15 de Outubro Negro

15 de Outubro Negro

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Disclaimer: Esse texto não é feito para expor minha opinião política, nem entrar em detalhes de bases esquerdistas, anarquistas e nem nada. O objetivo é apenas relatar os fatos ocorridos no dia 15 de Outubro de 2013, no Rio de Janeiro, Dia do Professor.

 

Sou simpatizante dos últimos movimentos de rua, iniciados em São Paulo em Junho, que se espalharam pelo Brasil. Como de rotina em dias de manifestação, aproveitando que trabalho na Avenida Rio Branco (que se localiza no coração do centro do Rio de Janeiro, e foco geográfico da maioria das manifestações aqui em solo carioca) me encaminhei após o término do expediente, às 17h, para a concentração do manifesto na praça da Igreja da Candelária, na Avenida Presidente Vargas.

 

Lá encontro uma imensa diversidade de pessoas: desde esquerdista natos do PSTU e PCB, com suas bandas e cantos, até o cidadão comum, aquele que estava lá simplesmente por estar insatisfeito com as políticas absurdas do governo municipal, estadual e também com críticas ao governo federal. Fico feliz de ver o povo unido, não interessa se você é preto, branco, esquerda, direita, Black Bloc, jovem, universitário… Basta apenas ter o mínimo de consciência política e perceber que não estamos no caminho certo. Aliás, por falar em Black Blocs, daqui a pouco vamos tocar no assunto.

 

A passeata em apoio aos professores começou bastante bela, com cartazes, gritos de apoio e inclusive o famoso “Quem Apoia Pisca a Luz”, ecoando pelos sete cantos da Rio Branco e com total apoio da galera que ainda estava a trabalhar por lá.

 

Por volta das 18:00 horas, o protesto começou a ser aderido pelos Black Blocs, que receberam o total apoio da classe dos professores do Rio de janeiro em uma carta aberta nas última semanas.

 

Cartaz contra os "leilões do petróleo" desfilava pela manifestação.

Cartaz contra os “leilões do petróleo” desfilava pela manifestação. | Créditos: Victor Fortunato.

 

Com uma linda festa, o povo tomou a Cinelândia às 18:30h, juntamente com o #OcupaCamara; com cantos, bandeiras e muitos Black Blocs que participavam da festa pacificamente – a atuação da Polícia Militar estava perfeita até este momento, arrancando aplausos de alguns. Mas calma, essa história vai piorar… e MUITO.

 

O povo simplesmente decidiu fazer da Câmara Municipal, vulgo “Casa do Povo”, de mural para suas indagações, mostrando sua insatisfação com o governo atual do Rio e com o governo federal em relação ao petróleo e Copa do Mundo (“Copa pra quem?”). Contávamos com a presença de Batman e Homem-Aranha “em nome da lei”. Tudo seguiu relativamente pacífico, mas começou a mudar por volta das 20:00h, quando algumas luzes em volta da Cinelândia foram simplesmente apagadas pela Prefeitura, deixando as ruas ao redor bem escuras.

 

Não deu cinco minutos e estourou a primeira bomba de efeito moral; nessa hora estava na escadaria e corri junto com muitos outros manifestantes. Fomos em direção ao foco (acompanhado de milhares de pessoas que aderiram a tática dos Black Blocs) para ver o ocorrido. A partir dali o centro do Rio de Janeiro virou um cenário de caos, com molotovs sendo arremessados contra a Polícia Militar, que revidava com bombas de efeito moral e gás lacrimogênio. Os Blacks imediatamente derrubaram algumas proteções para fazer de escudo, e incrivelmente faziam tudo ao potente som de Rage Against The Machine. Sim, eles levam uma bicicleta com um equipamento de som potente que segue a trilha do confronto, ao som de morteiros de um lado e bombas de efeito moral e lacrimogêneo do outro. Foi configurada a noite de terror carioca… Um cenário de caos! Muitos correram pra se proteger, outros muitos correram para “resistência”. Com a bandeira da anarquia e poder ao povo, os Blacks avançavam sobre a opressão gerada pelo Estado.

 

Linha de frente dos Blacks.

Linha de frente dos Blacks. | Créditos: Victor Fortunato.

 

Os famosos atos simbólicos de vandalismo dos Black Blocs começaram a ser efetuados, e claro, os principais alvos foram os bancos. Vidraças, caixas eletrônicos, todos depredados e as fachadas pixadas com os dizeres como “Abaixo o Capital” e “Aqui tem assédio moral”. Até aí tudo seguia bem, mas havia quem destoasse do grupo (sim, pessoas que não tem a mínima noção do que é ser Black Bloc), até porque Black Bloc não é um grupo, não é organizado, não tem carteirinha de membro, Black Bloc é uma tática de manifesto anarquista contra a opressão do Estado, defesa da população e contra o Capital. Esses destoantes resolveram tentar depredar o Museu da Cultura na Cinelândia e o Consulado da Angola. Eu e mais um grupo conseguimos impedir estragos maiores a esses dois pontos; sou um cara que odeia injustiça, e odeio playboyzinho fazedor de merda, enquadrei uns três ou quatro por isso e admito que quase fui as vias de fatos com eles… Inclusive um que tacava pedra e um policial enquanto ele ajudava um rapaz que tinha se acidentado de moto.

 

A revolução estava instaurada no Centro e com extensão na Glória, o trânsito foi parado. Ônibus e carros de Polícia depredados, a tropa de choque batendo e atirando em todos que passavam (sim, tivemos balas de borracha). O gás lacrimogêneo era algo insuportável por toda aquela extensão do Aterro… Muita correria, choro, revolta.

 

Após muitos e muitos minutos de correria, luta e lágrimas, consegui chegar a um lugar seguro e aguardar a reabertura dos portões da estação de metro da Glória, onde segui para casa.

 

Esses acontecimentos só me fizeram crer que realmente os Black Blocs são um “mau necessário”, e que claro, como não existe controle de quem participa, nem lista de chamada, sempre irá existir aqueles que não são politizados e agem pelo simples impulso de depredar, independente do que seja. Mas pelo que vi, esses são a minoria e são enquadrados pelos mais engajados sempre que acontece. Dia 15 de Outubro foi mais um dia infelizmente normal de manifestação no Rio de Janeiro.

Victor Fortunato
Carioca, Victor Fortunato além de repórter e editor da Feedback, mantém sua paixão pelo universo editorial e é um dos integrantes do canal Cariocando no YouTube.

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  • Nélio Oliveira

    Engraçado… nas manifestações de junho o “povo ordeiro” foi EXTREMAMENTE competente em manter afastadas das manifestações as bandeiras de TODOS os partidos políticos. Essa mesma gente, no entanto, agora se mostra incapaz de manter afastados esses MARGINAIS black blocks.

    Merecem borracha. TODOS.