcrevo trecho do livro autobiográfico Setenta e Seis Anos de Minha Vida, que retrata parte de seu julgamento:

 

Financiou o armamento com recursos do Reichsbank. Por que fez isso?

 

Respondi: “As forças aliadas haviam prometido um desarmamento geral. Considerava que a Alemanha tinha os mesmos direitos políticos que essas potências. Como não cumpriram a promessa de desarmamento geral, acreditei que minha pátria teria de se armar de alguma maneira para equiparar-se”.

 

Passei a dar detalhes, descrevi os saques Mefo, sobre os quais já falara bastante anteriormente, e explicitei a situação europeia para os americanos. Descrevi como a Checoslováquia e a Polônia se armaram, disse que a Rússia em 1935 havia anunciado que queria aumentar seu contingente de paz para 1 milhão de homens e relatei aos americanos uma conversa que tivera na época com o embaixador americano em Moscou, Davis, durante sua passagem por Berlim. Ele a descreve em suas memórias. Citei: “Quando apresentei a proposta do presidente Roosevelt, de limitar o armamento às armas que um homem poderia carregar em seus ombros, Schacht quase ergueu-se de sua cadeira, de tanto entusiasmo”. Citei mais um segundo trecho do livro do embaixador Davis, no qual defendia seriamente o desarmamento geral. Mantve meu olhar sobre o causador Jackson e pressenti que logo aconteceria alguma coisa. O dr. Dix achou que eu deveria dizer ao tribunal quanto dinheiro colocara à disposição do Reich para o armamento.

 

Mr. Jackson já estava furioso. Aquilo era totalmente indiferente, gritou. Não interessava a ninguém se o armamento alemão custara pouco ou muito. O Dr. Dix respondeu calmamente que o tribunal deveria se interessar pelo assunto; sem dúvida seria possível concluir, pelo montante, pequeno ou grande, se a intenção era guerra ou defesa.

 

O III Reich não teria acontecido sem a recuperação econômica. A proficiência técnica e financeira de Schacht, que inclusive, de modo professo, enumera os “comos” e “por quês” de um financiamento militar, produz contribuição inegável. Entretanto, Schacht foi absolvido porque Nuremberg se negou a condenar em bloco. É isso que sempre separou nós e eles.

 

Mesmo que sua expertise tenha sido uma engrenagem da máquina de Estado do III Reich, Schacht se recusou a participar do horror nazista, contra o qual se rebelou, levando-o ao encarceramento por seus ex-colegas. Suas escolhas como indivíduo e sua consciência de ação contaram. Levar isso aos tribunais é o esforço que separa, ou pelo menos busca separar, o Ocidente da barbárie.

 

A condenação em bloco, o recorte de grupo, classe e etnia para a condenação, causa uma condenação a priori. É o tribunal revolucionário – e não é justiça. São totalitários que entendem as relações e o pensamento como condicionados, não por indivíduos e suas escolhas, imiscuídas e confusas no real, mas por coletivos. Por isso que nazistas mataram tantos e comunistas mataram ainda mais e continuam matando – a seleção é feita através de símbolos que o sujeito representa. Condenar e rotular um por todos é a tradução do pensamento rebanhista, que mede todos por sua régua. Alegar que o manifestante que levou sua babá ou um judeu pertencem a determinado grupo, faz com que as individualidades sumam, diluídas no simbolismo.

 

A consciência do indivíduo sobre as consequências das suas ações foi determinante no julgamento de Nuremberg, que traz o contraste do Ocidente e seus valores fundantes, ainda que existam erros e injustiças aos montes, em não descambar para a barbárie. Pois não são erros essenciais. Isso se traduz em tipificações de pena e absolvições, que são o reconhecimento mesmo da diferenciação dos indivíduos, mesmo que atuem juntos – o contrário de justiça social e dívida histórica, que são culpas a priori. Cito Nuremberg como exemplo, pois ocorreu após a maior calamidade (até aqui) da história humana. O clamor por “justiça” poderia acabar em “justiçamentos” e, especialmente nesses casos, a sobriedade é fundamental.

 

Os elementos que proporcionaram a Segunda Guerra e os valores que a derrotaram (não os tanques e soldados do mundo livre, mas os valores que fundamentalmente os sustentam) ainda não foram corretamente compreendidos. Tais elementos (que não constam na histeria de acusar tudo que se mexe em direção oposta de fascista) que criaram as condições para endurecimento de regime e divisão dos seres humanos entre aqueles de conduta ou grupo aceitáveis e aqueles não. Uma vez estes não sendo aceitáveis, como podem ter voz? E se não podem ter voz, por que deveriam ter direito ao dissenso e ao protesto?

 

Não estou dizendo que quem faz essa associação nos colocaria no paredão. Mas essa atitude mental colocou muitas e muitas vezes no passado. Se alguém é suprimido de sua individualidade, perde a humanidade. Perdendo a humanidade, não valerá muito. Não busco equivaler nada nem ninguém ao nazismo, apenas ilustrar um paralelo onde, mesmo em situação extrema, na condenação de crimes da guerra mais tenebrosa da história humana, pilares de civilização foram preservados. Colaboradores (diretos ou indiretos) do III Reich puderam ser absolvidos por não serem vistos “em bloco”. Por que, então, teríamos cassada nossa legitimidade, a priori, de protestar por uma rotulação “em bloco”?

Merlin A.
Engenheiro pela PUCPR e empresário em Curitiba.

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  • junior105010

    essa moça ai quando sai pra trabalhar deixa uma menina cuidando das filhas pequenas essa capitalista opressora explradora