A autocondenação de Marco Feliciano e a ética sob<br /> holofotes

A autocondenação de Marco Feliciano e a ética sob
holofotes

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Inicialmente não pensei em escrever nada sobre a polêmica envolvendo o deputado e pastor Marco Feliciano, porém as proporções do caso tem aumentado tanto que acabei não podendo mais evitar. E confesso que foi desgastante demais somente pensar sobre o tema, somente gastar tempo raciocinando em algo diferente para escrever do que apenas mostrar os tweets infelizes que ele postou e excretá-lo como um pária. Então, dando vazão a duas correntes de pensamento que tenho, farei este texto em dois atos, como se fossem duas pessoas distintas comentando um fato. Raul nunca fez tanto sentido…

 

A autocondenação do Pastor

 

Defendê-lo seria impossível, a menos fosse eu um cristão desavisado, pois o bafafá envolvendo seu nome trouxe a tona histórias que envergonham aqueles que professam a mesma fé. Porém, condená-lo também é desnecessário, ele mesmo já o fez quanto proferiu asneiras em ferramentas de acesso público, ou ainda no púlpito de sua igreja. Diante do caso, fica mais evidente ainda a questão que muitos clamam, de que religiosos não se envolvam com política, o que discordo de forma veemente (são cidadãos como outros qualquer), porém evidencio que este caso sirva de exemplo para outrem, sobre responsabilidade quanto o que é dito enquanto pessoa pública e discernimento.

 

Dito isso, afirmo que não gosto de julgamentos públicos, como vem acontecendo, eles deixam passar muitas coisas. Essa história de sua ascensão a presidência da CDHM tem até desviado o foco da população na ascensão de Renan Calheiros à presidência do Senado, lembram dele? Um caso é pior que o outro, não tem como comparar. Mas ao que parece, Feliciano tem causado mais asco. Manobra política? (Foi o PT que deu a comissão para o PSC, é bom lembrar.)

 

Em 2011, quando postou isso, Feliciano já havia dado a própria sentença.

Em 2011, quando postou isso, Feliciano já havia dado a própria sentença.

 

Para ele, sugeriria do fundo do coração que deixasse o cargo e findasse o caso, desculpando-se com a Comunidade Gay e explicando-se para com os negros. Se foi mal entendido como diz, que se explique via nota pública. E não só isso, prove, ou tente provar, mudança no discurso e na prática. Monte campanhas contra o preconceito, e também contra homofobia. Política é o jogo dos inteligentes e dos bons comunicadores, alguns debates são negativos, pois o entendimento dual e maniqueísta natural do ser exalta uns e derruba outros. Ele não precisa concordar a PLC-122, como muitos não concordam, mas poderia mostrar ao país que é contra a violência e segregação contra homossexuais de fato – se for realmente, e eu acredito que é, sou ingênuo e creio na bondade das pessoas, principalmente ditas seguidores de Cristo. Ainda não entendi porque ele, Silas Malafaia e outros influentes ainda não lançaram a campanha: “Cristãos contra a homofobia!”

 

Seja comportamento ou condição genética, sejam duzentos mortos por ano ou mil, por qual motivo for (se foi homofobia mesmo ou passionais, sei lá), campanha pelo bem não faz mal. Assim estes pastores poderiam provar que de fato lutam contra a liberdade de expressão e que seus discursos sobre o que é pecado ou não são realmente pregações de amor, não incitações ao ódio como pregam os militantes LGBT. Por que não se engane, toda essa discussão pela presidência da CDHM é principalmente por conta disso, dessa guerra entre os evangélicos – nem todos – e os ativistas gays. É uma queda de braço dos extremos e pouco inteligentes. Prefiro, neste caso, o caminho do meio e da lucidez. O movimento negro é envolvido nesse balaio contra Feliciano, por conta da ignorância extrema do mesmo. Não consigo acreditar que ele é mesmo um cara racista, não com aquele pixaim…

 

Ética sob holofotes

 

Estive observando esta imensa campanha contra a ascensão de Marco Feliciano a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ok, protestem, ele é religioso demais para um político, e falou, sim, babaquices (apesar do adjetivo, entendo que alguns não achem) no Twitter sobre o continente pai dos negros e sobre os gays. Só que não podemos fazer presunção de crime onde não há. Ele não foi racista, ainda mais por ser ele próprio um negro (com mãe mulata, de alguma forma ele descente da África), um “amaldiçoado”.

 

Ele falou umas asneiras cabeludas sobre a África ser um continente amaldiçoado, mas não estou até agora conseguindo ligar isso ao fato de considerá-lo racista. Sério mesmo! Não acho que ser racista é falar merdas sobre história no Twitter. Não entendo que ele falou contra negros, acho que somente tentou explicar religiosamente motivos pelos quais o continente sofre até hoje. Já disse que foi um lixo de fala, mas não é por ela que ele seria um cara “contra negros”. Já pensei e pensei e sinceramente não consigo chegar até isso logicamente. Entendo que ser racista é bem mais grave, é segregar, discriminar… Inclusive, existe lei para isso, porque ele não está preso? Seria porque suas falas não poderiam ser enquadradas em lei, presumo. E homofóbico pra mim é quem bate e segrega homossexuais, não quem é ignorante sobre sexualidade humana. Ele disse uma merda do tamanho do Brasil sobre gays, mas ainda assim eu não o chamaria de homofóbico como todos os grandes veículos de mídia estão fazendo, muito menos de racista (Ele seria um racista que não praticou o crime do racismo, tipo racista em potencial, mas como assegurar isso precisamente por um tweet?). No agravante de ser uma pessoa pública, foram sim lastimáveis as suas twittadas, mas como redator ou seja lá o que eu fosse, não conseguiria imputar racismo e homofobia nesses casos, apesar de assim agradar o senso comum. Incorreria num risco de banalizar os dois termos, o que é ruim.

 

O presidente anterior, Domingos Dutra, parece ter virado santo por conta dos erros de outra pessoa, mas é o cara que queria uma lei esdrúxula sobre presidiários. E o deputado Jean Wyllys vai no mesmo barco, orquestrou todos os protestos dos LGBTs contra a presidência do Feliciano, fazendo uso da democracia, com direito, mas é o mesmo que defende coisas esdrúxulas também, como cotas para professores transsexuais (Tem que ter cota pra tudo agora?), e irresponsavelmente chamou o Papa de genocida em potencial – pelo mesmo Twitter que o Feliciano usa.

 

Relativização? O suposto erro ou excesso de outro, na minha opinião, amenizaria os erros de Feliciano? Nada disso, estou apenas apontando a falta de mobilização midiática de grande massa contra coisas assim. Domingos Dutra é um político de esquerda clássico, brigador, o que é entendido pela maioria como adjetivo, mas o seu projeto, como comentado no vídeo, foge da lógica – apesar de visar humanizar as condições dos encarcerados, o que é lúcido e louvável.

 

Mas voltando ao Feliciano, a pregação onde ele diz que a AIDS é uma doença gay aponta novamente ignorância. Mesmo que a incidência seja maior em pessoas homossexuais (careço de fontes para afirmar sobre isso), a afirmação é inadequada, visto que no sexo heterossexual pode-se contrair a doença também, basta que um esteja infectado. Ainda assim, também não o chamaria de homofóbico, mas sim, impugnaria ele ao cargo de uma presidência de Comissão que visa conscientizar as pessoas sobre uma convivência sadia perante a diversidade. Não pactuo do discurso de que a pregação cristã que classifica relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo como pecado seja um “incentivo a violência”, pois esta mesma pregação cristã cobra amor e paz. E diz também que pecado não tem tamanho, e agressões e violências de outros fins são pecados óbvios.

 

Acontece que lá naquele Congresso o que não falta é político “causador”, então o momento pede que heróis sejam levantados na imprensa sobre a caveira do Feliciano. Petistas abdicaram da sessão de posse do novo presidente da CDH, saindo após o discurso de renúncia de Domingos Dutra, mas permanecem no PT pós condenação do Mensalão. Isto chama-se “ética sob holofotes”. E antes que perguntem, poderiam sim colocar outro no lugar do Feliciano, eu mesmo ficaria mais feliz. Outro cristão talvez, se fosse para ser um (PSC), pois como disse, este texto não é nem de longe uma defesa ao deputado Feliciano (defender alguém além de si mesmo é sempre um ato cobrado pelo tempo). O que não podem é difamar uma classe inteira de pessoas.

 

Essa ele compartilhou uma foto com sua mãe e padrastos, negros.

Essa ele compartilhou uma foto com sua mãe e padrastos, negros.

 

O deputado Marco Feliciano errou em suas postagens no Twitter, isto é provavelmente unânime até entre cristãos pentecostais, principalmente no tweet sobre homoafetividade. Seu maior defensor possivelmente dirá que não era lugar para conjecturas teológicas (no caso do tweet sobre o continente africano), ou seja, nem este o defende neste aspecto. Porém sua eleição e aparecimento de toda sorte de vídeos onde ele é acertadamente criticado na forma como recebe ofertas em sua igreja, tem como maior prejudicado os próprios cristãos evangélicos. A difamação fica nas costas deles também, porque o tempo atual é de generalizações. Por isso peço a cada pessoa sensata que venha a ler sobre essa guerra política e cultural que ocorre em Brasília, em função da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, evite generalizações e presunções indevidas.

Ringo Estrela de Almeida
Seu pai era fã de Beatles, mas o homem do cartório não autorizou um segundo nome em inglês. Deu nisso aí. Tão cético, que não consegue ser ateu.

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